CADERNO DE VIAGEM – MARSEILLE, DIA 9 DE AGOSTO
A noite foi longa e a conversa saborosa; sobrou até Schopenhauer. No meio desse papo, que girava sobre culinária e a presença africana na Europa, alguém me indicou um lugar especial: Mame Diarra, um restaurante senegalês conhecido pelo seu famoso Tieboudienne — aquele prato tradicional do Senegal que é até patrimônio imaterial da humanidade pela UNESCO.Logo me lembrei dos tempos em que morava em Madrid e curtia esse prato, e não resisti à vontade de matar a saudade aqui em Marseille.
O restaurante fica na rue de l'Académie, 30. Já na calçada, senti o aroma do peixe cozido lentamente com legumes, arroz e especiarias — um convite irresistível para entrar.
Para quem ainda não experimentou, o Tieboudienne carrega memórias profundas. Vem do Atlântico, atravessa fronteiras e, hoje, aqui na França, é um símbolo forte de resistência cultural e identidade, especialmente em tempos de diáspora e mistura. Cada garfada tem sabor de conversa.
Uma curiosidade: o Tieboudienne tradicionalmente se come com as mãos, uma prática que aproxima ainda mais da cultura e da tradição do prato. No entanto, não foi o meu caso — logo que cheguei, a simpática garçonete me trouxe talheres, e durante a minha visita não vi ninguém comendo com as mãos. Será uma questão de aculturação?
A comida veio bem servida e, pela primeira vez, experimentei o suco de baobá, uma bebida deliciosa que me trouxe à memória o sabor do tamarindo.
Fui atendido com gentileza, embora de forma um pouco impessoal. Tentei puxar um papo com a cozinha, saber mais dos bastidores, mas não rolou — nada que tirasse minha empolgação, claro.
A comida é farta, bem reconfortante, num ambiente simples e familiar. Não tem bebida alcoólica, então fui de suco de baobá, que caiu como uma luva para acompanhar tudo.
Saio daqui com o estômago cheio e o coração aquecido, pensando em como a comida tem esse poder incrível de nos conectar com histórias e lugares, mesmo quando estamos longe de casa.


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