DESENTENDIMENTO E DESCOLONIZAÇÃO NO COTIDIANO

Trata-se de uma reflexão sobre o que está no cerne da filosofia política ocidental: aqueles que não têm a possibilidade de distinguir entre o que é justo e o que é injusto são rejeitados para o lado das “bestas” e confinados a uma esfera marginal.

> “O povo não é nada mais do que a massa indiferenciada daqueles que não possuem nenhum título positivo — nem riqueza, nem virtude —, mas que, ainda assim, veem-se reconhecidos com a mesma liberdade daqueles que os possuem."

É desse ponto que nasce o desentendimento (mésentente).

O lugar onde esse desentendimento se expressa está no coração da política, pois é ali que o conflito entre as diferentes partes da comunidade ganha forma.

Jacques Rancière nos lembra que a política não nasce do consenso, mas do desentendimento (la mésentente): a irrupção daqueles que, sem títulos, sem riqueza e sem virtude reconhecida, se colocam como iguais diante daqueles que monopolizam os lugares de fala e poder. É nesse gesto de afirmação que se funda a própria ideia de política — não como gestão, mas como conflito em torno do que significa ser parte de uma comunidade.

Essa noção ressoa profundamente quando pensamos a descolonização como prática cotidiana. 

O colonialismo não é apenas um evento histórico do passado; ele persiste como estrutura que define quem pode falar, quem é ouvido, quem é reduzido ao silêncio ou relegado ao lugar da “natureza”, das “bestas”. Descolonizar, no dia a dia, é reabrir o espaço do dissenso, é devolver voz e legitimidade àqueles que foram sistematicamente desautorizados.

Mais do que um horizonte futuro, a igualdade é um ponto de partida.

Rancière insiste que ela deve ser pressuposta antes de ser conquistada. Viver a descolonização no cotidiano é agir já como iguais, seja no uso da língua materna em espaços formais, seja no reconhecimento dos saberes culinários tradicionais, seja na partilha de alimentos e práticas comunitárias. Cada gesto que desloca a ordem hierárquica do mundo é também um ato político.

A descolonização cotidiana não busca apenas integrar vozes no discurso dominante, mas afirmar a potência do conflito e da pluralidade de mundos.

Cozinhar com folhas desprezadas pela lógica industrial, narrar a história a partir das memórias de quilombos e aldeias, recusar a padronização do gosto e do tempo — tudo isso são formas de reabrir o espaço da política no sentido mais radical.

Assim, o desentendimento não é um problema a ser resolvido, mas uma condição necessária da política. 

E a descolonização, quando praticada no cotidiano, é justamente a arte de sustentar esse desentendimento, fazendo emergir vozes e mundos que a colonialidade tentou apagar.


📖 Publicação inspirada em @francoise_verges_decoloniale



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DÉSACCORD ET DÉCOLONISATION AU QUOTIDIEN

Avec une préface de Jacques Rancière, voici la réédition d’un texte publié en 1995.

Il s’agit d’une réflexion sur ce qui est au cœur de la philosophie politique occidentale : celles et ceux qui n’ont pas la possibilité de distinguer entre ce qui est juste et ce qui est injuste sont rejetés du côté des « bêtes » et relégués dans une sphère marginale.

« Le peuple n’est rien d’autre que la masse indifférenciée de ceux qui ne possèdent aucun titre positif — ni richesse, ni vertu — mais qui, néanmoins, se voient reconnaître la même liberté que ceux qui les possèdent. »

C’est de là que naît le désaccord (mésentente). Le lieu où ce désaccord s’exprime est au cœur de la politique, car c’est là que prend forme le conflit entre les différentes parties de la communauté.

Jacques Rancière nous rappelle que la politique ne naît pas du consensus, mais du désaccord (la mésentente) : l’irruption de celles et ceux qui, sans titres, sans richesse et sans vertu reconnue, se posent comme égaux face à ceux qui monopolisent les lieux de parole et de pouvoir. C’est dans ce geste d’affirmation que se fonde l’idée même de politique — non pas comme gestion, mais comme conflit autour de ce que signifie faire partie d’une communauté.

Cette notion résonne profondément lorsque nous pensons la décolonisation comme pratique quotidienne.

Le colonialisme n’est pas seulement un événement historique du passé ; il persiste comme une structure qui définit qui peut parler, qui est entendu, qui est réduit au silence ou relégué du côté de la « nature », des « bêtes ». Décoloniser, au quotidien, c’est rouvrir l’espace du dissensus, c’est rendre voix et légitimité à celles et ceux qui ont été systématiquement disqualifiés.

Plus qu’un horizon futur, l’égalité est un point de départ.

Rancière insiste sur le fait qu’elle doit être présupposée avant d’être conquise. Vivre la décolonisation au quotidien, c’est agir déjà comme des égaux, que ce soit par l’usage de la langue maternelle dans des espaces formels, par la reconnaissance des savoirs culinaires traditionnels, ou par le partage des aliments et des pratiques communautaires. Chaque geste qui déplace l’ordre hiérarchique du monde est aussi un acte politique.

La décolonisation quotidienne ne cherche pas seulement à intégrer des voix dans le discours dominant, mais à affirmer la puissance du conflit et la pluralité des mondes.

Cuisiner avec des feuilles dédaignées par la logique industrielle, raconter l’histoire à partir des mémoires des quilombos et des villages, refuser l’uniformisation du goût et du temps — tout cela sont des manières de rouvrir l’espace de la politique dans son sens le plus radical.

Ainsi, le désaccord n’est pas un problème à résoudre, mais une condition nécessaire de la politique.

Et la décolonisation, lorsqu’elle est pratiquée au quotidien, est justement l’art de soutenir ce désaccord, en faisant émerger des voix et des mondes que la colonialité a tenté d’effacer.


📖 Publication inspirée par @francoise_verges_decoloniale

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