PIRRACENTO. O GENTÍLICO DE QUEM NSCE NA BAHIA
Por Nelson Varón Cadena
Vão desculpando a redundância. Foi o baiano quem inventou a pirraça, tenho certeza, e só não entendi por que o Houaiss e o Aurélio não informam isso nos verbetes do dicionário, se é tão obvio. Sinto-me à vontade para afirmar com todas as letras: não existe nenhum ser humano, em todos os cantos e encantos deste planeta, mais pirracento do que o baiano.
Desconfio que isso tem alguma coisa a ver com outra característica dele marcante: o dengo. E só não me arrisco a dizer que foi o baiano quem inventou o cafuné; ainda não me aprofundei na matéria que, ao que me parece, requer algo mais do que o simples conhecimento científico.
Se você ainda tem dúvidas quanto a essa “qualidade” do baiano, a de pirracento, experimente reclamar num tom, fora de tom, com a garçonete da barraca de praia que lhe trouxe o peixe frito quase cru. Tenha certeza que o próximo virá torrado e ela, garçonete, exibindo um sorriso de canto de lábio; não queira decifrar para não se aborrecer de novo. Se você fosse mais experto teria conduzido as coisas de outra forma: “Minha linda, quer me matar de fome? O peixe veio cru, dê um jeitinho lá na cozinha para mim - pisque o olho, abra um sorriso e conclua com um simples - tá!”.
Se ainda não está convencido, experimente mandar um recado, desaforado, com o boy da empresa, à baiana de acarajé da esquina: “Diga para ter mais atenção, ontem ela botou tanta pimenta que ardeu até as amígdalas”. Ela, baiana, vai sacudir a cabeça, concordando, exibir o mesmo sorriso de canto da boca da garçonete, logo que abrir o bolinho com a faca, e então vai passar a colher da pimenta com gosto, de um lado e do outro e, “por engano”, de novo no mesmo lado e sorte do mensageiro que não sabe ler o pensamento alheio: “Ontem ardeu as amígdalas, hoje vai arder outra coisa”.
A Bahiatursa tinha o dever de avisar aos visitantes, nos seus folhetos promocionais, dessa característica marcante do baiano, para evitar contratempos aos turistas estressados que não sabem, porque ninguém os orientou ainda, que a Bahia é o único lugar do mundo onde a máxima “o cliente sempre tem razão” é provocação.
Os caras, coitados, chegam no hotel e vão reclamando por qualquer besteira: o lanche pedido no room-service demorou quarenta minutos, por exemplo, e cria caso e diz desaforo ao garçom que não tem nada com isso e pelo telefone ao cara da recepção que também não tem nada a ver com a situação. Se prepare! Amanhã demora cinquenta minutos.
A não ser que o turista faça um dengo no funcionário, aquele carinho: pergunta o nome, quer saber da namorada, elogia a terra. O carinha vai se derreter todo, quebrar o pau na cozinha, exigir no dia seguinte, batendo no balcão: “Lanche já para meu cliente”. É assim que funciona.
Baiano já sabe, de berço, que essa história de que o cliente sempre tem razão é coisa da turma do marketing que não tem o que fazer. Eu mesmo, mais de quarenta anos vivendo aqui na terrinha, não abuso dessa idiossincrasia do baiano de pirraçar e prefiro dengar, se quero alguma coisa no capricho.
Imagine você leitor se eu fosse reclamar com o meu editor, aqui no CORREIO *, do lugar onde está sendo publicada esta crônica e mandasse um recado do tipo: “vê se capricha, essa página não tem muita leitura”. Ele ia publicar, na sexta-feira próxima, sabe onde? No “Ache Aqui”, entre os classificados de bijuterias e cartomantes. (Nelson Cadena)
•Nelson Varón Cadena é um jornalista, publicitário, escritor e pesquisador colombiano que construiu sua carreira no Brasil, especialmente na Bahia. Ele chegou a Salvador em 7 de setembro de 1973 e, desde então, tem contribuído significativamente para o estudo e a divulgação da cultura baiana.
Ao longo de sua trajetória, trabalhou em importantes veículos de comunicação locais, como os jornais Tribuna da Bahia, A Tarde e Correio da Bahia. Além disso, ocupou o cargo de diretor de Cultura na Associação Bahiana de Imprensa (ABI).
Entre suas obras mais conhecidas está Festas Populares da Bahia: Fé e Folia, onde faz um estudo antropológico sobre as festas populares baianas, analisando suas origens, significados e transformações ao longo do tempo. Outra obra importante é A Cidade da Bahia, na qual explora a história dos bairros e localidades de Salvador, desde o século XIX até os dias atuais, abordando a evolução dos nomes das ruas e seu contexto histórico e cultural.
Em reconhecimento à sua contribuição para a cultura e a comunicação na Bahia, em setembro de 2023, a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia concedeu-lhe o título de Cidadão Baiano.
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