COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS!

A obra, irônica e crítica, discute o encontro entre europeus e povos nativos, expondo o choque de culturas e a violência do colonialismo.

Essa metáfora continua atual. Se ontem os franceses vieram colonizar, hoje muitos imigrantes — brasileiros inclusive — atravessam o Atlântico para trabalhar na França, na Espanha, em Portugal. Por trás do charme gastronômico e do chiqué das cidades francesas, as relações de trabalho na restauração ainda carregam traços de exploração: jornadas longas, turnos partidos e salários baixos.

Não se enganem: por trás das vitrines elegantes, dos cafés charmosos e dos restaurantes estrelados, a vida de quem trabalha na cozinha — imigrante ou francês — está longe de ser fácil.
Nos restaurantes, as brigadas de garçons costumam ser pequenas, e o volume de trabalho aumenta ainda mais no verão, com a abertura das explanadas. Em Marselha, como em tantas outras cidades europeias, buscam-se soluções para lidar com a falta de mão de obra. O que me espanta é que a própria clientela também já parece acostumada a essa nova realidade.

Os turnos partidos — trabalhar no almoço, folgar algumas horas e voltar à noite — são especialmente pesados. São jornadas exaustivas, que muitas vezes começam antes do sol nascer e terminam depois da meia-noite.
E isso não atinge apenas os estrangeiros: os próprios franceses também sofrem a pressão de um setor de margens estreitas e produtividade máxima.

Para os imigrantes, no entanto, a situação costuma ser ainda mais dura. Muitos aceitam contratos instáveis e salários baixos por necessidade, enfrentando barreiras de idioma, preconceito e a falta de redes de apoio. Ao mesmo tempo, sua presença é fundamental para manter viva a engrenagem da gastronomia francesa — basta olhar para a diversidade das cozinhas em Paris, Marselha ou Lyon, onde sotaques e temperos do mundo inteiro alimentam o sabor e a inovação.

A questão trabalhista no setor da culinária na França é urgente: como conciliar a tradição e o luxo do “país da alta cozinha” com o respeito e a dignidade de quem realmente põe a mão na massa? Como garantir que os direitos trabalhistas, tão celebrados no discurso francês, cheguem de fato aos trabalhadores — franceses e estrangeiros — que sustentam o prazer de comer?

No Brasil, o desafio é semelhante: pensar formas mais justas de trabalho. A votação do PL 5x2, que propõe jornadas equilibradas de cinco dias de trabalho e dois de descanso, é um passo importante nesse debate.

No fim das contas, o verdadeiro chiqué não está na estrela Michelin, mas na valorização de quem cozinha, lava, serve e faz a roda girar. Sem essas pessoas, não existe França gastronômica — nem qualquer outra.


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Comme Il Était Bon Mon Français !

Hier, je me suis souvenu du film brésilien culte Comme Il Était Bon Mon Français (1971), de Nelson Pereira dos Santos, une œuvre majeure du cinéma national. L’histoire se déroule au Brésil du XVIe siècle et raconte la saga d’un naufragé français capturé par les Indiens tupinambas, destiné à être dévoré lors d’un rituel anthropophagique. Ironique et critique, le film explore la rencontre entre Européens et peuples autochtones, révélant le choc des cultures et la violence du colonialisme.

Cette métaphore reste d’une actualité frappante. Si hier les Français venaient coloniser, aujourd’hui de nombreux immigrés — y compris des Brésiliens — traversent l’Atlantique pour travailler en France, en Espagne ou au Portugal.
Derrière le charme gastronomique et le chiqué des villes françaises, les relations de travail dans la restauration portent encore les marques de l’exploitation : longues journées, horaires coupés et bas salaires.

Ne vous y trompez pas : derrière les vitrines élégantes, les cafés pittoresques et les restaurants étoilés, la vie de ceux qui travaillent en cuisine — immigrés ou Français — est loin d’être facile.
Dans les restaurants, les brigades de serveurs sont souvent réduites et la charge de travail explose en été, avec l’ouverture des terrasses. À Marseille, comme dans tant d’autres villes européennes, on cherche des solutions pour pallier la pénurie de main-d’œuvre. Ce qui m’étonne, c’est que la clientèle elle-même semble déjà s’habituer à cette nouvelle réalité.

Les horaires coupés — travailler au déjeuner, quelques heures de pause, puis revenir le soir — sont particulièrement éprouvants. Ce sont des journées éreintantes, qui commencent souvent avant le lever du soleil et se terminent après minuit.
Et cela ne concerne pas uniquement les étrangers : les Français eux-mêmes subissent la pression d’un secteur aux marges étroites et à la productivité maximale.

Pour les immigrés, la situation est souvent encore plus difficile. Beaucoup acceptent des contrats précaires et des salaires faibles par nécessité, affrontant barrières linguistiques, préjugés et absence de réseau de soutien. Pourtant, leur présence est essentielle pour faire tourner la machine gastronomique française — il suffit de regarder la diversité des cuisines à Paris, Marseille ou Lyon, où des accents et des saveurs venus du monde entier nourrissent le goût et l’innovation.

La question du travail dans le secteur culinaire en France est urgente : comment concilier la tradition et le luxe du “pays de la haute cuisine” avec le respect et la dignité de ceux qui mettent réellement la main à la pâte ? Comment garantir que les droits du travail, si vantés dans le discours français, s’appliquent réellement à tous les travailleurs — français et étrangers — qui nourrissent le pays au quotidien ?

Au Brésil, le défi est similaire : inventer des formes de travail plus justes. Le vote du projet de loi 5x2, qui propose des semaines de travail équilibrées de cinq jours avec deux jours de repos, représente une étape importante dans ce débat.

En fin de compte, le véritable chiqué ne réside pas dans une étoile Michelin, mais dans la valorisation de ceux qui cuisinent, nettoient, servent et font tourner la roue. Sans eux, il n’existe pas de France gastronomique — ni aucune autre.

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