Fé na Festa Anatomia dos Festejos de Santo António na Bahia.
Santo Antônio está presente no nome e na bondade do coração de minha mãe, que sempre cuidou e alimentou familiares, amigos, vizinhos e desconhecidos.
E foi no bairro do Santo Antônio Além do Carmo, precisamente no Largo de Santo Antônio, praça em frente á igreja dedicada ao santo protetor dos namorados, que a jovem Maria Antônia conheceu o belo Francisco, meu pai, que lhe ofereceu um saquinho de pipocas.O ano era 1957, foi amor á primeira vista.
Depois de sete anos de namoro eles se casaram na igreja do santo casamenteiro.
E no ano seguinte me batizaram na igreja do guardião das criancinhas.
Essa parte da história me foi contada por minha mãe.
Das minhas recordações de infância, no bairro da Baixa de Quintas, as melhores são do período junino com suas comidas típicas, fogos, brincadeiras e balões.
Entre essas boas lembranças estão as trezenas de Santo Antônio, treze dias seguidos de rezas e cantorias, que no meu olhar de criança eram animadas e alegres, ao contrário das monótonas e tristes ladainhas da igreja católica, além de serem comandadas por mulheres comuns e realizadas dentro de uma casa e ainda tinha guloseimas no final.
A reza de Santo Antônio do nosso bairro que as crianças mais gostavam, incluídas eu e minha irmã Rosiane, era a de Antoniêta, uma senhora de pele negra e gargalhada fácil, que tinha uma quintandinha e que também vendia abafa banca.Niêta, como era conhecida, aniversariava no dia de Santo Antônio. Eu achava uma sorte alguém poder comemorar o aniversário por treze dias consecutivos e olhava ela com respeito e admiração. Niêta reinava absoluta durante a trezena.
O altar era montado e arrumado com capricho no dia 1° de junho de manhã, a cor predominante era azul celeste, com flores de papel crepom, fitas, velas e vasinho com flores naturais: sorrisos e angélicas, e a imagem do santo no meio segurando nos braços o menino Jesus.
A tarde as mulheres preparavam os alimentos que seriam servidos á noite.
Tentávamos adivinhar pelo cheiro qual seria a delícia do dia.
A anfitriã nos recebia com um sorriso e um "chegue á frente", mas era tanta gente que não cabia na pequena sala e muitos ficavam do lado de fora mesmo. Antes de começar eram distribuídos uns cadernos com as orações e cantos escritos a mão com letra caprichada, para os que não sabiam de cor.
Na capa tinha a figura do santo homenageado.
Niêta rezava e cantava alto com muita ardor, devoção e fé e todo mundo acompanhava:
"Meu insigne português, oferecer-vos hoje quero, com todo meu coração, este meu culto sincero!"
Nieta não admitia molequeira, que não se confundisse entusiasmo com falta de respeito, bastava ela olhar os salientes com o rabo do olho que se aquietavam num instante, ela sabia ser braba quando necessário.
"A memoria é o fragmento do todo
As receitas são pedacinho da memoria, que guardamos para saborear o eterno"
Para finalizar a reza tinha a queima de incenso e os pedidos ao santo:
"Subi precioso incenso até o trono do altíssimo, incensai glorioso Antônio, com perfume suavíssimo" e depois era servida a merenda, cada dia uma iguaria diferente: bolo de milho, tapioca, aipim, carimã, mingau, arroz doce, munguzá... licor para os adultos e guaraná para a meninada.
No dia 13 era a culminância e tinha uma festança com vários tipos de bolo, pipoca, amendoim cozido, milho e até um bolo de aniversário.
Tinham fogos, galinha gorda de queimados e doces, lembrancinhas do pão de Santo Antônio, para nunca faltar comida na mesa.
Todos batiam palmas e gritavam: Viva Santo Antônio! Viva Niêta!
Ela respondia com os olhos rasos d'água a plenos pulmões : Viva Santo Antônio! Viva eu!
Rosana Paulo é poeta e contadora de histórias.
Além de escrever, recita poemas autorais e de outros poetas.
Participa de saraus poéticos, eventos de arte educação e palhaçaria em escolas, entidades assistenciais e culturais, bibliotecas e livrarias.
Nasceu e reside em Salvador/BA.


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