📒 CADERNO DE VIAGEM – MARSELHA, 3 DE AGOSTO DE 2025




Entre uma leitura e outra do livro Le Goût de Cotonou, da chef beninense Georgiana Viou, me deparei com o Sousse Goussi – prato ancestral feito à base de sementes de abóbora torradas e moídas, denso, untuoso, profundo no sabor e na memória.

Com suas muitas grafias (égousi, egusi, egoussy, égoussi...), ele revela a pluralidade de uma tradição oral que atravessa fronteiras e resiste no tempo.

Impossível não pensar no nosso Vatapá.

Ambos se constroem em torno da paciência, da mão das mulheres, da sabedoria do pilão, do uso de sementes e amendoins, da gordura boa, do fogo lento e da história contada em camadas.

O Sousse Goussi de Georgiana carrega a alma do Benim. O nosso vatapá carrega o axé da Bahia. E talvez, nas entrelinhas da travessia, falem da mesma coisa: da força da diáspora que alimenta, preserva e reinventa.

Sousse Goussi é um prato típico da culinária do Benim e aparece descrito de forma sensível no livro Le Goût de Cotonou, de Georgiana Viou.

Segundo a autora, trata-se de um molho espesso e encorpado, feito tradicionalmente com farinha da sementes da abóbora, também denominado "pistache africano moulue" ou "Egussi" "Egoussi" na língua Fon, "Com todas as variantes ortográficas da palavra égousi."

Elas são tostadas e moídas, que conferem um sabor profundo, torrado e marcante ao prato.

Essa base pode ser enriquecida com carne ou peixe seco, e muitas vezes leva pimenta, cebola e tomate, dependendo da região e da tradição familiar.

Para Georgiana, o Sousse Goussi é mais que uma receita – é memória afetiva, sabor da infância e símbolo de transmissão feminina: algo preparado com paciência, em família, com o pilão como instrumento central. A preparação exige tempo, cuidado e respeito pelos ingredientes, valores essenciais nas cozinhas de raiz.

Ela destaca também como esse prato revela a inteligência alimentar africana, baseada em aproveitamento integral dos alimentos, técnicas ancestrais e muito sabor.

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