Santo Antônio no Santo Antônio
Por Alex Simões
Eu sou de um bairro que na minha infância nos anos 70 era um interior dentro da cidade. sou da Fazenda Grande do Retiro, da avenida Bahia, rua que vai dar na Gomeia, a de Joãozinho, do Terreiro.
Na Gomeia meus tios e meu pai iam tomar banho de um rio que já conheci como vala de esgoto. Eu não tomei banho no rio da Goméia e não conheci o terreiro, embora minha avó tenha se iniciado lá e minha mãe biológica ia lá quando criança.
Mas até os meus 7 anos, vivi numa rua de terra batida e ia brincar com meus amigos na Rocinha, que a gente assim chamava porque era um lugar que tinha árvores onde crianças podiam subir.
Sim, eu tive infância de trepar em árvore.
Com a década de 80, chegaram o asfalto na minha rua e todo o resto que vem junto.
Quando adolescente, fui estudar no Severino Vieira, e entre os colegas tinha duas que eram irmãs, filhas de uma doceira moradora no bairro de Santo Antonio.
Provavelmente fui a primeira vez na casa delas, que dava para o mar para o qual a gente nem dava bola, para fazer algum trabalho de grupo.
Estamos já nos anos 90 e o Pelourinho tinha sido reformado e coisa e tal e era aquele shopping a céu aberto. Eu frequentava o Pelourinho, mas o Santo Antonio era onde minhas amigas moravam e onde tinha a pracinha que parecia uma cidade do interior.
Foi assim que fui apresentado ao bairro e à festa do Santo Antônio: pelas moradoras do bairro, por uma das quituteiras da festa.
São João é minha festa predileta.
O Santo Antônio sempre foi pra mim aquele lugar de memórias atávicas: vida de interior na cidade, festa junina, comida e licor.
Comer bolo de carimã, milho e amendoim cozido, canjica é parte de um ritual que na minha mitologia pessoal remete ao paraíso. Se eu fosse obrigado a comer apenas um ingrediente, escolheria sem pestanejar: o milho.
Se eu tivesse de escolher apenas um mês para viver ad infinitum, seria junho.
O Santo Antônio no Santo Antônio é um modo de me manter na infância em que subia em árvores e ia de casa em casa comer e beber até me fartar. Mesmo hoje, com tantas mudanças na paisagem do bairro - e nem vou tratar aqui, juro, do momento de exceção que estamos vivendo - , com a chegança de artistas modernos, muitos deles meus amigos, que hoje moram no bairro, passar pelo Largo do Santo Antônio é passar pela pracinha do interior.
E penso que essa sensação é muito costurada pela presença das barracas juninas que dão esse ar de quermesse sincrética, de Santo Antônio e Ogum celebrados, que dão coesão e tom a essa pracinha do interior, entre a igreja, o casario, o Forte e o mar, mas que no meu imaginário sempre vem cheia de barracas cheias de pessoas rindo e falando alto, com delícias de beber e de comer e celebrar a alegria de estar junto.




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