COZINHA E ENGANO: UM BINÔMIO POSSÍVEL?
Por Aldo Lissignoli
A palavra "engano" assume hoje, na maioria dos casos, uma conotação negativa, inclusive na forma como é usada ou referida.
Na realidade, existem contextos em que esse termo designa uma maneira de agir que vai além da função positiva ou negativa, sendo funcional para alcançar objetivos específicos.
O engano militar, por exemplo, é um estratagema militar preciso; na arte, corresponde ao mais conhecido trompe-l’œil, um tipo de pintura cujo objetivo é induzir o espectador a erro, fazendo parecer reais e tridimensionais objetos, personagens ou paisagens que, na verdade, não o são (para outros significados interessantes do termo “engano”, recomendo consultar as definições do Vocabulário Treccani).
No mundo da comida, essa palavra também assume inúmeros significados, às vezes até contraditórios, que variam conforme o contexto, as funções atribuídas e, naturalmente, as simbologias que frequentemente subentende. Um primeiro significado envolve a cozinha e sua relação com a história. No passado, o engano era a chave fundamental no trabalho de transformação de alimentos e matérias-primas pelos cozinheiros.
O objetivo era basicamente produzir alimentos que, embora mudassem substancialmente suas características, estivessem em conformidade com os ditames dietéticos da época. Por séculos, a relação entre cozinha e medicina foi estreita, e o papel da primeira na manutenção da saúde do indivíduo era considerado vital. Os alimentos, portanto, precisavam obedecer a regras dietéticas precisas para preservar o equilíbrio dos humores.
O engano também se relaciona com a sociedade: desde os diversos embalagens de produtos alimentares, passando por problemas ligados a certas formas de cultivo e criação/abate, até chegar às graves consequências do engano associado a abordagens patológicas da alimentação (anorexia, bulimia e obesidade).
Trata-se, portanto, de um termo que ainda hoje está fortemente conectado ao que consumimos e sobre o qual vale a pena refletir, para lançar luz sobre determinadas dinâmicas que envolvem nossa relação com a transformação dos alimentos e seu consumo. Uma maneira igualmente eficaz de sermos consumidores conscientes, capazes de fazer escolhas ponderadas e corretas, para nós mesmos e, sobretudo, para o futuro.


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