Acalanto Ouça o que vejo
Sempre que me sinto abatido na busca de algum sentido, e antes que o choro vire pranto, é no Acalanto da música que encontro alguma possibilidade de reencontro.
Os sons da Mata, ou simplesmente a falta de sons que nós são impostos, ruídos longínquos, a batida do mar, os cheiros da noite, tudo isso é música, é nesse sem sentido que encontro o caminho, que me fazem sentir a intensidade da vida.
A palavra Acalanto tem o prefixo a é grego, que indica privação; Kaió, palavra grega que significa choro; o sufixo ar ou entar que deriva da palavra latina actitare que significa agitar frequentemente.Os Hãde são cantos entoados pelas índias dos troncos linguísticos Tukano Oriental e Aruaque, localizadas na região do Alto rio Negro, Noroeste do Estado do Amazonas.
Geralmente cantados nos Dabucurís, festa de oferta de frutas, caças, cestarias ou peixes, nas quais as mulheres oferecem caxirí - bebida fermentada de macaxeira, pupunha, cará, abacaxi etc. - para os homens, enquanto cantam. Nesse momento elas dizem o que sentem e que não pode ser dito em outras situações da vida cotidiana.
As cantoras podem falar sobre algo que sentem em relação a algum dos homens, da saudade da aldeia de origem, de algum acontecimento recente, como a passagem de algum visitante pela aldeia.
Esses cantos são aprendidos em ocasiões informais com as mães ou avôs, momento nos quais as cantoras aprendem também o significado dos cantos e os procedimentos que devem ser tomados na hora de cantar.
Hoje quando comecei a fazer este post, tenha um nó na garganta, que ao ouvir os cânticos Hãde, foram se dissipando.
Crianças tuyuka, foto: Aloisio Cabalzar, 2002.A família lingüística Tukano Oriental engloba pelo menos 16 línguas, dentre as quais o Tukano propriamente dito é a que possui maior número de falantes. Ela é usada não só pelos Tukano, mas também pelos outros grupos do Uaupés brasileiro e em seus afluentes Tiquié e Papuri. Desse modo, o Tukano passou a ser empregado como língua franca, permitindo a comunicação entre povos com línguas paternas bem diferenciadas e, em muitos casos, não compreensíveis entre si.
Cheguei ao trabalho da @Marcella pela beleza, e pela sonoridade da Mata, seu trabalho é pura poesia.
Seu cuidado estético reflete claramente este "acalanto" ao que me refiro, no fazer com tranquilidade, à fogo lento, Marcella Barroso Cabral, 32 anos, mora em Curitiba e nascida em Belém-do- Pará.
Apesar de não ter formação na área de gastronomia, Marcella fez alguns cursos específicos, para ampliar seus conhecimentos na área de cozinha vegetal em 2017.Na realidade, deixar incompleto os estudos de Adm e Direito, representou para todos nós uma artista na cozinha.
Ela e seu companheiro Gustavo são pequenos produtores desde 2017, voltado para alimentação vegetal, trabalham com alimentos congelados, frescos e serviços personalizados
Alguns insumos que utiliza em sua cozinha são provenientes do sítio em que reside, somado a outros de feiras, e adaptamos conforme a sazonalidade e a região que vivem.
O casal procura usar os ingredientes e insumos amazônicos a que tem acesso, através de seus familiares e produtores paraenses que conhecem em Curitiba.
Em seu perfil social, Marcella procura abordar a alimentação Paraense, através de pesquisas bibliográficas e vivências, levando em conta estudos voltados especificamente para Belém. Não deixando de falar da cozinha vegetal amplamente.
Seu conceito de cozinha é poder mostrar as infinitas possibilidades de usar alimentos vegetais, como pratos principais e não coadjuvantes.
Uma cozinha brasileira sem conservantes e ultra processados.
"As folhas são uma das bases da minha cozinha, é através delas que trago sabores, sensações e ancestralidade."
Em seus diversos usos, desde consumir, até usar a folha de bananeira (ex.) para cocção de alimentos. Procuro aprender desde 2016 sobre as “plantas não convencionais” nessa região de Curitiba, saberes apreendidos de Marlene, minha sogra, que veio da roça, e tem a sabedoria de quem nutriu dos seus pais.
A cozinha indígena na minha vida tem uma importância incomensurável.
"Sou bisneta de indígena, mas só tive contato a vida toda com minha vó Ida. Desde criança tenho um contato muito próximo com a cozinha, preparando apenas o que poderia devido à idade, minha mãe Fátima conta.
Aprendi os métodos tradicionais como comer um bom xibé com farinha e água, e outros já frutos de hibridismo, mas mantendo a base tradicional, como acompanhar o processo da maniçoba dias e horas no fogo preparado por minha tia Stela."
Nas práticas alimentares, a forma que cozinho e vejo a cozinha, aprendi com meus mais velhos. Poder pesquisar, entender toda essa invisibilidade dos povos originários na nossa cozinha, fez com que, me conhecesse melhor, e orgulhasse ainda mais de ser Papa chibé como dizem no Pará.
E como a base da nossa alimentação é indígena, e dialogar sobre esse assunto, é desmitificar esse lugar do exótico na alimentação Nortista.
Como cozinheira tenho um projeto de levar através de registros, as cozinheiras de rua aí são minha grande inspiração de força e resistência, mais especificamente Norte e Nordeste.
Ouça outros acalantos dos povos do Rio Negro do CD Projeto Acalanto
As canções que compõem esse trabalho traduzem a alma da mulher rio-negrina e trazem os alentos, as reivindicações, o humor, a perspicácia, contando um pouco da história de vida que se passa à beira dos rios.






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