Das letras vernáculas à gastronomia, uma trajetória de paixão e sucesso.

Ela cursou Letras Vernáculas com Francês na UFBA no final dos anos 80, hoje Patricia Simões, leva a poesia que aprendeu a gostar, aos pratos, e pro caldeirão quando ele está a mexer.Patricia Simões, 56 anos, é mãe de duas meninas; Marianna e Julia, criou sua empresa no Recôncavo Baiano, onde vive e confecciona suas delícias.

Sua empresa Pé de Mato, hoje consolidada, nasceu há uns 10 anos atrás pelo misto da necessidade de gerir renda, curiosidade, instinto e muito mais pela memória afetiva e olfativa dos pratos da minha infância vivida no Recôncavo Baiano, especificamente Muritiba e Mangabeira.

Com muitos esforços, tornou-se uma pequena empresa caseira, onde compra os ingredientes de pequenos produtores locais.

Segundo a poetisa Colette: "Se não sois capaz de um pouco de feitiçaria, não vale a pena meter-vos a cozinheiro."

Ovos e Galinha de quintal, tomates, pimentões e ervas frescas transforma-se em deliciosas produções, com um toque Italiano, são Camponatas, Peperonata, Molho Pesto, Ervas Finas, são desidratadas, e manipulados de forma alquímica pelas mão de Patricia, com o passar do tempo, e claro, leituras, vivências, viagens ao velho mundo, aprendizagem e invencionismos foram sendo incorporados e dando forma e sabor aos produtos de forma bem única.

Mas, como estamos no Recôncavo, não poderia faltar um prato dos mais importantes na culinária local, sua Maniçoba, que dizem ser de responsa, de lamber os beiços.

"Tenho a maniçoba no cardápio, mas trabalho bastante com produtos desidratados por mim, a menos de 50 graus para que mantenha as propriedades nutricionais dos alimentos."

Quando a técnica faz a diferença.

"Resolvi resgatar a feitura da maniçoba, além de gostar muito me trazia à infância vivida nas roças do povoado."

Sabia todas as técnicas de como retirar o ácido cianídrico das folhas (vinha a minha lembrança os dizeres dos mais antigos: lavar em 7 águas, muita lenha pra ferver até o bicho evaporar), a importância do amaciar das folhas com toucinho de porco e claro as boas carnes pra dar o sabor). Fiz a minha primeira maniçoba, mas não senti o cheiro familiar como era da casa da minha vó.

Provei, e não gostei, não era aquilo onde eu queria chegar.

Fiz outras tentativas até que a memória afetiva e olfativa veio à tona, entrou em ebulição lembranças das reuniões familiares, do correr no terreiro, procurar ovos deitados no capim escondido, aí eu tive a certeza que cheguei onde queria.

Da qualidade ao boca à boca

Dizem que quando um prato tem qualidade e sabor, não existe melhor propaganda que o prazer de degustar, daí o processo vira um rastrilho de pólvora...onde todo mundo que conhecer.

"Convidei alguns amigos para experimentar, servir às filhas, enviei a alguns conhecidos e parentes próximos e aí veio a aprovação do deleite de quem comeu, e claro, da minha, do deleite interno."



Uma outra certa feita, estava numa roça com um amigo, tínhamos acabado de chegar da cidade e ainda não tínhamos feito compras comuns para nossa estadia por lá, e nos veio a notícia que os vizinhos de roça iriam fazer uma visita surpresa para acerto das plantações combinadas e de boas-vindas. 

O que oferecer pra eles? Pedi ao moço que morava lá pra me trazer três galinhas gordas e limpas, essa parte do limpar e matar não é minha área.

Pois bem, temperar com que?, meu grande desafio.

Deixei o amigo fazendo sala com as visitas e deixei a bruxa aflorar; catei no terreiro, urucum, coentro da Índia (ou bravo), limão rosa, alfavaca e folhas de pitanga, encontrei alho e cebola na geladeira, marinei elas por um bom tempo, na espera de pegar o gosto, e entre conversa e claro já providenciada a cerveja e a brejeira (cachaça local) que confesso respinguei as duas na marinada vamos ao fogo a lenha na panela de barro e logo após à mesa.

"Conheci a Gremolata (molho italiano) a base de salsa, alho, raspa de limão siciliano e azeite.

Inseri o molho de salsa no meu cardápio mas coloquei pimenta rosa (fruto da aroeira) e pitadas de noz moscada, o sabor é único e harmoniza perfeitamente com saladas, carnes brancas e frutos do mar, enquanto os Italianos usam a Gremolata num prato feito com ossobuco." 

Os vizinhos comeram rezando, só elogios e em mim a satisfação de descobrir que o segredo era o instinto, a lembrança, o deixar minha bruxa aflorar.

Assim Patricia recupera estes sabores, e imprime em seus pratos, usa pouco receitas e sim sua intuição, usa sua memória afetiva, cheiros, harmonização dos ingredientes, que é sua premissa básica.  

Viver no interior tem suas benesses, é possível encontrar produtos de qualidade, e compra´los diretamente de quem produz, comenta Patricia ao se referir aos deliciosos Tomates Secos que prepara.

Assim faço o tomate seco, a ricota temperada, os Pestos de manjericão e os molhos caseiros com sabores variados sempre dando um toque pessoal com uma pitada de segredo.

"Uma amiga, que também gosta do caldeirão, em uma reunião eventual provou alguns produtos mas me disse que não poderia provar o Pesto de manjericão pela intolerância à lactose e alergia a castanha de caju.

Fui lá me reinventar e fiz um com sementes de mostarda, alho desidratado e damasco, ficou bem diferente mas aprovado."

Nesse processo, Patricia vai se reinventando, criando, vivenciando acertos e erros que fazem parte dessa composição, imaginando novos produtos, utilizando ingredientes com safras permanentes e outros em certa época do ano.

Comercializa seus produtos em férias coletivas, agroecológicas, entre amigos, em rede social e no famoso boca a boca que vai agregando outros clientes.






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