Fé na Festa-Anatomia dos festejos de Santo Antonio na Bahia.
Três mulheres guardam o legado da Culinária de Santo Antônio, através da Feijoada, do Mingau, e do Pãozinho de Santo António, típico da sociabilidade baiana.
Santo Antônio de Pádua, que tem como nome de batismo Fernando Bulhões, é português, na verdade.
Morto em 1231, foi oficialmente nomeado comandante das forças de segurança do Rio de Janeiro em 1710.
A intimidade com Antônio, tem o caráter de ser um santo considerado casamenteiro, são muitas as fontes que demonstram que muitas moças humildes, pediam ajuda ao santo ajuda para conseguir marido,levando algum alimento aos pés do santo.
Na Bahia foi sincretizado com Ogum, nos candomblés do Recife com Xangô, e até com Exu, em vários terreiros cariocas.
Entre as manifestações de devoção a Santo António podem referir-se: exercícios piedosos, tais como novenas, trezenas e a terça-feira de Santo António, motivada pelo dia dos seus funerais com milagres abundantes; o breve de Santo António, ou costume de trazer uma medalha com a imagem do taumaturgo de um lado e, do outro, uma frase revelada pelo Santo a uma portuguesa endemoninhada do século XIII:
“Ecce crucem Domini, fugite partes adversae!
Vicit Leo de tribu Iuda, radix David, Alleluia, Alleluia”; o pão dos pobres, instituição assistencial criada pela devoção antoniana.
Dava-se pão, como esmola, aos pobres, para prestar honra ao Santo.
A origem desta devoção remonta a um prodígio narrado pela Rigaldina e pelo Liber miraculorum.
Certa mãe consegue a ressurreição do filhito, naufragado numa banheira.
Para isso promete ao Santo dar aos pobres o peso da criança em trigo.
A devoção popular antoniana dá, assim, frutos de muito pão que vai para a mesa dos necessitados.
Graças ao desprendimento de muitos, provocado por Santo António, os pobres têm pão e comida quente.
Na Bahia, a tradição se mantem viva.
Em muitas comunidades eclesiais ainda podemos ver essa prática.
No Pelourinho, na igreja de São Francisco as terças da bênção, se obtém o Pão de Santo António, que o baiano guarda na farinheira, para nunca faltar o item de tanta importância.
Durante todo ano, as igrejas de Santo Antônio Além do Carmo e Nossa Senhora da Piedade doam pão às terças-feiras, que é o dia da semana em que Santo Antônio morreu.
Já na Igreja Santo Antônio da Barra, a distribuição para a população carente acontece às quartas-feiras.
As comemorações dedicadas a Santo Antonio, tem na cozinha popular baiana, a característica de que na ultima noite, ou seja a noite mais longa do ano, muitas comunidade mantém a tradição de espichar a noite, com a preparação de farta feijoada, que mais tarde deu origem aos Sambas de São João.
Este evento tão importante, das manifestações populares da Bahia, guardam um importante conteúdo da Culinária de Santo António, a tradição do Pãozinho de Santo António, dos mingaus e doces e da tradicional Feijoada, para a guarda da Prosperidade, Solidariedade, e principalmente da comensalidade baiana.
Lina Paula Costa Lima nasceu em São Francisco do Conde, mantém a tradição de Dona Lina (sua mãe), que tem na Feijoada sua grande referência, no período da trezena do Santo, o evento acontece na Casa de Cultura e Memória, que guarda também a magia de Ogum, como nossa ancestralidade Africana.
Lina Paula Costa Lima 41 anos, é pedagoga por formação e ensina crianças em São Francisco do Conde, e em Salvador, é coordenadora do Samba de Roda São Gonçalo e atualmente Secretaria do Núcleo de Baianas de São Francisco do Conde.
Neta de Dona Lina Alves da Silva, que deixou muitas tradições, entre as quais a participação nos festejos com seu Grupo de Baianas, Sambadeiras da Cidade, Rezadeira com as Folhas, Parteira e Rezadeiras de Santo António, cultivando também de forma sincrética Ogum, para quem oferecia uma Feijoada em homenagem à Antonio.
Essa tradição está em nosso sangue, conta Lina, estas, e outras tradições festivas, são mantidas pela família.
"Minha mãe ainda hoje conduz o Samba de Roda São Gonçalo, o Bar da Cultura no corredor cultural do Cais de São Francisco do Conde.
Toda esta Tradição é mantida na Casa de Cultura e Memória Dona Lina Alves.
"Aqui em casa, aprendemos desde cedo a respeitar nossas tradições, e sabemos da importância deste culto.
A Feijoada leva vários tipos de carne, feita em uma grande panela de 50 litros, feita com água da fonte da Casa de Cultura, servida com muita fé em Santo António e Ogum como é tradição da nossa Família em São Francisco do Conde"
Rita de Cássia nasceu em Arembepe, mantem há muitos anos a tradição do Santo António da Caraúna, e a culinária dos Mingaus, dos bolos e doces.
Herdeira do matriarcado familiar, sua mãe era baiana de acarajé, hoje, seguindo seus passos, Rita mantém seu tabuleiro em Arembepe.
"Era grande a ilusão na época, fui criada nesta tradição, desde muito menina, fui ensinada por minha mãe, a preparar o mingau de milho, de tapioca, os bolos que eram servida nas trezenas, ela trabalhava como ambulante.
Naquela época, tínhamos o costume de rezar a cada dia, na casa de um vizinho, decorávamos a casa com folhas, a labuta era grande.
Primeiro ralar o coco, para extrair o leite grosso e o fino, fazer a *boneca (saquinho feito de tecido saco, onde se coloca o cravo, a canela), e temperar com folha de laranja ou água de flor, antigamente se usava para dar um sabor especial.
Aprendi a fazer todos os mingaus, o de Milho, o de Tapioca, o Mugunzá, os bolos de fubá. Para cada dia, uma iguaria, e cada um tem seu segredo, seu detalhe.
Hoje não fazemos mais nas casas, construímos uma palhoça na rua, decoramos com bandeirinhas e flores de papel, ali nos encontramos, rezamos para nosso santinho, e depois ao final, servimos os preparados.
No ultimo dia era uma alvoroço, a preparação da Feijoada, onde varávamos a noite, para aguentar o samba, ate a manha seguinte, eram outros tempos, mas seguimos mantendo essa tradição, que vem desde a época de minha querida avó.", relembrando emocionada.
Shirlei Ferreira de Souza ,46 anos, tem uma grande trajetória, trabalha como baiana de receptivo, é artesã, dançarina e atriz, produz jóias e turbantes feitos com tecidos africanos, aos quais, estuda cada padronagem, que fazem parte da Oficina de Turbantes que desenvolve.
Como baiana de receptivo, tem a tarefa de promover a Rota Afro do Acarajé em parceria com a Rede Emunde.
Segundo ela nos conta, seu dom para à culinária foi presente de sua mãe, de quem também herdou a tradição do preparo do Pãozinho de Santo Antônio.
Esses conhecimentos foram passados pra minha mãe através de minha avó materna, natural de Santo Amaro, no Recôncavo.
Minha relação com o Santo Antônio, tornou-se muito forte,a partir da terça da bênção, que vivi intensamente como moradora do centro de Salvador.
Foi nas Terças da Bênção, quando se reuniam o movimento negro, e faziam alusão ao Orixá Ogum, que comecei a me interessar mais pela musica e pela dança.
Gostava de frequentar e ver o movimento regaee, do samba regaee e dos bares de Samba, que se encontravam no Pelourinho e ,na antiga quadra do Olodum, que trouxe a revitalização do Centro Histórico.
A paixão pela dança, vem desde a infância, lembro que avô dançava comigo músicas de Nelson Gonçalves, Noite Ilustrada e Luiz Gonzaga, minha mãe o samba do Recôncavo.
No 2° grau, pude optar entre educação física ou dança,tendo o privilégio de ser aluna do saudoso Mestre Tição,passando muitos conhecimentos técnicos e dinâmicos ligados a dança e teatro.
Aperfeiçoei meus conhecimentos no Sesc, com o também saudoso Mestre King e íntegro, ao fazer parte do movimento de dança, teatro e cinema, ligados à Fundação Cultural do Estado e do CFA (Centro de Formação em Artes).
Poder fazer os Pãezinhos de Santo Antônio, é uma honra, e uma dedicação, reaviva a memória de minha mãe, da minha família, a quem devo muito.
Esse pãozinho, se coloca na farinha como simpatia para garantir a prosperidade e fraternidade em casa e na vida, reza a lenda que o pão de Santo Antônio traz fartura a mesa de quem o têm por perto.
Ela me passou todos os segredos da receita, com afeto, me entusiasmou à aprender, e hoje, confecciono e produzo diversos doces e salgados, em especial, na panificação caseira, e atender encomendas, quando sou solicitada.
A Rede Emunde me trouxe a recuperação da tradição do Santo Antônio,através da Rota Cultural de Santo Antônio, que este ano acontecerá em 13 municípios de forma virtual devido á pandemia.
É muito gratificante, pois exercita toda minha potencialidade e tem trazido novas oportunidades e materialização do Ateliê Casa,onde vou receber pessoas para conhecer os meus produtos, minhas oficinas e também provar de minha culinária herdada de minha mãe.
Entendemos como patrimônio imaterial todos os usos, representações e expressões que uma comunidade sente como próprios, representativos de sua identidade cultural e importantes para salvaguardar e proteger para as gerações futuras.
Além da prática em si, inclui as técnicas e os conhecimentos que permitem que esses costumes existam, sejam compartilhados e transmitidos.
Nossa cozinha é nosso patrimônio.
#culinariatradicionalbahia







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