FORTALECENDO SABERES E SABORES NO QUILOMBO TRINDADE
A Oficina de Culinária Sotoko, conduzida pelo Chef Alicio, reunirá as mulheres do quilombo para uma roda de conversa e uma visita às roças, onde será possível aprofundar conhecimentos sobre ingredientes nativos e práticas tradicionais de cultivo e preparo.
Este evento, promovido pela Prefeitura de Biritinga, por meio da Secretaria de Assistência Social e da Coordenadoria de Igualdade Racial e da Mulher, tem como objetivo resgatar e fortalecer saberes ancestrais, incentivar a autonomia feminina e promover o uso sustentável dos recursos locais na culinária.
A experiência promete ser um momento de troca e aprendizado, onde a tradição e a criatividade se encontrarão para inspirar novas possibilidades de geração de renda e valorização da identidade quilombola.
QUILOMBO TRINDADE
A comunidade de Vila Nova, localizada no município de Biritinga, Bahia, foi oficialmente reconhecida como remanescente de Quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 21 de junho de 2010. Esse reconhecimento marca um importante avanço na valorização da história e dos direitos da comunidade, cujas raízes remontam ao século XIX.
A origem da comunidade está ligada à história de Filipa Preta, uma escravizada fugitiva que, em 1886, teve duas filhas com o Tenente Eloir. Uma de suas filhas, Hostiana, casou-se com Pedro Cabeça e juntos estabeleceram-se nas chamadas "Terras do Sem Fim", áreas então sem posse definida e posteriormente doadas pela Igreja para acolher escravizados fugidos.
Pedro Cabeça fortaleceu essa ocupação ao acolher mais pessoas libertas e fugitivas, consolidando o núcleo que daria origem à atual comunidade quilombola de Vila Nova.
No século XX, a infraestrutura da comunidade começou a ser desenvolvida, com a construção de uma cisterna na década de 1960 e, nos anos 1980, a edificação de uma escola e um campo de futebol.
A cultura quilombola da comunidade se expressa fortemente no artesanato, destacando-se a produção de chapéus e esteiras de palha de ariri, uma palmeira nativa da região. Essa tradição artesanal, transmitida de geração em geração, é uma das principais atividades econômicas do quilombo e envolve atualmente cerca de quinze mulheres organizadas pela Associação Comunitária Vilas Unidas, filiada à Arco Sertão.
Os registros históricos da comunidade foram documentados em 2008 pela assistente social Marília Lobo Pedreira, que observou o receio dos moradores em compartilhar informações sobre suas origens. Esse medo, enraizado por décadas, está relacionado ao temor de perderem suas terras ou serem forçados a retornar às antigas fazendas escravistas. Essa herança de silenciamento reflete os desafios enfrentados pela comunidade para afirmar sua identidade quilombola e garantir seus direitos territoriais.
Além da tradição artesanal, o conhecimento sobre o extrativismo e o manejo dos recursos naturais da caatinga também faz parte da identidade quilombola de Vila Nova. Moradoras como Dona Maltires Luciana dos Santos, de 98 anos, e Dona Almerinda de Jesus, de 86 anos, relatam suas experiências com a extração de resinas, frutos e a confecção de esteiras e chapéus, atividades que sustentaram suas famílias ao longo das décadas.
O reconhecimento oficial da comunidade como remanescente de quilombo fortalece sua luta por políticas públicas que assegurem sua permanência no território, a valorização de suas tradições e a melhoria das condições de vida de seus habitantes. Com sua identidade preservada, Vila Nova segue como um importante exemplo da resistência e da riqueza cultural dos povos quilombolas do sertão baiano.
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