SABINA E AS DOCEIRAS DA BAHIA

O memorialista Pedro Nava, relata a história de Sabina, a vendedora de doces que encontrava seus fregueses nos alunos da escola em que estudara o pai do memorialista. 

Nava dedica uma página antológica a tal figura, que não pôde conhecer e de quem obteve notícias por meios indiretos. “Entre uma aula e outra, os estudantes iam para a porta conversar, olhar o mar, descarrilar os bondes, namorar as lavadeiras de Tanagra, quebrar a cara dos burros-sem-rabo ou aglomerar-se em torno ao tabuleiro da Sabina divina, saboreando suas cocadas e punhetas” (Baú de ossos, p. 215).

Apressa-se em explicar: “Esse último nome era o de uma gostosura amassada com a mão - um doce, bem entendido! - feito com tapioca, coco e assadinho no borralho” (Baú de ossos, p. 215). 

A Sabina era uma negra fabulosa, saída, com seu colo de ébano, sua bunda de jacarandá e seus olhos de jaboticaba, de um Rugendas ou de um Debret” (Baú de ossos, p. 215). 

Descrita por meio dessas belas metáforas - figura de linguagem largamente utilizada por Nava nas memórias -, a mulher adquire, assim, a condição de personagem de uma obra de arte, alçada a modelo exemplar daqueles pintores. 

Para a deferência ser ainda maior, o narrador reproduz literalmente o pregão com que ela anunciava sua presença no local em que dispunha seus doces à venda.

(...) Era amiga dos estudantes e tinha para se anunciar pregão composto por ela e que ela cantava, balançando como as ondas que iam e vinham e batiam no cais, entre as portas da Faculdade e as escadas da Misericórdia.

Sou a Sabina. 

Todas as tardes,

Todas as tardes sou encontrada,

Sou encontrada lá na calçada

Lá na calçada da Academia,

Da Academia de Medicina... (Baú de ossos, p. 215)


DOCEIRAS DE ITAPARICA

Junto à ponte, concentravam-se as doceiras que desde as quatro horas da tarde enfileiravam-se nas proximidades da ponte, e ali as baianas tais como: Dona Da’hora, Dona Célia, Dona Filomena, Dona Maria Preta, dona Maria do Rolête, Dona Rubinha, Dona Rocha, Dona Sabina, Dona Benedita, Dona “Chica Cabelão”, está ultima, mantinha seus preceitos, se dividindo entre os doces e o oficio de rezadeira.

Eram vendidos os mais deliciosos quindins em seus tabuleiros, adultos e crianças se fartavam na mais gostosa ceia dos Deuses; Bolos de Aipim, Pamonha de Carimã, Cocada-Puxa, Queijadas, Doce de Tamarindo, Pandêlós , Bolinho de estudante (Punheta), Apanan, Lêlê, Xerengue, Rolêtes de Cana, Cartucho de tapioca, Fubá de Amendoim, Fubá de Castanha, Acarajé, Abara, Acaçá, Amendoim Cozido e Torrado. Seguindo a tradição deixada por sua tia Dona Da’hora, Joel (João Santos Filho, 55 anos), ha 32 anos mantem seu tabuleiro na Praça Carneiro Ribeiro, nos fundos do antigo colégio, vendendo seus acepipes, dentre eles o Apanan. 

MARIA DE BENZÊ 

Conhecida por vender quitutes africanos, Maria de Benzê, era filha de escravos, mas desde cedo descobriu o oficio do preparo de doces e quitutes.

Residia em São Francisco do Conde, Recôncavo Baiano, próxima ao Mercado Cultural, onde hoje fica o Centro de Abastecimento de São Francisco do Conde, recebeu homenagem batizando o Largo Maria de Benzê. Entre as deliciosas guloseimas que vendia estavam o Aponan e a Bolachinha de Goma, Cocada-Puxa, feitos por ela mesma em fogão a lenha.

Ela ficou assim conhecida porque todos os dias quando saía para trabalhar perguntava em voz alta: “Quem vai me benzer”? Ou seja, quem seria seu primeiro cliente naquele dia. 

Toda população sanfrancisacana se recorda de Maria de Benzê como uma mulher alegre, trabalhadora, que contava muitas histórias e sempre finalizava suas falas com uma boa gargalhada. Mulheres em casa, homens na rua/Mulheres castas; homens promíscuos. 

Na Bahia da Independência, esse tipo de relação homem/mulher só vale para as brancas ricas, já que a ideia de ficar trancada dentro de casa não era bem vista por uma descendente de índios. 

Até 1808 não existiam muitas mulheres brancas no Brasil, isso muda com a chegada da família real, quando se inicia o fluxo de portuguesas para cá. 

Essas viviam como as europeias: trancadas em casa, cuidando dos filhos e do lar. Estudavam em casa ou em instituições religiosas e, embora soubessem ler, quase sempre eram proibidas de escrever. Costumavam se casar entre os 15 e 20 anos de idade e caso cometessem adultério, eram largadas pelo marido, arcavam com o estigma de “desonradas” e perdiam o direito à herança e o de ver os filhos. Essas mulheres brancas eram responsáveis pela cozinha, administração da casa e educação dos filhos. 

Traziam de Portugal a tradição doceira e, com adaptações, fizeram dos doces um dos pilares da culinária baiana. 

A maioria das famílias “brancas” continuava tendo como Yayá (tratamento usado na época da escravidão, e hoje quase extinto, dado às moças, meninas e senhoras) moças descendentes de índios. A elite portuguesa esperava delas o mesmo comportamento das europeias, mas a vida trancada em casa não caía bem a uma índia acostumada com a liberdade e o contato direto com a natureza, o que é perfeitamente compreensível. 

Elas conseguiam sair às ruas em visitas às igrejas (Salvador já tinha muitas) e casas de outras mulheres casadas e religiosas. 

O gosto dessas mulheres pela arte religiosa foi fundamental para o barroco baiano. 

O sangue índio ajudava na criação dos filhos: para um tupi, a vida da família gira em torno das crianças, dos curumins.


Pequeno Dicionario da Cozinha Baiana 

Aponan 

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