Isso diz muito sobre o atual momento político e sobre as disputas em torno da soberania alimentar e cultural.
A tentativa de silenciar a Culinária Tradicional expõe as forças que buscam padronizar e mercantilizar a comida, enquanto nossa resistência reafirma que os saberes ancestrais e populares são patrimônio vivo e inegociável.
Estou, neste momento, no epicentro da gastronomia mundial, mostrando a riqueza e a diversidade sustentável da nossa cozinha: a luta dos povos quilombolas e dos povos tradicionais, os “matos de comer”, como dizia Câmara Cascudo, e a beleza das práticas alimentares que sustentam minha gente.
É esse patrimônio que garante memória coletiva, resistência cultural e uma relação viva com o território.
Não é a primeira vez que tradições alimentares são invisibilizadas em nome da padronização global.
Basta lembrar da Copa do Mundo no Brasil, quando o acarajé — símbolo da culinária afro-baiana e expressão de um legado ancestral ligado às baianas de tabuleiro e ao candomblé — foi inicialmente banido das áreas oficiais do evento em favor das regras de patrocínio.
Esse episódio mostrou como grandes espetáculos globais, guiados pela lógica do mercado e do neoliberalismo, podem deslegitimar práticas culinárias tradicionais, apagando a diversidade cultural que constitui a verdadeira riqueza de um território.
Essa mesma tensão atravessa a cozinha de Siradji Rachadi, o Yass: ao valorizar produtos locais, técnicas ancestrais e a oralidade que mantém vivas as tradições africanas e afro-diaspóricas, ele enfrenta o desafio de dialogar com espaços de visibilidade global sem permitir que sua culinária seja reduzida a mercadoria ou a espetáculo exótico. Sua trajetória ecoa o dilema de tantos povos: como ocupar esses palcos internacionais sem abrir mão da essência?
Excluir essas vozes não é uma questão de estética ou folclore: é comprometer a soberania alimentar, é negar às comunidades historicamente marginalizadas o direito de existir e de contribuir com soluções reais para o futuro do planeta.
Ao silenciar os saberes tradicionais, a COP30 corria o risco de repetir um modelo que transforma comida em mercadoria, apaga histórias e despreza conhecimentos que, por séculos, sustentaram práticas alimentares verdadeiramente sustentáveis.
A Culinária Tradicional não é luxo nem espetáculo. É vida, memória, resistência. Invisibilizá-la é amputar a possibilidade de pensar a sustentabilidade de forma integral, justa e enraizada.
Por isso, mais do que resistir, é hora de propor. Se a COP30 ameaça silenciar nossas cozinhas, que a Bahia seja o lugar da afirmação.
Proponho que Setembro seja reconhecido como o Mês da Culinária Tradicional na Bahia, não apenas como celebração simbólica, mas como política cultural e alimentar: um período dedicado à valorização dos saberes ancestrais, ao fortalecimento das comunidades tradicionais, à promoção da soberania alimentar e ao reconhecimento das cozinheiras e cozinheiros que fazem da nossa mesa um patrimônio vivo.
Transformar setembro nesse marco seria inscrever, no calendário oficial, aquilo que já pulsa no cotidiano da nossa gente: a culinária como memória, resistência e futuro.
É urgente que a COP30 reconheça a força desses saberes e dê espaço às comunidades que guardam essa memória. Sem elas, qualquer discurso de futuro sustentável será, inevitavelmente, incompleto.
Je ne parviens toujours pas à comprendre pourquoi, lors de la COP30, la Cuisine Traditionnelle sera bannie.
En ce moment, je me trouve au cœur de la gastronomie mondiale, mettant en lumière la richesse et la diversité durable de notre cuisine : la lutte des communautés quilombolas et des peuples traditionnels, les « herbes à manger », comme le disait Câmara Cascudo, et la beauté des pratiques alimentaires qui nourrissent mon peuple. C’est ce patrimoine qui garantit la mémoire collective, la résistance culturelle et une relation vivante avec le territoire.
Ce n’est pas la première fois que les traditions alimentaires sont invisibilisées au nom de la standardisation globale. Il suffit de se rappeler la Coupe du Monde au Brésil, lorsque l’acarajé — symbole de la cuisine afro-bahianaise et expression d’un héritage ancestral lié aux baianas de tabuleiro et au candomblé — a été initialement interdit dans les zones officielles de l’événement, au profit des règles de sponsoring. Cet épisode a montré comment les grands spectacles mondiaux, guidés par la logique du marché et du néolibéralisme, peuvent délégitimer les pratiques culinaires traditionnelles et effacer la diversité culturelle qui constitue la véritable richesse d’un territoire.
Cette même tension traverse la cuisine de Siradji Rachadi: en valorisant les produits locaux, les techniques ancestrales et l’oralité qui maintient vivantes les traditions africaines et afro-diasporiques, il affronte le défi de dialoguer avec des espaces de visibilité mondiale sans permettre que sa cuisine soit réduite à une marchandise ou à un spectacle exotique. Son parcours fait écho au dilemme de tant de peuples : comment occuper ces scènes internationales sans renoncer à l’essence ?
Exclure ces voix n’est pas une question d’esthétique ou de folklore : c’est compromettre la souveraineté alimentaire, c’est refuser aux communautés historiquement marginalisées le droit d’exister et de contribuer à des solutions réelles pour l’avenir de la planète. En réduisant au silence les savoirs traditionnels, la COP30 court le risque de répéter un modèle qui transforme la nourriture en marchandise, efface des histoires et méprise des connaissances qui, depuis des siècles, ont soutenu des pratiques alimentaires véritablement durables.
La Cuisine Traditionnelle n’est ni un luxe, ni un spectacle. Elle est vie, mémoire, résistance. L’invisibiliser, c’est amputer la possibilité de penser la durabilité de manière intégrale, juste et enracinée.
C’est pourquoi, plus que résister, il est temps de proposer. Si la COP30 menace de réduire nos cuisines au silence, que la Bahia soit le lieu de l’affirmation.
Je propose que septembre soit reconnu comme le Mois de la Cuisine Traditionnelle en Bahia, non seulement comme une célébration symbolique, mais comme une politique culturelle et alimentaire : une période dédiée à la valorisation des savoirs ancestraux, au renforcement des communautés traditionnelles, à la promotion de la souveraineté alimentaire et à la reconnaissance des cuisinières et cuisiniers qui font de notre table un patrimoine vivant.
Transformer septembre en ce repère serait inscrire dans le calendrier officiel ce qui pulse déjà dans le quotidien de notre peuple : la cuisine comme mémoire, résistance et avenir.
Il est urgent que la COP30 reconnaisse la force de ces savoirs et ouvre un espace aux communautés qui gardent cette mémoire. Sans elles, tout discours sur un avenir durable sera, inévitablement, incomplet.



Comentários
Postar um comentário