RELATO POÉTICO SOBRE A COZINHA DE SITI NAS COMORES
Na cozinha de Siti, o peixe chega inteiro, com a cabeça carregando a sabedoria do mar. É delicadamente banhado em leite de coco, temperado com curry, cravo e canela — aromas que atravessam oceanos e séculos. Ao seu lado, a banana e o fruto-pão repousam como dádivas da terra, lembrando que a fartura também nasce dos quintais e das mãos que cultivam.
Cada gesto de Siti ecoa: a forma como segura a faca, a paciência ao mexer o coco, a precisão no uso das especiarias. Esses gestos não surgiram sozinhos. São herança de sua mãe, que aprendeu com a avó. É uma linha invisível que liga gerações de mulheres, onde o saber não se escreve em livros, mas se transmite pelo fogo, pelo aroma e pelo sabor reconhecido a cada mordida.
Durante o Ramadã e nas festas de casamento, quando a família se reúne, esse saber se expande ainda mais. A mesa se enche de produtos locais, colhidos no momento certo, preparados com cuidado e partilhados com alegria. Há também doces e acompanhamentos comorianos, como o Foutra, o Cuscouma Makadaziet Magula Gula e diferentes tipos de molhos, pensados para acalmar e encantar as crianças. Algumas horas depois, saboreia-se o arroz com um molho chamado matapa, feito com folhas de mandioca e coco.
O prato mais importante, mayele na gnama yapihwa tibe na dziwa, é feito de arroz e carne, e representa toda a riqueza e generosidade da cozinha comoriana.
Comer junto, nesses momentos, vai além de saciar a fome: é renovar laços, celebrar a vida em comunidade e afirmar a presença dos antepassados.
Assim, a cozinha de Siti não é apenas alimento. É memória servida em prato fundo, é festa, é oração, é o abraço de quem veio antes e continua vivo em cada tempero.
*Relato construído a partir da convivência e da escuta atenta de Siti, enriquecido pela valiosa colaboração e pelas informações compartilhadas por Abdalla.
Vídeo 1 – Siti prepara sua comida
Siti cozinha com gestos aprendidos da mãe e da avó. O peixe com coco e especiarias, acompanhado de banana e fruta-pão, é mais do que uma refeição: é memória, cuidado e tradição transformados em sabor.
Vídeo 2 – Festa de casamento
Na festa em família, todos celebram juntos. A mesa se enche de arroz, peixe, bolo comorense, Foutra, Cuscouma Makadaziet Magula Gula e diferentes tipos de molhos, especialmente pensados para que as crianças possam aproveitar a festa tranquilamente. Repare nos trajes: os detalhes com traços árabes refletem a história e a identidade cultural do arquipélago.
Vídeo 3 – Abdalla colhe mandioca
No quintal, Abdalla mostra a colheita de mandioca. Essa raiz, cultivada com cuidado, é a base de muitos pratos e garante que as festas e refeições continuem, conectando a terra, o trabalho e a vida cotidiana da comunidade.
Récit poétique sur la cuisine de Siti aux Comores
Dans la cuisine de Siti, le poisson arrive entier, sa tête portant la sagesse de la mer. Il est délicatement baigné de lait de coco, parfumé de curry, de clou de girofle et de cannelle — des arômes qui traversent océans et siècles. À ses côtés, la banane et le fruit à pain reposent comme des dons de la terre, rappelant que l’abondance naît aussi des jardins et des mains qui cultivent.
Chaque geste de Siti résonne d’un écho: la manière dont elle tient le couteau, la patience avec laquelle elle mélange le coco, la précision dans l’usage des épices. Ces gestes ne viennent pas seuls. Ils sont l’héritage de sa mère, qui, elle-même, avait appris de sa grand-mère. C’est une ligne invisible reliant des générations de femmes, où le savoir ne s’écrit pas dans les livres, mais se transmet par le feu, l’odeur et le goût que l’on reconnaît à chaque bouchée.
Pendant le Ramadan et lors des fêtes de mariage, quand la famille se réunit, ce savoir se déploie encore davantage. La table se remplit de produits locaux, récoltés au moment juste, préparés avec soin et partagés avec joie. On y trouve aussi des douceurs et accompagnements comoriens, tels que le Foutra, le Cuscouma Makadaziet Magula Gula et diverses sauces pensées pour calmer et ravir les enfants. Quelques heures plus tard, on savoure le riz avec une sauce appelée matapa, faite de feuilles de manioc et de coco.
Le plat le plus important, mayele na gnama yapihwa tibe na dziwa, est composé de riz et de viande, incarnant toute la richesse et la générosité de la cuisine comorienne.
Partager un repas à ces moments-là dépasse la simple satisfaction de la faim : c’est renouer les liens, célébrer la vie en communauté et affirmer la présence des ancêtres.
Ainsi, la cuisine de Siti n’est pas seulement nourriture. C’est la mémoire servie dans une assiette creuse, c’est la fête, c’est la prière, c’est l’étreinte de ceux qui sont venus avant et qui continuent de vivre dans chaque épice.


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