“CONHECIMENTO E PLANTAS NO MUNDO LUSÓFONO”

Durante esta jornada de estudos iremos centrar-nos na circulação de plantas resultantes de projectos de expansão europeus, especialmente ibéricos, e nas paisagens que essas circulações compõem ou decompõem. 



Com Arjun Appadurai e Igor Kopytoff (1986), colocamos no centro de nossas reflexões a ideia de que os objetos trocáveis ​​têm uma biografia que pode ser seguida.

Por meio de uma abordagem material, abordar a circulação das plantas sob o prisma da categoria das trocas e das mercadorias, entre outras, permite apreender plenamente os regimes de valores que essas trocas definem e, nesse sentido, construir uma cartografia de valores de. coisas onde múltiplas perspectivas disciplinares se cruzam: antropologia, história, economia, medicina, artes visuais, literatura, geografia. 

A jornada de estudos abordará, assim, questões que vão da farmacologia aos jardins botânicos, da gastronomia ao uso predatório do solo, das práticas rituais aos herbários e às relações com o corpo.

A circulação das plantas e / ou das paisagens que essas plantas desenham em suas viagens, apropriações e trocas não pode ser pensada fora de uma reflexão geopolítica, das distribuições que ela opera e das configurações que essas distribuições implicam. 

O conhecimento é constituído, especifica objetos, dá-lhes um valor distinto, ao mesmo tempo que os vincula de uma forma mais ou menos imprevisível. Vamos nos concentrar no conhecimento das plantas (Samir Boumediene, 2016) que resulta dessa circulação. 

Por outro lado, as plantas podem ser fonte de intensa movimentação de pessoas que, por razões econômicas ou comerciais, se instalam nos confins do globo e modificam a paisagem local. 

O caso da hevea brasiliensisilustra bem este ponto. Alguns também analisam as plantas como atores de pleno direito nas mudanças (coletivo, Vozes vegetais , São Paulo, 2021)

Esses pontos de partida significam que não podemos, é claro, desvincular essas circulações da questão colonial, da construção dos impérios europeus.

Colocando em questão o iluminismo europeu e seu desejo de dominar o outro por meio de seu confinamento em um conhecimento vivo que acreditava ser controlável, nossa abordagem tenta tornar visível o vínculo entre a política do conhecimento e da dominação, mas também da resistência no trabalho, dos caminhos percorridos pelas plantas. 

Faremos o possível para apoiar o que escapa a um curso monopolizado pelos europeus, buscando restabelecer circuitos e usos inesperados (Romain Bertrand, 2019), ou paisagens fora do quadro (Jacques Rancière, 2020), apesar do sistema inicial.

Essas paisagens podem influenciar efetivamente o estabelecimento de processos ecológicos e de serviços ecossistêmicos e culturais.

Frentes pioneiras e o desenvolvimento de atividades de ecoturismo são apenas alguns exemplos. 

E, a partir dessa constatação, surge a questão do uso e da apropriação, o que nos leva a incluir uma dimensão ecológica em nossa reflexão, questionando a própria noção de natureza (Philippe Descola, 2005).

Jessica Assard, Maria-Benedita Basto, Nataly Jollant, Michel Riaudel


A jornada de estudos dá sequência ao encontro sobre as frutas americanas, dia 25 de março de 2019 (Frei Antônio do Rosário e as frutas da América Latina).

https://us02web.zoom.us/j/83155919406

PROGRAMA 

Plantas, circulação, transformação do conhecimento. 10h00 - 12h30

Romain Bertrand (Sciences Po, CERI)

"As palavras para dizê-lo: a descrição naturalística entre arte e ciência (século 19 a 20)"

Cristiana Bastos (Universidade de Lisboa, ICS)

"O $ abor do a $$ úcar: circulações, porosidades imperiais e produção de categorias raciais"

Marion Pellier (Tours, Centro de Estudos Superiores do Renascimento)

"Práticas e saberes medicinais no mundo de língua portuguesa: o caso do Brasil (séculos XVI-XVII)"



Etnografia dos usos das plantas. 14h00 - 16h00

Wanda Araújo (Yalorixá, jornalista, educadora e gestora do coletivo Centro de Tradição Afro Brasileira Egi Omim)

"Kosi ewé, kosi orisá - sem folha não tem orixá: saberes e usos das plantas no terreiro Ylê Asè Egi Omim de Santa Teresa, RJ".

Marta Amoroso (USP-FFLCH, CESTA)

“Vozes vegetais. Cantos de resistências indígenas, quilombolas e dos trabalhadores sem terra no Brasil ”

Mauricio Vieira lerá, para encerrar, alguns trechos de sua última coleção,  Floresta , ilustrados por Jonathas Martins (ed. Raiz, 2021)


RESPONSÁVEL:

 Jessica Assard, Maria-Benedita Basto, Nataly Jollant e Michel Riaudel


URL DE REFERÊNCIA

https://crimic-sorbonne.fr/manifestations/des-savoirs-et-des-plantes-dans-le-monde-lusophone/

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