DO TRIGO DURO À MESA BRASILEIRA: A JORNADA DO CUSCUZ NA HISTÓRIA
Em 850 d.C., comerciantes árabes introduziram o trigo duro na Sicília, marcando o início de uma das mais importantes revoluções culinárias da história. Diferente de outras variedades de trigo mais macias, o trigo duro permitia a produção de semolina, uma farinha granulada ideal para a fabricação de massa seca. Sua durabilidade e longa vida útil a tornaram uma mercadoria valiosa, essencial para armazenamento e longas viagens pelo Mediterrâneo.
No século XI, sob domínio normando, a Sicília já havia se consolidado como um centro próspero de produção de massas. Registros históricos fazem referência à "itriyya", uma forma primitiva de massa seca, fortemente enraizada na tradição árabe. Sua leveza e resistência ao tempo a tornaram um alimento essencial para viajantes e comerciantes, facilitando sua disseminação por toda a Itália e além.
As potências marítimas, como Gênova e Veneza, desempenharam um papel fundamental na expansão desse produto, inserindo-o nas redes comerciais internacionais. Com o tempo, a produção de massas evoluiu, incorporando ingredientes e técnicas locais que deram origem às diversas tradições regionais da Itália. Durante o Renascimento, a massa já estava plenamente estabelecida na culinária italiana, preparando o terreno para a indústria global que conhecemos hoje.
A Conexão com o Cuscuz no Brasil
Assim como a massa, o cuscuz tem raízes profundas nas tradições árabes, sendo levado ao Mediterrâneo e, posteriormente, às Américas durante o período colonial. No Brasil, a adaptação desse alimento ganhou características próprias, tornando-se um ícone da culinária regional.
Na região Nordeste, o cuscuz de milho tornou-se um alimento básico, preparado no vapor e servido com manteiga, carne seca, queijo ou ovos. Sua versatilidade o permite transitar entre refeições simples e pratos mais elaborados. Já no Sudeste, o cuscuz paulista, feito com farinha de milho e enriquecido com ingredientes como peixe, camarão, ovos e vegetais, tornou-se um prato emblemático.
A influência árabe no trigo duro e na semolina ecoa na tradição do cuscuz marroquino, que também encontrou espaço no Brasil, sendo apreciado em restaurantes e incorporado a diferentes variações da gastronomia nacional.
Assim, tanto as massas quanto o cuscuz compartilham um percurso histórico semelhante: nasceram de inovações agrícolas e da necessidade de alimentos duráveis para o comércio e as migrações. Adaptados às realidades locais, ambos se tornaram símbolos de identidade cultural em diferentes partes do mundo, conectando tradições e sabores ao longo dos séculos.
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