COCADA E SORVETE DE COCO COM GENGIBRE: UM ENCONTRO DE DUAS RECEITAS E MEMÓRIAS
Em Marselha, o sabor do coco não é um estrangeiro. A cidade, com seu porto que há séculos recebe embarcações de todos os cantos, carrega na boca e na memória as influências de povos asiáticos, africanos e caribenhos que aqui aportaram.
O coco chegou junto com essas histórias, misturando-se ao azeite do Mediterrâneo, ao perfume das especiarias e à doçura do açúcar de cana.
Os marinheiros traziam a fruta inteira ou já ralada e seca, e ela passou a ser vendida em mercados portuários como especiaria exótica, ao lado de canela, baunilha e açúcar mascavo. Em Marselha, por exemplo, confeiteiros começaram a usar coco em calissons (doces de amêndoa típicos da Provença) e em bolos de festa, adaptando receitas tradicionais a esse novo ingrediente tropical.
Conta-se que, no século XIX, nos mercados de Marselha, era possível encontrar cocos frescos trazidos das colônias francesas, especialmente das Antilhas e da África Ocidental, onde o coco era um ingrediente fundamental da culinária local.
Um fato curioso: no Livro de Receitas de Jules Gouffé (1867), considerado um marco da alta cozinha francesa, já aparecem sobremesas com coco ralado, reflexo da influência ultramarina. A partir daí, o coco entrou em preparações clássicas como rochers coco (pequenos bolinhos de coco) e flan antillais (pudim de coco com leite condensado, vindo das Antilhas).
Com o tempo, o coco virou símbolo da diversidade cultural marselhesa, presente não só na alimentação, mas também nas festas, religiões e tradições dessas comunidades.
A cocada, doce tradicional das cozinhas afro-brasileiras, é feita com poucos ingredientes e muito afeto: coco fresco, açúcar e paciência.
Cada pedaço carrega o aconchego dos quintais ensolarados e o calor das festas populares.
Já o sorvete de coco com gengibre, receita do Maria Matamoro, no Pelourinho, meu antigo restaurante, traz frescor e picância, equilibrando suavidade e intensidade — uma combinação que parece ter nascido para o clima ensolarado e o espírito cosmopolita de Marselha.
Servidos juntos, eles contam uma história: a do encontro entre tradições distantes, inovações que se reconhecem no paladar.
É a prova de que, no porto de Marselha, não apenas mercadorias desembarcam, mas também sabores, memórias e afetos.



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