Água e Ancestralidade jeje-nagô: possibilidade de existências.
Por Ana Cristina Por Ana Cristina Mandarino e Estélio Gomberg.
Roger Bastide em seu trabalho intitulado o “Candomblé da Bahia”, estaria convencido que a metafísica do Candomblé conservava os quadros de pensamentos africanos, referindo-se ao panteão dos orixás africanos como um sistema de classificação que conteria quatro grandes compartimentos, correspondentes aos quatro elementos tradicionais da natureza, água, terra, fogo e ar.”
Esta idéia seria mais tarde retomada por JOANA ELBEIN (1986) e por BARROS (1993) em suas análises sobre a cosmogonia jeje-nagô.A filiação a um Deus em princípio obedecia a dois critérios: em primeiro lugar, estaria uma ancestralidade reconhecida e até mesmo esperada, seja pela devoção do grupo em determinado local ou por uma ligação familiar, que através do jogo advinhatório teria sua filiação confirmada; em segundo lugar, estaria à própria escolha do deus, que por algum motivo decidiu por escolher alguém aparentemente sem nenhum traço ancestral inicialmente reconhecido.
Nesse complexo sistema de afiliações, estariam os negros reafirmando sua intrínseca ligação com a terra e suas origens, buscando a valorização tanto dos elementos familiares quantos dos aspectos da natureza.
Assim, ao chegagrem ao Brasil, embora separados de seus familiares e em sua maioria de seu grupo original, encontraram nas semelhanças entre a nova terra e a África, reconhecidas através da fauna e da flora, o sentimento capaz de motivar a sobrevivência através de uma lembrança, revivida diária e cotidianamente.
Esta, ao lhes remeter a um ambiente familiar, lhes permitia reconstruções de um passado mítico que tornava suas vidas mais suportáveis.
Nesta terra nova e distante, porém farta de rios, matas e cachoeiras, o homem negro africano, relegado a condição de escravo, “mera peça”, viu a possibilidade de aqui também cultuar seus deuses e deusas.
Aos poucos, este vai se aproximando desta natureza exuberante de então, traçando semelhanças, provando cheiros e sabores, além de traçar relações com os habitantes originais, os “índios, donos da terra”
Água e Mato: os espaços se interrelacionam.
Assim, os terreiros de Candomblé, Roças, Abaçás ou simplesmente espaços de culto, representam em determinados aspectos a recriação em terras brasileiras por adeptos e afro-descendentes o lócus propício para o exercício de suas ancestralidades e, nos dizeres de Bastide, “um microcosmo de sua terra ancestral” (BASTIDE, 2001).
Neste microcosmo, encontramos presentes não só diversos deuses de distintas regiões, como também seus elementos representativos, recriando desta maneira ao olhar do não iniciado a percepção de diversos aspectos que em África estariam ou isolados ou demarcados em seus locais de origem.
A relação entre os homens e os vegetais é vista por Barros (1993) a partir de outra divisão, a do espaço cultivado, que acredita ser mais abrangente.
Em nossa visão, ela traduziria as necessidades dos homens modernos que, impossibilitados de transitarem nas florestas, pois encontram-se nas cidadescuidariam de reverter esta dificuldade.
Assim, além dos espaços mato e urbano, destacados por BARROS (1993) e ELBEIN (1986), também a existência de um espaço cultivado, cujo protetor é Okô – antigo orixá da agricultura.
Em África, a delimitação de tal espaço tornava-se mais evidente devido a necessidade da efetivação de antigos rituais que simbolizavam a transformação da antiga floresta sob a ação do homem; são os ritos propiciatórios de colheitas, que marcam a passagem da utilização de plantas coletadas para plantas que necessitam cultivo, e a utilização de técnicas específicas, cujo fim destinava-se à melhor adaptação das espécies.
No caso brasileiro, esta transformação e criação de um espaço cultivado, além da dificuldade ao acesso às florestas mais afastadas pela condição de prisioneiro ao qual o homem africano encontrava-se subordinado, envolvia a inadequação simbólica quanto ao desafio em manter-se única e exclusivamente um espaço destinado ao cultivo de plantas tão especiais e a um orixá cujo mérito estaria em proporcionar uma boa colheita e uma terra fértil, uma vez que estariam pela condição de cativos impossibilitados de desfrutá-la.
A manutenção e a criação de um espaço cultivado dar-se-ia então pela necessidade de espécies vegetais que encontravam-se ou inexistentes em solo brasileiro – e para isso tínhamos o vaivém constante entre Brasil e África para solucionar o problema – ou de difícil acesso, daí seu cultivo em uma área privada.
Em um de seus trabalhos, ELBEIN (1971, p.49-50) se refere ao poder sobrenatural emanado das árvores e plantas, reafirmando que o axé (poder) das folhas possui múltiplas funções, cujas propriedades particulares, quando misturadas, podem produzir preparações para usos medicinais ou rituais.
A integração do homem à natureza, como já dissemos, é uma relação que permeia a vida do homem africano desde o seu nascimento e torna-se responsável pela maioria dos ritos que estes dedicam aos deuses, uma vez que estes próprios representam a própria natureza em seus vários aspectos.
Os mitos de criação iorubá nos dão conta desta relação desde o início, em que a relação homem natureza é exaltada e exemplificada como fundamental ao desenvolvimento da própria existência humana. Assim, um mesmo mito é apresentado por diversos protagonistas – ou orixás – nessa intrincada tentativa de explicar o mundo por meio de uma visão de mundo própria, cuja garantia da própria existência frente às dificuldades da vida cotidiana se sustentaria na crença de tais mitos e em sua moral conciliadora. Pois, afinal, para que servem os mitos senão para a ordenação de um mundo cujo sentido deve ser apreendido sem contestação?
Beier (1955, p.21 apud BARROS, 1993, p.29) fala a respeito da introdução da agricultura na sociedade iorubá por ser esta considerada primeiramente feminina e de responsabilidade das mulheres.
A atividade agrícola estava, entretanto, relacionada com rituais mágicos, o que proporcionou às mulheres uma posição proeminente na organização social, já que eram as depositárias dos segredos que favoreciam as colheitas, o nascimento e a cura de doenças.
Como o poder mágico podia ser utilizado para fins bnéficos ou maléficos, os homens, ao restabelecerem sua superioridade na estrutura ocial, acusaram as mulheres de bruxaria.
Dentre as qualidades mais exaltadas atribuídas a Oxum e Iemanjá encontra-se poder curativo atribuído àquelas, graças às ervas a elas dedicadas.
Tanto uma quanto outra possuem uma vasta coleção de fitoterápicos, cuja farmacopéia extrapola os muros dos terreiros e assumem, na atualidade, um reforço no combate às enfermidades enfrentadas pelas classes populares, cujo acesso não pode ser pensado em termos de impedimento ou exclusão, mas de uma opção a mais no itinerário terapêutico percorrido pelos doentes.
São ervas disponibilizadas nas feiras livres e mercados populares por vários nomes que muitas vezes designam a mesma planta, demonstrando com isso a sua eficácia e aceitação popular. (GOMBERG, 2008).
Os vegetais são então utilizados por serem elementos primordiais na cosmovisão do grupo para fins litúrgicos e terapêuticos. Na composição das opções terapêuticas, a fitoterapia ocupa uma posição significativa e complementar com as demais; assim, por exemplo, biomédica ou acupuntura, que no interior do Terreiro surge como mais uma opção nas possibilidades de escolhas, conforme os interesses e a possibilidade de acesso pelos membros do Terreiro, tendo em vista a distância física e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde disponibilizados pelo poder público.
Ao chegar ao Brasil, o homem negro africano se deparou com uma ex-tensa e diversificada flora, com zonas de vegetação diversificadas, obrigando-o ao desafio de dominá-las e apreender sua eficácia, pois isto lhe garantiria tanto a sobrevivência física como cultural.
A adaptação ao novo habitat e às novas condições sociais deu lugar a substituições indispensáveis das plantas que aqui não foram encontradas.
A procura e a identificação de espécies vegetais objetivavam a manutenção de aspecto primordial de sua cosmovisão e, portanto, da sobrevivência de uma identidade enquanto negra e africana.
Como já dissemos anteriormente, os 16 (dezesseis) orixás mais amplamente cultuados nos terreiros jêje-nagô ou de outras denominações estão associados a um dos quatro elementos-compartimentos e conferem organização à existência nas comunidades, classificando e ordenando a vida material.
(ELBEIN,1986, p. 100; BARROS,1993, p.61). O mundo vegetal também está dividido pelos orixás e, consequentemente, também está relacionado aos quatro elementos.
Segundo BARROS & NAPOLEÃO (2003, p.23), a divisão compartimental estaria assim disposta: as ewé aféefé – folhas de vento; as ewé inón – folhas de fogo; as ewé omin – folhas de água; e as ewé igbó ou ewé ilé - folhas da terra ou da floresta.
Não nos alongaremos mais no sistema de classificação dos vegetais jêje-nagô já que este não é o objeto central deste artigo; no entanto, desejamos acrescentar que somando à lógica deste sistema, uma vez que estamos preocupados em detalhar a relação do poder feminino com as folhas e as águas que curam, o que determina a condição para que uma folha seja masculina ou feminina é o seu formato, pois na concepção jêje-nagô a forma fálica (alongada) caracteriza o elemento masculino, enquanto a forma uterina (arredondada) determina o elemento feminino.
Passemos então passar à distribuição de algumas folhas mais conhecidas e suas atribuições genéricas.
Para tanto utilizaremos o esquema classificatório descrito por BARROS E NAPOLEÃO (apud 20)
Folhas de Oxum
Nome Iorubá Nome Popular Função Terapêutica
Rínrin Alfavaquinha de cobra combate as inflamações oculares
Bàlá Taioba, além de comestível como salada ou cozida, a taioba pode ser utili- zada na cura de feridas ou úlceras
Awurépépé agrião do Pará, jambu, treme- treme, além de comestível na forma de cozimento, o extrato das flores éutilizado sobre o dente cariado para o alívio da dor e expectorante infantil.
Efírin manjericão de folha graúda, manjericão de molho utilizada em forma de chá, é indi- cada no combate a gases e cólicas intestinais, diarréias, afecções das vias respiratórias e urinárias, amigdalites, gengivites, estomati- tes e aftas.
Èmó capim-carrapicho, espinho de roseta, além de suas folhas serem ads- tringentes, em cocção, são usadas para a secreção pulmonar, es- pecialmente usada em casos de tuberculose
Ewé Obé Salsa, rica em ferro abre o apetite e é recomendada aos anêmicos, fracos e nervosos favorecendo também a digestão; recomendada em forma de chá no combate às febres, re- tenção de urina, obesidade, gases intestinais; estimula as contrações uterinas; contra as dores de dente.
Ewé Pépé Calêndula, mal- mequer, maravi- lha do jardim em infusão, a calêndula acalma as dores de garganta e de ouvido; atua como regulador menstrual; as sementes são vermífugas; so- bre a pele cicatriza as feridas.
Semin-semin Vassourinha de Oxum, vassourinha benta, vassourinha doce o suco e a infusão são utilizados para combater gripes, bronquites, catarro pulmonar, hemorróidas e dores de ouvido
Àrùsó Alfazema do Brasil sob a forma de banho, além de relaxante é também antifebrífugo.
Folhas de Iemanjá
Estes poucos exemplos, em verdade, representam uma parcela do poderfeminino e curativo atribuído às Iabás, senhoras do elemento água e geradoras da vida e da continiudade de existência. A interação homem/natureza como:
Nome Iorubá Nome Popular Função Terapêutica
Balabá Lírio do brejo, lágrima de Vê- nus ou borboleta, utilizada em forma de chá tem função anti-reumática e purgativa
Etitáré- Maricotinha, alfavaca de cobra nas inflamações oculares, dores de ouvido, afecções da bexiga, uretra e rins; aplica-se o suco ou decocto nas regiões; em forma de chá é antifebril, expectorante antidiabético.
Ewé Ajé Folha da Riqueza, periquito, apaga fogo em forma de chá é um poderoso diurético
Ewé Boyí Bétis-Cheiroso, pimenta de macaco, pertence tanto a Oxum quanto a Iemanjá e é indicada para os cor- rimentos vaginais, hemorragias, úlceras; possue função sedativa quando é aplicada sobre feridas e úlceras.
Ewé Yiá Pariparoba, capeba do norte, malvaísco, pertence tanto a Oxum quantoa Iemanjá; sementes e secas e trituradas, misturadas ao óleo de linhaça, são aplicadas sobre furúnculos e abscessos para apressar o processo de maturação; éindicada contra prisão de ventre, sífilis, hemorróidas e reumatismo.
Ewé Latipá Mostarda, pertence tanto a Oxum quanto a Iemanjá; as raízes em efusão são indicadas no combate às afecções das vias urinárias tuberculose edebilidade orgânica; as sementes são utilizadas nos casos de reu- matismo, gota e paralisias.
Agbéye Melão de Água recomendado para as mulheres com dificuldade de engravidar.
Estes poucos exemplos, em verdade, representam uma parcela do poder feminino e curativo atribuído às Iabás, senhoras do elemento água e geradoras da vida e da continiudade de existência.
A interação homem/natureza como parte integrante do sistema cultural jêje-nagô pode ser resumida como um dos aspectos relevantes de resistência cultural do negro africano no período escravocrata (ervas que produziam envenenamentos, abortos, feitiços...).
Permanece ainda hoje como estratégia de parcela significante da população que se reconhece, direta ou indiretamente portadora de um legado cultural diferenciado que comporta particularidades específicas que os fazem únicos em sua forma de ver e sentir o mundo.
A nosso ver, este complexo cultural constitui um padrão de significados transmitidos historicamente, incorporando em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida. (GEERTZ, 1989, p.103)
Água e ancestralidade jeje-nagô: possibilidade de existências.
Por Ana Cristina Mandarino-Professora convidada do Departamento de Antropologia, Universidade Federal da Bahia.
Estélio Gomberg-Pesquisador do Laboratório de Desigualdades Sociais , Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal da Bahia.



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