CULTURA ALIMENTAR, TURISMO E TERRITÓRIO: REFLEXÕES DESDE MARSELHA
Estar em uma cidade como Marselha, no sul da França, é mergulhar em uma experiência multicultural rara no contexto europeu. Aqui, a diversidade não se expressa apenas nos rostos, nos idiomas ou nas músicas que ecoam pelas ruas, mas, sobretudo, na comida — essa linguagem universal que conecta memórias, histórias e territórios.
O que salta aos olhos é como o turismo cultural em Marselha está profundamente enraizado no reconhecimento das agriculturas locais e das culturas alimentares de povos historicamente marginalizados.
A cidade tem investido em estruturas que integram mercados, restaurantes, feiras, festivais e centros culturais que valorizam o alimento como patrimônio e como ferramenta de convivência.
O resultado é um turismo mais qualificado — aquele que se aproxima do território com respeito, que aprende com quem planta, cozinha, vive e compartilha saberes.
É especialmente marcante perceber como a cultura alimentar de povos africanos — mesmo em um país marcado por um passado colonial — é acolhida de forma inclusiva em muitos dos espaços culturais da cidade. Essa inclusão não é concessão: é afirmação política e estética. Reconhece-se que essas cozinhas sustentaram territórios, resistiram ao apagamento e hoje ajudam a reinventar a identidade da cidade.
Marselha parece ter compreendido que cultura não é adereço do turismo — é seu fundamento. E os serviços e comodidades que se desenvolvem a partir dessa visão — transporte acessível, infraestrutura pública, apoio à agricultura urbana e redes de suporte a trabalhadores culturais — qualificam não apenas o setor turístico, mas também a vida cotidiana da população.
Tive a sorte de cruzar caminhos com pessoas como Fabrice Lextrait e Axel Mbecha Tiezan, cujas ideias e práticas reforçam essa perspectiva de uma cultura alimentar viva, inclusiva e comprometida com o social. As conversas que trocamos foram sementes lançadas em solo fértil.
Falo tudo isso porque venho de um lugar igualmente diverso, rico em cultura e, sobretudo, dono de uma culinária popular genuína — uma comida com identidade, que carrega caráter. Mas, ao contrário de Marselha, minha cidade ainda está longe de reconhecer o valor profundo dessa riqueza.
Estar aqui, contrariamente ao senso comum, não é fruto de prestígio pessoal, mas sim resultado de um trabalho que insiste em mostrar o óbvio: a potência criativa que já existe em nossos territórios.
Não estou aqui pelos meus belos olhos. Estou aqui como fruto das articulações do meu projeto Oficinas Sotoko, das vozes e histórias das mulheres dos quilombos que me atravessam e me guiam. É a elas que devo meus aplausos e meu respeito.
Também reconheço e agradeço a força de Monique Badaró, que acredita e atua incansavelmente na premissa de que comida é cultura.
E como tal, deve ser reconhecida como fonte de renda, de trabalho, de redução de desigualdades.
Comida que visibiliza territórios e insere o país em um outro patamar de civilidade — mais justo, mais plural, mais inteiro.
Essa residência integra o projeto de intercâmbio Cozinhas de l’Extraordinaire, organizado por Les Grandes Tables (França) e Braço Social (Brasil), no âmbito da Temporada Brasil-França 2025, com o apoio da Petrobras, via Lei Rouanet — esta última tantas vezes demonizada por ignorância ou má-fé.
Este é um projeto que aposta na culinária como linguagem de encontro entre territórios, como campo de criação, partilha e transformação.
Pensar turismo cultural a partir dessa experiência é, para mim, um chamado urgente para repensarmos os modelos em outros contextos, como o Brasil. Precisamos de um turismo que não explore, mas colabore; que não consuma, mas escute; que não apenas visite, mas se envolva — e se transforme.
Merci bocoup
CULTURE ALIMENTAIRE, TOURISME ET TERRITOIRE : RÉFLEXIONS DEPUIS MARSEILLE
Être dans une ville comme Marseille, dans le sud de la France, c’est plonger dans une expérience multiculturelle rare dans le contexte européen. Ici, la diversité ne s’exprime pas seulement dans les visages, les langues ou les musiques qui résonnent dans les rues, mais surtout dans la cuisine — ce langage universel qui relie les mémoires, les histoires et les territoires.
Ce qui frappe, c’est à quel point le tourisme culturel à Marseille est profondément enraciné dans la reconnaissance des agricultures locales et des cultures alimentaires de peuples historiquement marginalisés. La ville a investi dans des structures qui intègrent marchés, restaurants, foires, festivals et centres culturels valorisant l’alimentation comme patrimoine et comme outil de convivialité. Le résultat est un tourisme plus qualifié — un tourisme qui s’approche du territoire avec respect, qui apprend de ceux qui cultivent, cuisinent, vivent et partagent leur savoir.
Il est particulièrement marquant de constater comment la culture alimentaire des peuples africains — même dans un pays marqué par un passé colonial — est accueillie de manière inclusive dans de nombreux espaces culturels de la ville. Cette inclusion n’est pas une concession : c’est une affirmation politique et esthétique. On reconnaît que ces cuisines ont nourri les territoires, résisté à l’effacement, et qu’elles contribuent aujourd’hui à réinventer l’identité de la ville.
Marseille semble avoir compris que la culture n’est pas un accessoire du tourisme — elle en est le fondement. Et les services et commodités qui se développent à partir de cette vision — transports accessibles, infrastructures publiques, soutien à l’agriculture urbaine, réseaux de soutien aux travailleurs culturels — ne qualifient pas seulement le secteur touristique, mais aussi la vie quotidienne de la population.
J’ai eu la chance de croiser des personnes comme Fabrice Lextrait et Axel Mbecha Tiezan, dont les idées et les pratiques renforcent cette perspective d’une culture alimentaire vivante, inclusive et engagée socialement. Les conversations que nous avons eues ont été autant de graines semées dans un sol fertile.
Je dis tout cela car je viens moi aussi d’un lieu tout aussi divers, riche en culture et, surtout, porteur d’une cuisine populaire authentique — une cuisine avec une identité, un caractère. Mais, à la différence de Marseille, ma ville est encore loin de reconnaître la valeur profonde de cette richesse.
Être ici, contrairement au sens commun, n’est pas le fruit d’un prestige personnel, mais bien le résultat d’un travail qui insiste à montrer l’évidence : la puissance créative déjà présente dans nos territoires.
Je ne suis pas ici pour mes beaux yeux. Je suis ici grâce aux articulations de mon projet Oficinas Sotoko, grâce aux voix et aux histoires des femmes des quilombos qui me traversent et me guident. C’est à elles que vont mes applaudissements et mon profond respect.
Je rends aussi hommage au travail de Monique Badaró, qui croit et agit inlassablement selon la conviction que la nourriture est une forme de culture. Et en tant que telle, elle doit être reconnue comme source de revenu, de travail, de réduction des inégalités. Une nourriture qui rend visibles les territoires et inscrit le pays dans une autre dimension de civilité — plus juste, plus plurielle, plus entière.
Cette résidence s’inscrit dans le projet d’échange Cuisines de l’Extraordinaire, organisé par Les Grandes Tables (France) et Braço Social (Brésil), dans le cadre de la Saison France-Brésil 2025, avec le soutien de Petrobras, via la Loi Rouanet — si souvent diabolisée par ignorance ou mauvaise foi.
Il s’agit d’un projet qui mise sur la cuisine comme langage de rencontre entre territoires, comme espace de création, de partage et de transformation.
Penser le tourisme culturel à partir de cette expérience est, pour moi, un appel urgent à repenser les modèles dans d’autres contextes, comme celui du Brésil. Nous avons besoin d’un tourisme qui ne soit pas d’exploitation, mais de collaboration ; qui n’absorbe pas, mais écoute ; qui ne se contente pas de visiter, mais s’engage — et se transforme.
Merci bocoup



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