MEMÓRIA DAS PLANTAS ALIMENTÍCIAS COM RAIZES QUILOMBOLA

Não era apenas uma conversa sobre comida. Era sobre tempo, território, memória e reexistência. Em meio às palavras do Mestre — sempre ditas com a firmeza da roça e a leveza da poesia —, esse prato simples ganhava a força de um ensinamento ancestral.

Falávamos das folhas novas do quiabo, colhidas ainda tenras, do cheiro do dendê no fogo baixo, da panela que espera, do gesto que não apressa. O caruru de folha não é só o que se come: é o que se sabe, o que se guarda, o que se compartilha.

Com ele, aprendi que cozinhar pode ser um modo de plantar pensamento. E que, nas bordas do que chamam de “gastronomia”, pulsa uma culinária viva — enraizada na terra, no quintal, nos quilombos e nos corpos que seguem fazendo do alimento um ato político, amoroso e profundamente espiritual.

O preparo do caruru com folhas de quiabo no Piauí é um exemplo emblemático da culinária ancestral praticada nas comunidades quilombolas e rurais, especialmente na região do Território Quilombola Saco-Curtume, no município de São João do Piauí. 

Esse prato é conhecido ali como “caruru de folha de quiabo” ou, em algumas localidades, apenas “caruru de folha”, sendo parte de uma tradição alimentar profundamente conectada com a terra e o saber popular.

“Começo e começo do círculo.” Essa é uma das expressões mais potentes do pensamento de Nego Bispo. Diferente da lógica linear do tempo ocidental — que parte de um início e caminha para um fim —, o tempo quilombola é espiralado, feito de ciclos que retornam e se recriam, sempre com raízes na ancestralidade.

É assim também com o quiabo. Ele nasce do plantio simples no quintal, cresce rápido, dá fruto e folha. Quando a vagem já não está boa, a folha ainda está viçosa. Quando a folha cai, nutre a terra. Tudo nele tem uso, tudo retorna. A cultura do quiabo é circular: nada se perde, tudo se transforma.

Na cozinha do quilombo, o caruru de folha de quiabo não é um reaproveitamento, é continuidade. É a comida que se mantém quando o fruto falta, é o saber que se adapta sem se render. É o corpo da planta falando com o corpo do povo: um ciclo que se alimenta de si mesmo, como o círculo que não tem fim.

Na visão de Nego Bispo, isso é mais que comida. É tecnologia social, cosmopolítica da oralitura, tempo do encantado. O quiabo, em sua inteireza, é uma metáfora viva dessa filosofia do território, onde “o começo não é um ponto de partida, é um ponto de retorno.”

Ligação com Nego Bispo

O pensador, poeta e mestre quilombola Antonio Bispo dos Santos, mais conhecido como Nego Bispo, tem uma relação íntima com esse tipo de culinária. Ele defende o conceito de “reexistência”, onde a alimentação é uma das formas de resistência cultural, política e espiritual dos povos quilombolas frente às tentativas de apagamento e homogeneização da cultura.

O caruru de folha de quiabo se insere nesse pensamento como expressão de:

•Aproveitamento integral do alimento (raiz, folha, caule, semente).

•Culinária como território de memória.

•Cuidado com o corpo e o tempo, pois é uma comida que exige paciência e atenção, feita no fogo baixo, em processos lentos — como a própria temporalidade dos quilombos, que Nego Bispo tanto defende.

Curiosidades sobre o prato

•As folhas do quiabo são colhidas novas, ainda macias. Têm um leve amargor e viscosidade, como o próprio fruto.

•São lavadas e geralmente piladas ou picadas miúdo, refogadas com cebola, alho, azeite de dendê e, às vezes, camarão seco ou amendoim.

•Em alguns contextos, são usadas como acompanhameno de pirão, arroz ou farofa, formando uma refeição completa.

Não é um “substituto” do quiabo, mas sim uma expressão da autonomia alimentar, da sabedoria de plantar e aproveitar o que se tem no quintal.

Esse prato é parte do que Nego Bispo chama de tecnologias sociais da oralitura, ou seja, saberes transmitidos pela fala, pelo cotidiano e pelas mãos — não por livros ou manuais. Cozinhar o caruru de folha de quiabo é um ato de ensinar e de contar história.

Agradeço ao Mestre Nego Bispo por semear pensamentos que seguem germinando em mim, como folha de quiabo brotando em terra fértil. Seus ensinamentos não são lições que se encerram — são caminhos que se abrem, círculos que seguem girando. Cozinhar, ouvir, partilhar: tudo isso aprendi como parte de uma mesma roda. E nela, o caruru de folha segue sendo muito mais que alimento — é memória viva, filosofia em panela, e reexistência em cada colher.


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