A FAROFA E A DEMOCRACIA DO PRATO BRASILEIRO

Ontem demos início ao serviço do Cuscuz com Mariscada, uma forma de apresentar aos franceses não apenas um prato, mas uma ponte entre mundos. 
Aqui, quando se fala em cuscuz, pensa-se imediatamente na sêmola de trigo — o milho quase não aparece, ou surge como raridade. 
No entanto, ao trazer o nosso cuscuz de milho, com seu sabor popular e profundo, abrimos espaço para um diálogo culinário, onde tradição e novidade se encontram.

Esse movimento não é isolado. 
Outros chefs do festival também têm provocado deslocamentos culturais ao usar diferentes grãos e farinhas. 
O chef Hamza, por exemplo, apresentou seu cuscuz de cevada, mostrando que o simples gesto de escolher o grão já é uma declaração de identidade.

No nosso caso, o grão de milho não vem sozinho: ele traz consigo memórias, quintais, afetos e uma herança afro-indígena que atravessa séculos. E, junto dele, chega a farofa, que acabou se tornando protagonista inesperada entre os franceses.

Dois momentos vividos merecem registro.
O primeiro aconteceu ontem: um cliente terminou toda a refeição e deixou a farofa para o final, como quem guarda o melhor pedaço da vida para degustar com calma.
O brilho em seu rosto entre desejo e satisfação era a prova de que a farofa fala uma língua universal — a da emoção.
O segundo ocorreu dias atrás: uma pessoa, sem cerimônia, misturava arroz, feijão, carne e farofa. 
A cada garfada, um prazer quase arrebatador. E então pensei: “isso só pode ser brasileiro”.

Essa entrega genuína é a prova de que comer, para nós, vai além da nutrição. É ato de memória, de reconhecimento, de afeto. Como lembrou Roberto DaMatta, nossa cultura alimentar não se organiza por compartimentos rígidos.
No Brasil, misturar é criar harmonia, é democratizar o prato. 
Essa “democracia da comida” faz com que arroz, feijão, carne e farofa dividam o mesmo espaço, sem hierarquia, revelando nossa forma de lidar com a diversidade: convivendo, improvisando, somando.

Nesse cenário, a farofa é mais que acompanhamento: ela é gesto e linguagem. Como observa o antropólogo Carlos Alberto Dória, a farofa tem a função de ligar, de dar sentido e unidade ao prato. Ela absorve sabores, oferece textura e cria comunhão. Transita livremente da mesa mais humilde ao restaurante refinado, sempre carregando consigo o símbolo da brasilidade.

A farofa, afinal, é metáfora de nós mesmos. Pode ser guardada como tesouro ou misturada a tudo sem cerimônia — e em ambos os casos, traduz nosso modo de ser: coletivo, afetivo e plural. No milho do cuscuz e na farinha da farofa está uma filosofia de vida, uma pedagogia do encontro. E talvez seja por isso que, ao provar, os franceses sorriem: porque no fundo a farofa revela um segredo simples — a comida é um convite à comunhão.


🥖🇫🇷  LA FAROFA ET LA DÉMOCRATIE DE L’ASSIETTE BRÉSILIENNE

Hier, nous avons lancé le service du couscous à la mariscada, une manière d’offrir aux Français bien plus qu’un plat : une passerelle entre deux mondes. Ici, lorsqu’on parle de couscous, on pense immédiatement à la semoule de blé — le maïs y est presque absent, rare. En apportant notre couscous de maïs, avec sa saveur populaire et profonde, nous ouvrons un espace de dialogue culinaire où tradition et nouveauté se rencontrent.

Ce geste n’est pas isolé. D’autres chefs du festival explorent aussi cette liberté du grain. Le chef Hamza, par exemple, a présenté un couscous d’orge, montrant que le choix même de la céréale devient une affirmation d’identité.

Dans notre cas, le maïs n’arrive pas seul : il porte avec lui des mémoires, des jardins familiaux, des affects et un héritage afro-indigène qui traverse les siècles. Et avec lui, s’invite la farofa, devenue ici une véritable révélation pour les Français.

Deux instants vécus méritent d’être racontés.
Le premier, hier : un client a terminé tout son repas et a gardé la farofa pour la fin, comme on réserve le meilleur morceau de la vie pour le savourer avec lenteur. Le sourire sur son visage, entre désir et satisfaction, était la preuve que la farofa parle un langage universel — celui de l’émotion.
Le second, quelques jours auparavant : une personne mélangeait, sans retenue, riz, haricots, viande et farofa. À chaque bouchée, une joie débordante. Et j’ai pensé : « cela ne peut être qu’une Brésilienne ».

Cet abandon sincère montre que manger, pour nous, dépasse largement la simple nutrition. C’est un acte de mémoire, de reconnaissance, d’affection. Comme l’a souligné l’anthropologue Roberto DaMatta, notre culture alimentaire ne fonctionne pas par compartiments rigides. Au Brésil, mélanger, c’est créer l’harmonie, c’est démocratiser l’assiette. Cette « démocratie culinaire » permet au riz, aux haricots, à la viande et à la farofa de partager le même espace, sans hiérarchie, révélant notre façon d’habiter la diversité : cohabiter, improviser, additionner.

Dans ce contexte, la farofa n’est pas un simple accompagnement : c’est un geste, une langue. Comme l’explique l’anthropologue Carlos Alberto Dória, la farofa a pour fonction de lier, de donner sens et unité au repas. Elle absorbe les saveurs, offre de la texture, crée de la communion. Elle circule librement de la table la plus modeste au restaurant le plus raffiné, sans jamais perdre sa force symbolique.

La farofa est, en somme, une métaphore de nous-mêmes. Elle peut être gardée comme un trésor ou mêlée à tout sans distinction — dans les deux cas, elle traduit notre manière d’être : collective, affective et plurielle. Dans le maïs du couscous et dans la farine de la farofa se loge une philosophie de vie, une pédagogie de la rencontre. Et peut-être est-ce pour cela que, en goûtant, les Français sourient : parce qu’au fond, la farofa révèle un secret simple — la cuisine est une invitation à la communion.

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