Dando continuidade à transcrição do livro Les Cuisines Africaines, realizado durante a Temporada Africa2020, Les Grandes Tables convidou cinco cozinheiros e cozinheiras marselheses para evocarem seus sabores e gestos herdados da África.
Nadjatie Bacar
> “A mestiçagem culinária está em cada um de nós.”
Venho das Comores, mais precisamente de Iconi, uma cidade de pescadores conhecida tanto pela fartura do mar quanto por seus habitantes, famosos por uma teimosia encantadora.
Quando eu era criança, minha avó me mostrou como preparar o mataba, feito de folhas jovens de mandioca amassadas no pilão e cozidas por muito tempo com leite de coco.
Ainda sinto o cheiro das folhas piladas com alho e pimenta. Também guardo uma boa lembrança do goudgoud, que ela fazia nas grandes ocasiões. É um bolo de arroz e leite de coco, caramelizado, que cozinha por muito tempo na brasa e em banho-maria.
Cheguei a Marselha, a cidade mais bonita da França, aos 13 anos. Minha mãe já estava lá; passei alguns anos num bairro muito misto, onde muitas pessoas falavam minha língua. Trabalhei primeiro na confecção de roupas, depois na pré-adolescência trabalhei meio período. Quando terminei a escola, me inscrevi na ANPE, que falou de uma formação em culinária. Aceitei o desafio. Aprendi muito com meu chefe, que me deu cada vez mais responsabilidades.
Aos 21 anos, senti que estava pronta para começar sozinha. Comecei cozinhando em casa e depois abri o Douceur Piquante, no bairro do Panier.
Fragmento dos Cadernos Les Cuisines Africains, n*57
Diálogos que podem ser encontrados na íntegra, em vídeo, no site lescuisinesafricaines.com.
Mais sobre Nadjatie Bacar e sua cozinha
Origem e identidade culinária
Nascida nas Comores e radicada em Marselha, Nadjatie Bacar expressa sua mestiçagem culinária com autenticidade. Em seu restaurante Douceur Piquante, situado no bairro do Panier, ela mescla ingredientes locais com sabores africanos — inclusive para opções flexitarianas e veganas. Ela gosta quando “ça picote” e é conhecida por suas “boulettes magiques”, o pilao de Zanzibar e o goudgoud — um bolo de arroz e leite de coco caramelizado .
Trajetória e trajetória de vida
Aos 17 anos, Nadjatie já era mãe e trabalhou em diversos empregos até que passou por uma formação em culinária — o que mudou seu rumo profissional. Após estagiar no Bar de la Marine e trabalhar no Castell York, onde começou a desenvolver sua voz culinária, ela abriu o Douceur Piquante em 2012 com empréstimo de cerca de 30 mil euros .
Filosofia e estilo de cozinha
Ela evita rótulos como “culinária comoriana” ou “africana”, preferindo dizer que faz “uma cozinha maravilhosa” — guiada por lembranças e ingredientes não transformados, que ela eleva com seu toque pessoal. Em suas criações, infusões de chá no arroz, espessuras aromáticas e combinações ousadas são recorrentes .
Retorno às grandes cenas e novos projetos
Em 2020, participou da temporada Les Cuisines Africaines nas Grandes Tables, trazendo sua inventividade a menus colaborativos. Nessa ocasião, destacou-se por transformar produtos regionais com toques comestíveis inesperados: vinagretes de beterraba, pimentas e limão confitado, por exemplo .
Mais recentemente, em 2025, Nadjatie Bacar participou novamente do festival Cuisines africaines, dando vida a um dos duos de refeições culturais no Douceur Piquante junto com Raïssa Agbassi, do Benin .
Espaço e ambiente
O restaurante mudou sua localização e atualmente funciona em 11 rue Guy Môcquet, no 1º arrondissement de Marselha, com pratos frescos, contemporâneos e preços acessíveis — por volta de 14 € para o menu adulto em 2025 .
Eventos culturais
Douceur Piquante também serve como palco para encontros culturais e festas culinárias. Por exemplo, o evento Mfumbili #4, em abril de 2025, reuniu música, dança e gastronomia sob a curadoria da chef Nadjatie — uma verdadeira celebração sensorial da herança oceânica e africana em Marselha .
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