CULINÁRIA E COSMOPERCEPÇÃO DOS POVOS BANTU
Ela representa uma conexão entre passado e presente, sustentando práticas coletivas e ancestrais de alimentação.
A incorporação dos conhecimentos da cosmopercepção Bantu na culinária tradicional pode ser feita de maneira profunda e orgânica, respeitando a relação entre território, ancestralidade, música e ritualidade.
O entrecruzamento entre Culinária Bantu e Diáspora se dá através das tradições alimentares que atravessaram o Atlântico e foram recriadas nos territórios afrodescendentes das Américas. Esse processo não foi apenas uma transferência de ingredientes e receitas, mas uma ressignificação cultural, onde técnicas, saberes e simbologias foram adaptados às novas realidades.
São muitas as Áfricas que fazem parte da cultura baiana: África das Costas Ocidental e Oriental; África Austral; e os povos da África Mediterrânea, o Magrebe.
Toda essa gama de multiculturalidade de centenas de povos está presente na Bahia e, em especial, no Recôncavo com diferentes permanências de idiomas, de músicas, de danças, de técnicas artesanais, de mitologias, de religiosidades e de receitas.
Assim, muitos e amplos cardápios de comidas fazem da Bahia um dos territórios mais africanos no Brasil.
No cenário da história e da sociedade, é fundamental destacar a civilização Bantu, povo da África austral ou centro-atlântica, onde se localizam Angola, República do Congo, Tanzânia, Zimbábue, África do Sul, Moçambique, entre outros países.
Ainda, o povo Bantu é reconhecido por ter vários idiomas e dialetos, são mais de quatrocentos grupos étnicos. Esta verdadeira civilização de povos e de culturas do grupo Bantu marca a formação dos brasileiros por agregar um rico patrimônio cultural que expressa a nossa identidade de povo e de Nação.
Tão nacional, tão brasileira, são as manifestações da capoeira; do samba na sua versão de “roda”; das tradições das irmandades católicas que reuniam contingentes de africanos Bantu, chegados de Angola e do Congo, com as devoções a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito; dos candomblés das Nações Angola, Congo e Muxicongo, com o culto aos inquices; e as maneiras de fazer comida, semelhantes nos dois lados do Atlântico.
Em Angola, os sistemas alimentares se formam a partir da mandioca que foi introduzida pelos portugueses, assim como a rapadura, a cachaça, entre outros.
No Brasil, os quiabos, as pimentas, e os muitos usos do dendê, trazem uma África à boca através das receitas, das estéticas das comidas, dos sabores; e pelo acréscimo de novos ingredientes que passam a fazer parte da formação de nossos hábitos alimentares.
RELIGARE DIVERSIDADE RITUALÍSTICA
A religiosidade africana não é uma questão de adesão a uma doutrina, mas se preocupa em apoiar a fecundidade e sustentar a comunidade. As religiões africanas enfatizam a manutenção de um relacionamento harmonioso com os poderes divinos, e seus rituais tentam aproveitar os poderes cósmicos e canalizá-los para o bem. O ritual é o meio pelo qual uma pessoa negocia relacionamentos responsáveis com outros membros da comunidade, com os ancestrais, com as forças espirituais da natureza e com os deuses.
Os ancestrais também servem como mediadores, fornecendo acesso à orientação espiritual e poder. A morte não é uma condição suficiente para se tornar um ancestral. Somente aqueles que viveram uma vida plena, cultivaram valores morais e alcançaram distinção social alcançam esse status. Acredita-se que os ancestrais repreendem aqueles que negligenciam ou violam a ordem moral, incomodando os descendentes errantes com doenças ou infortúnios até que a restituição seja feita. Quando uma doença grave ataca, portanto, presume-se que a causa final seja o conflito interpessoal e social; a doença grave é, portanto, um dilema moral tanto quanto uma crise biológica.
O ritual frequentemente marca uma transição entre estágios fisiológicos da vida (como a puberdade ou a morte) e uma mudança no status social (como de criança para adulto). Os ritos de passagem são ocasiões naturais parainiciação , um processo de socialização e educação que permite ao novato assumir o novo papel social. A iniciação também envolve o cultivo gradual do conhecimento sobre a natureza e o uso do poder sagrado.
A sociedade secreta Sande dos povos de língua Mande é um exemplo importante, porque sua visão religiosa e poder político se estendem pela Libéria , Serra Leoa , Costa do Marfim e Guiné. Os Sande iniciam meninas ensinando-lhes habilidades domésticas e etiqueta sexual, bem como o significado religioso do poder feminino e da feminilidade.
A Culinária como Herança e Resistência na Diáspora
A diáspora forçada dos povos Bantu durante o tráfico transatlântico não significou apenas deslocamento físico, mas também um processo violento de apagamento cultural. No entanto, a alimentação foi um dos pilares de resistência, pois os conhecimentos culinários foram preservados e adaptados mesmo em condições adversas.
Adaptação de ingredientes: A mandioca, levada da América para a África, retornou ressignificada na alimentação dos afrodescendentes no Brasil e no Caribe, tornando-se base de pirões e farofas.
Persistência de técnicas culinárias: O pilão, essencial na culinária Bantu para moer grãos e temperos, segue presente em comunidades quilombolas e no preparo de ingredientes como o urucum e a pimenta.
Organização social da alimentação: O ato de cozinhar e comer em comunidade, central nas tradições Bantu, foi recriado nos quilombos, terreiros de candomblé e festas populares.
O Papel dos Territórios Afrodescendentes
A culinária Bantu se mesclou a outras influências africanas e indígenas, resultando em uma identidade alimentar afro-diaspórica única. Quilombos, comunidades rurais e urbanas negras foram espaços fundamentais para essa continuidade.
Bahia e Recôncavo: Manutenção do uso do dendê e da defumação de carnes (fumeiro).
Caribe e América Latina: Técnicas Bantu de cozimento lento aparecem nos guisados de peixe e carnes com folhas.
Estados Unidos: A tradição de ensopados e frituras em óleo remete à presença Bantu na alimentação do Sul dos EUA.
Culinária Bantu como Memória e Identidade
A alimentação afro-diaspórica não é apenas uma necessidade biológica, mas um ato político e cultural. O resgate de receitas ancestrais, a valorização das mestras e mestres dos saberes culinários e a luta contra a homogeneização imposta pelo capitalismo são formas de reafirmar a identidade Bantu na diáspora.
Assim, entrecruzar Culinária Bantu e Diáspora significa entender a alimentação como um campo de disputa, mas também como um espaço de resistência, pertencimento e continuidade histórica.
RITUALIDADE NA PREPARAÇÃO E NO SERVIR
Cozinhar pode ser entendido como um ato ritualístico, onde cada etapa tem um significado espiritual e simbólico.
O uso do pilão, tão presente nas tradições quilombolas, reforça a conexão com os antepassados.
Cada alimento pode ser preparado respeitando o tempo natural e as energias que carrega, evitando processos que aceleram ou desconfiguram sua essência.
Práticas como benzer alimentos, cantar enquanto cozinha e evocar os ancestrais durante a feitura dos pratos reforçam essa dimensão.
MÚSICA E RITMO COMO ELEMENTOS DA CULINÁRIA
Nos povos Bantu, o ritmo está presente no fazer cotidiano, desde a colheita até o preparo do alimento.
Trabalhar com cantos tradicionais, toques de tambor e cadências específicas durante o ato de cozinhar pode ativar memórias ancestrais e transformar o momento da refeição em uma celebração.
É possível explorar a relação entre o ritmo e os gestos da cozinha, como o bater do pilão, o mexer do vatapá ou a batida da colher de pau na panela de barro.
Criar um repertório sonoro para os encontros da Cozinha de Investigação pode fortalecer essa conexão.
USO DAS FOLHAS E PLANTAS ALIMENTÍCIAS TRADICIONAIS
Os Bantu sempre cultivaram uma relação sagrada com as folhas, pois elas conectam o céu e a terra, sendo fundamentais tanto na alimentação quanto nos ritos espirituais.
O uso das folhas pode ser ritualizado, seja no banho de ervas para os cozinheiros antes de cozinhar, seja na escolha de folhas específicas para envolver, temperar e curar alimentos.
O estudo das folhas e seus significados nos quilombos pode ser uma linha de aprofundamento para a Cozinha de Investigação.
TERRITÓRIO, ALIMENTO E MEMÓRIA
O conceito bantu de terra como entidade viva reforça a importância de valorizar ingredientes locais, respeitando os ciclos da natureza e o manejo tradicional.
A farinha, por exemplo, carrega uma história específica de um povo e um território. Resgatar e fortalecer histórias de ingredientes e tecnologias sociais tradicionais pode ser uma forma de resistência cultural.
Criar espaços de conversa nos quilombos, como a Oficina Sotoko, para ouvir como os alimentos são vistos e usados dentro da relação com o tempo e o sagrado, pode trazer mais camadas de significado ao trabalho.
BANQUETES ANCESTRAIS E COLETIVIDADE
O ato de comer nos povos Bantu é coletivo e ritualístico. A refeição é um momento de celebração, partilha e conexão.
Reproduzir a lógica dos banquetes ancestrais, onde se come em círculo, em travessas coletivas e com as mãos, pode ser um caminho para resgatar essa experiência.
ESPAÇOS SAGRADOS PARA COZINHAR E CELEBRAR
A Cozinha de Investigação pode ser estruturada de forma a ter um espaço de evocação ancestral, onde símbolos, objetos e alimentos sagrados estejam presentes.
Ter altares com elementos da terra, do mar e das folhas, remetendo às forças que sustentam a culinária tradicional, pode fortalecer essa espiritualidade no espaço físico.
A culinária tradicional carrega essa dimensão sagrada, e tem o potencial de reforçar e ressignificar esses conhecimentos no presente.
A cosmopercepção dos povos Bantu é profundamente enraizada na relação entre os mundos material e espiritual, na continuidade entre ancestrais e descendentes e na interconexão entre seres humanos, natureza e forças invisíveis. Esse sistema de pensamento organiza a vida cotidiana, as práticas rituais e a visão sobre o tempo, o território e a ancestralidade.
O Princípio da Interconectividade
Os povos Bantu percebem o universo como um sistema vivo e interligado, onde tudo está em constante relação. Não há uma separação rígida entre o visível e o invisível: o mundo dos vivos (os que caminham), o mundo dos ancestrais (os que vivem na memória) e o mundo dos espíritos formam um grande ciclo de existência.
O Tempo Circular e a Ancestralidade
Diferente da noção linear de tempo ocidental, os Bantu concebem o tempo de maneira cíclica e espiralada. O passado não é algo distante, mas sim algo sempre presente, pois os ancestrais continuam influenciando a vida dos descendentes. O conceito de kalunga representa essa fronteira fluida entre os mundos, simbolizada pela água, pelos caminhos e pelas transições da vida.
Força Vital (Nkisi, Ntu e Axé)
A energia vital, chamada de Ntu, permeia todas as coisas: seres humanos, plantas, minerais, animais e até objetos. Essa força pode ser manipulada por meio de rituais, oferendas e práticas de respeito à natureza. Nkisi (ou Minkisi no plural) são as entidades espirituais que canalizam essa energia, sendo fundamentais em diversas tradições religiosas de matriz Bantu, como o Candomblé de Angola e o Batuque.
O Território como Entidade Viva
Para os Bantu, a terra não é apenas um espaço físico, mas um ente sagrado. Os territórios são habitados por espíritos ancestrais e guardam a memória das gerações passadas. Lagos, montanhas, rios e árvores sagradas são vistos como pontos de conexão com o mundo espiritual.
A Oralidade e a Transmissão do Saber
O conhecimento é transmitido de geração em geração pela oralidade, por meio de provérbios, mitos, músicas e práticas culinárias. A culinária ancestral, por exemplo, é um espaço de transmissão de memórias e vínculos, onde o alimento carrega não apenas sustento, mas história e ensinamentos.
Música, Dança e Ritmo como Linguagem Cósmica
A música e a dança não são apenas expressões culturais, mas formas de comunicação com os ancestrais e as forças cósmicas. O tambor tem um papel central, funcionando como um portal entre mundos, evocando a memória e conectando passado e presente.
Comunidade e Existência Relacional
O conceito de ubuntu, presente em diversas sociedades Bantu, resume a visão de mundo: "Eu sou porque nós somos". A identidade individual só existe em relação ao coletivo, e a comunidade é a base da existência e do bem-estar.
Essa cosmopercepção bantu segue viva nas diásporas africanas, influenciando culturas, rituais e formas de resistência, especialmente nos quilombos, nos terreiros e nas tradições alimentares da África e das Américas.
Fontes
De Filippo, C., K. Bostoen, M. Stoneking e B. Pakendorf. “Reunindo evidências linguísticas e genéticas para testar a expansão Bantu.” Proceedings of the Royal Society B 279, no. 1741 (2012): 3256-63.
Huffman, Thomas N. Manual para a Idade do Ferro: A Arqueologia das Sociedades Agrícolas Pré-coloniais na África Austral . Scottsville, África do Sul: University of KwaZulu-Natal Press, 2007.
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