🔥A ARTE QUE INCENDEIA: DO ROMANCE À REALIDADE, A LUTA CONTRA O SILENCIAMENTO


Recebi de Emili Irene Sofia, jovem e sensível artista, guardem esse nome, extremamente pertinente para o nosso tempo, a indicação de um livro que toca em uma questão urgente: em Marselha, assim como no Brasil, há um esforço sistemático de silenciar vozes destoantes e criminalizar a arte que nasce nos guetos — seja o baile funk, seja o hip-hop.

Num mundo em que as vozes das periferias ecoam cada vez mais forte através da arte, as estruturas de poder seguem um roteiro previsível: repressão, marginalização e criminalização.

Essa dinâmica não pertence a um único território. 
Está em Marselha, descrita no romance, e também nas quebradas brasileiras, onde o funk e o hip-hop seguem pulsando como formas legítimas de expressão e resistência.

A trajetória de Blanche, protagonista da obra, reflete de maneira impressionante as batalhas travadas por artistas e ativistas no Brasil. 
Ao ingressar no conservatório de dança, ela se depara com um ambiente que tenta domesticar seus movimentos e controlar sua expressão artística — sobretudo quando se volta para o hip-hop, uma linguagem que desafia os padrões estabelecidos.

De forma semelhante, no Brasil, o funk é alvo constante de operações policiais, projetos de lei restritivos e discursos estigmatizantes que tentam calar essa manifestação cultural que nasceu e cresceu nas comunidades. 
O caso de Thiago "Chavoso da USP" Torres, na Câmara Municipal de São Paulo, ilustra dramaticamente esse embate: ao afirmar que "o crime organizado existe em todo lugar, inclusive nesta Casa", ele expôs a hipocrisia de um sistema que criminaliza seletivamente e despertou a fúria das elites. 
A ameaça de prisão feita pelo vereador Rubinho Nunes revelou o pânico diante de vozes que ousam denunciar contradições estruturais.

Assim como Blanche descobre na dança hip-hop uma ferramenta de libertação pessoal e coletiva, os jovens das periferias brasileiras encontram no funk e em outras manifestações culturais um instrumento de afirmação identitária e resistência política.

Ambas as realidades evidenciam que a arte que emerge dos guetos possui uma potência transformadora capaz de ameaçar a ordem estabelecida — e justamente por isso se torna alvo preferencial de repressão.

A repressão à arte periférica segue uma lógica transnacional: em Marselha, pela imposição de padrões artísticos hegemônicos; no Brasil, pela criminalização explícita. Em ambos os contextos, o que está em jogo é o direito de existir e criar fora dos marcos tolerados pelo establishment.

Contudo, tanto o romance de Balavoine quanto a realidade brasileira demonstram que as chamas da criação artística não se apagam facilmente. Blanche persiste na dança, encontrando no hip-hop uma linguagem de rebeldia e autonomia. 
O funk, no Brasil, resiste porque traduz uma realidade que insiste em existir e ser ouvida.

Essa analogia entre ficção e realidade nos convida a refletir sobre os mecanismos de controle que atravessam diferentes territórios, mas também sobre a força humana de transformar a arte em ferramenta de libertação — mesmo quando a repressão ameaça consumir todas as vozes destoantes.



📚 Informações sobre o livro

Título: Comme Nous Brûlons

Autora: Lisa Balavoine

Editora: Rageot

Ano: 2023

Público-alvo: a partir de 14 anos

Páginas: 253

ISBN: 9782700280357

Preço: €16,00 (físico) / €11,99 (e-book) / CAD$27,95 (internacional)

Temas principais: dança (balé e hip-hop), amizade intensa, adolescência, descoberta corporal, paixão, conflitos emocionais

Formato narrativo: versos livres e caligramas, com estrutura poética e emocional



@elcocineroloko

🔥 L’ART QUI ENFLAMME : DU ROMAN À LA RÉALITÉ, LA LUTTE CONTRE LE SILENCE




J’ai reçu de Emili Irene Sofia, jeune artiste d’une grande pertinence pour notre époque, la recommandation d’un livre qui met en lumière une question urgente : à Marseille, comme au Brésil, on assiste à un effort systématique de faire taire les voix dissidentes et de criminaliser l’art qui naît dans les ghettos — qu’il s’agisse du baile funk ou du hip-hop.

📖 Comme Nous Brûlons, de Lisa Balavoine, illustre cette réalité avec force. Dans un monde où les voix des périphéries résonnent de plus en plus fort à travers l’art, les structures de pouvoir suivent un scénario prévisible : répression, marginalisation et criminalisation.

Cette dynamique n’appartient à aucun territoire en particulier. Elle est présente à Marseille, décrite dans le roman, mais aussi dans les favelas et quartiers populaires brésiliens, où le funk et le hip-hop continuent de vibrer comme formes légitimes d’expression et de résistance.

Le parcours de Blanche, protagoniste de l’ouvrage, reflète de façon frappante les luttes menées par les artistes et activistes au Brésil. En entrant au conservatoire de danse, elle se confronte à un environnement qui cherche à domestiquer ses mouvements et à contrôler son expression artistique — surtout lorsqu’elle se tourne vers le hip-hop, un langage corporel qui échappe aux normes établies.

De la même manière, au Brésil, le funk est sans cesse la cible d’opérations policières, de projets de loi restrictifs et de discours stigmatisants qui tentent d’étouffer cette manifestation culturelle née et grandie dans les communautés. Le cas de Thiago "Chavoso da USP" Torres, au Conseil municipal de São Paulo, illustre de manière dramatique cet affrontement : en affirmant que « le crime organisé existe partout, y compris dans cette Maison », il a mis à nu l’hypocrisie d’un système qui criminalise de façon sélective et a éveillé la colère des élites. La menace d’arrestation proférée par le conseiller Rubinho Nunes a révélé la panique des pouvoirs en place face aux voix qui osent dénoncer leurs contradictions.

Tout comme Blanche découvre dans la danse hip-hop un outil d’émancipation personnelle et collective, les jeunes des périphéries brésiliennes trouvent dans le funk et d’autres expressions culturelles un instrument d’affirmation identitaire et de résistance politique. Ces deux réalités montrent que l’art issu des ghettos porte en lui une puissance transformatrice capable de menacer l’ordre établi — et c’est précisément pour cela qu’il devient une cible privilégiée de répression.

La répression de l’art périphérique suit une logique transnationale : à Marseille, par l’imposition de normes artistiques hégémoniques ; au Brésil, par la criminalisation explicite. Dans les deux cas, ce qui est en jeu, c’est le droit d’exister et de créer en dehors des cadres tolérés par l’establishment.

Pourtant, le roman de Balavoine comme la réalité brésilienne montrent que les flammes de la création artistique ne s’éteignent pas si facilement. Blanche persiste dans la danse, trouvant dans le hip-hop un langage de rébellion et d’autonomie. Le funk, au Brésil, résiste parce qu’il exprime une réalité qui insiste à exister et à être entendue.

Cette analogie entre fiction et réalité nous invite à réfléchir sur les mécanismes de contrôle qui traversent différents territoires, mais aussi sur la force humaine qui transforme l’art en outil de libération — même quand la répression menace de consumer toutes les voix dissidentes.


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📚 Informations sur le livre

Titre : Comme Nous Brûlons

Autrice : Lisa Balavoine

Éditeur : Rageot

Année : 2023

Public cible : à partir de 14 ans

Nombre de pages : 253

ISBN : 9782700280357

Prix : 16,00 € (version papier) / 11,99 € (e-book) / 27,95 CAD (version internationale)

Thèmes principaux : danse (classique et hip-hop), amitié intense, adolescence, découverte du corps, passion, conflits émotionnels

Format narratif : vers libres et calligrammes, à la structure poétique et émotionnelle


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