Nikolái Vavílov: o botânico soviético que queria alimentar o mundo e morreu de fome em Gulag de Stalin
Vavílov foi um dos primeiros cientistas a reconhecer a importância da diversidade genética. Por isso, tinha que voltar aos lugares onde a humanidade havia começado a domesticar as plantas para resgatá-las.
Por quê?
Vavílov foi um dos primeiros cientistas a reconhecer a importância da diversidade genética. Por isso, tinha que voltar aos lugares onde a humanidade havia começado a domesticar as plantas para resgatá-las.
Durante milênios, os agricultores selecionaram as espécies que proporcionaram alto rendimento e bom sabor.
Nesse processo, genes que conferiam propriedades úteis, como resistência a doenças e mudanças repentinas no clima, acabaram perdidos.
O resultado: alimentos de melhor qualidade, mas culturas menos resistentes, um traço que ceifou muitas vidas ao longo da história.
Então, a única maneira de devolver os genes perdidos às plantas era encontrar seus ancestrais selvagens e aproveitar sua herança genética.
O grande plano
A ideia de Vavílov era cultivar plantas que resistissem a condições adversas., para isso, planejou expedições científicas para coletar sementes de variedades de culturas e seus ancestrais selvagens.
Ele começou, assim, em "áreas onde a agricultura tem sido praticada por um longo tempo e nas quais surgiram civilizações indígenas", diz o etnologista Gary Paul Nabhan, autor de De onde vem nossa comida: os passos da missão de Nikolai Vavilov para acabar com a fome.
Vavílov inventou o conceito de "centros de origem", áreas geográficas onde um grupo de organismos desenvolveu suas propriedades distintivas pela primeira vez. Estes foram os que ele identificou: 1) México, Guatemala; 2) Peru, Equador, Bolívia; 2a) ao sul do Chile; 2b) Paraguai, sul do Brasil; 3) Mediterrâneo; 4) Oriente Médio; 5) Etiópia; 6) Ásia Central; 7) Indo-Birmânia; 7a) Siam, Malásia, Java; 8) China, Coréia.
As leis derivadas do trabalho de Gregor Mendel, conhecido como "o pai da genética", foram um grande marco na evolução da biologia.
A coletivização da agricultura na União Soviética produziu, entre 1929 e 1932, uma queda catastrófica na produção agrícola e a fome se espalhou pelo campo. Os números variam, mas estima-se que entre 4 e 10 milhões de pessoas morreram de fome. Todos os biólogos e agrônomos da URSS estavam trabalhando em novos métodos para aumentar a produção. Vavílov reconheceu como revolucionário o trabalho do jovem agrônomo Trofim Lysenko sobre a vernalização, manejo de grãos de inverno para uso na primavera.
Pouco depois, os dois discordaram sobre suas ideias de biologia: Lysenko afirmou que suas novas sementes transmitiriam essas características adquiridas e proclamou que ele tornaria a Rússia verde novamente; Vavílov foi guiado pelas leis de Mendel, que negam o conceito lamarckiano da herança de caracteres adquiridos, e pediu a Lysenko uma verificação científica. Apesar de seus resultados não poderem ser duplicados, os camponeses russos e a própria liderança soviética idealizaram a figura de Lysenko.
Pioneiro
Isso o colocou na vanguarda da corrente principal do pensamento científico da época. E não passou despercebido.
Nos primeiros anos após a Revolução Russa, Vladimir Lenin entendeu o poder econômico do sonho de Vavílov e o apoiou em suas expedições.
Por trás desse apoio, estava o pensamento estratégico de tornar a URSS líder na produção mundial de alimentos.
O cientista lançou um programa de exploração de plantas em todos os continentes, no total, organizou (e frequentemente dirigiu) 115 expedições para 64 países, incluindo Afeganistão, Irã, Taiwan, Coreia, Espanha, Argentina, Bolívia, Peru, Brasil, México e EUA.
Tornou-se diretor do Escritório de Botânica Aplicada e presidente da Academia Lenin de Ciências Agrárias da União Soviética, o que lhe deixou à disposição um grande número de estações experimentais.
Sob seu comando, Vavílov tinha cerca de 25 mil pessoas espalhadas por toda a URSS.
Em um antigo palácio czarista em Leningrado (atual São Petersburgo), ele estabeleceu um dos primeiros bancos de sementes do mundo e o maior de seu tempo.
Mas depois da morte de Lênin em 1924, seu sonho começou a se transformar em pesadelo.
Herança burguesa
Além disso, valorizava a integração dos pensamentos científicos de todo o mundo, mantinha contato com os seus pares em muitos lugares e incorporou a obra de cientistas não russos em seu trabalho, como o austríaco Gregor Mendel e o britânico Charles Darwin.
Mas na URSS liderada pelos stalinistas, cientistas afiliados a pessoas de fora do país eram vistos como possíveis conspiradores contra o governo.
Além disso, o sucessor de Lenin, Joseph Stalin, não tinha paciência para estratégias de longo prazo, como o plano global de segurança alimentar que Vavilov tinha em mente.
Por outro lado, Stalin e seus companheiros acharam muito burguês o pensamento de que as plantas poderiam herdar e transferir genes.
Mas contrariar uma personalidade como a de Vavílov não foi nada fácil ... até que uma fome e uma alternativa científica foram combinadas.
Protegendo o tesouro com a própria vida
Enquanto Vavílov estava desaparecido, sua coleção de sementes ficou em perigo.
Adolf Hitler havia ordenado que suas forças sitiassem Leningrado e deixassem a população morrer de fome e frio.
O cerco durou quase 900 dias: de setembro de 1941 a janeiro de 1944.
Confrontado com a ameaça de que a coleção de 370 mil sementes, frutas e raízes mantidas em um cofre secreto pudesse ser dizimada pelos nazistas, pela população faminta ou por ratos, a equipe de Vavílov formou uma milícia.
Cerca de 700 mil pessoas morreram de fome durante o cerco de três anos, incluindo alguns colegas de Vavilov que se entrincheiraram com a coleção e conseguiram protegê-la, mesmo à custa de suas próprias vidas, uma vez que poderiam sobreviver se comessem o que estavam guardando.
"Salvar essas sementes para as gerações futuras e ajudar o mundo a se recuperar depois da guerra era mais importante do que o conforto de uma pessoa", disse um deles, segundo Nabhan.
Jardim Botânico e Instituto de Pesquisa Panruso homenageiam Vavílov
Ressurreição
Em 1948, a Academia Lenin anunciou que o lysenkoismo deveria ser ensinado como a única teoria correta. Tal regra durou até meados da década de 1960.
E, apesar de muito do seu trabalho ter sido perdido, o legado de Vavílov está mais presente hoje do que nunca .
Seu banco de sementes em São Petersburgo é chamado de "Jardim Botânico e Instituto de Pesquisa Panruso NI Vavílov" e, embora sofra privações, 12 de suas estações de pesquisa ainda estão operando em diferentes regiões climáticas da Rússia.
Além disso, a sua classificação de " centros de origem " (regiões onde o processo de domesticação de uma espécie começou e onde existem parentes silvestres que deram origem a esse cultivo) é considerada uma das mais completas e, com algumas modificações, é a que vigora até hoje no mundo todo.
Segundo Nahab, seu legado é ainda maior.
"Todas as nossas noções sobre diversidade biológica e a necessidade de diversidade de alimentos em nossos pratos para nos manter saudáveis brotaram de seu trabalho".
Leia matéria completa da BBC






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