Caderno de Viagem – Marselha, Agosto 2025

Folhas de Lá e de Cá

Ainda sobre as folhas — porque são elas que abrem caminhos.

Caminhos de cheiro, de memória e de vida.

A cena era curiosa, uma verdadeira Babel: barracas conduzidas por senhoras chinesas, falando francês com uma clientela majoritariamente africana.

Entre barracas apertadas e vozes em várias línguas, as folhas me chamaram. Estavam por toda parte: coentro fresco, hortelã em maços generosos, sálvia aveludada, manjericão tailandês com perfume doce e picante.

Vi folhas de uva frescas e enroladinhas, em conserva, prontas pra rechear; folhas de mostarda, folhas e flores de jambu, folhas amargas do Magreb — que pareciam ter vindo direto de um quintal ancestral, e até de berinjela.

Tinha também folhas que nunca tinha visto. Algumas secas em pequenos sacos, outras frescas, cheias de nervuras, vivas, como se ainda estivessem ligadas à terra. Me aproximei para cheirar, tocar. E ali, no meio de tudo, uma senhora senegalesa me mostrou a "m’bouraké", dizendo que servia pra um chá que “expulsa tudo que está atravessado”. 

Sorri. Me lembrei na hora do boldo da minha avó, das folhas de mamão, do tapete-de-oxalá que a vizinha secava no varal.

Bateu saudade da taioba, do ora-pro-nóbis, do cheiro do mato depois da chuva. 

Naquele instante, me veio à cabeça o que sempre repito: antes das carnes e das frituras, foram as folhas que sustentaram o mundo.

Nas cozinhas africanas, as folhas são tudo — base de sopas, de molhos espessos, de curas, de partilhas. São elas que alimentam, nutrem e equilibram. No continente africano, o conhecimento das folhas é profundo, e atravessou o Atlântico com quem foi arrancado de lá.

No Brasil, esse saber virou quintal, roçado e feitiço. E é ele que a gente vê, ainda hoje, na mão das mulheres negras que cozinham com o que a terra dá.

O que mais me tocou, talvez, foi perceber isso: que em qualquer canto do mundo, cozinheiros e cozinheiras populares reconhecem nas folhas um saber. Uma forma de cura, de sustento, de continuidade.

Em Marselha, cidade de travessias e encontros, vi que as folhas também contam histórias. Histórias de viagem, de luta, de saudade, de invenção.

Voltei pra casa com a sacola cheia — ainda sem saber o que faria com aquelas folhas — e o coração mais cheio ainda.

Porque onde há folha, há caminho. E onde há caminho, há casa.

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