Conhecimento tradicional e as quebraderas de babaçu
No norte do Brasil, as trabalhadoras estão utilizando conhecimentos tradicionais e práticas sustentáveis para remodelar a cadeia produtiva do babaçu.
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O trabalho é árduo, mas o babaçu tem sido parte integrante da dieta local e uma valiosa fonte de receita para as comunidades que vivem às margens do rio Tocantins. O babaçu é uma fruta parecida com o coco que pode ser aproveitada na íntegra. As quebradeiras podem produzir leite a partir da noz de babaçu e farinha do mesocarpo da fruta. A casca da fruta pode ser usada como carvão para cozinhar. O retorno mais significativo para a coleta de babaçu vem da produção do óleo, feito a partir da castanha de babaçu.
Para extrair essas nozes, os quebradores têm que bater os frutos com o auxílio de uma haste de madeira, até que o babaçu se quebre. Este método foi originalmente herdado das populações indígenas e foi transmitido de geração em geração, mas apenas para as mulheres das comunidades. Daí o nome de mulheres destruidoras. As quebradeiras trabalham em grupos, cantando suas canções enquanto caminham juntas em direção aos campos da reserva, e quando se sentam ao redor de seus cestos de palha cheios de babaçu, batendo em suas conchas até abri-las.
A partir da década de 1990, as quebradeiras passaram a receber apoio e orientação de organizações sem fins lucrativos interessadas em ajudar as comunidades rurais tradicionais da região. Isso facilitou a formação de “associações de disjuntores” e a implantação de centros de distribuição de cantinas, que funcionam também como mercado para as quebradeiras. É aqui que as quebradeiras recebem um valor justo pela sua produção.
Há dez anos, Guilhermina Cayres, pesquisadora líder da Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - lançou um programa de apoio ao conhecimento da culinária tradicional como ferramenta de mudança social. O programa prevê a formação continuada dos trabalhadores e o apoio institucional. Também lhes permitiu obter financiamento para a abertura de uma pequena fábrica em um vilarejo do Maranhão. Esta fábrica é propriedade de uma das associações de quebradeiras, o Quilombo Pedrinhas Clube de Mães.
Cayres tem trabalhado em estreita colaboração com as quebradeiras. As mulheres receberam formação profissional e aprenderam técnicas de produção que lhes permitiram expandir o negócio. Eles aderiram ao PNAE - Programa Nacional de Alimentação Escolar - programa que vincula produtores locais a escolas públicas e, antes da suspensão das aulas, por conta da Covid-19, a fábrica fornecia pão e biscoito feito com farinha de babaçu para a merenda escolar.
No ano passado, as mulheres do Quilombo Pedrinhas Clube de Mães iniciaram um novo empreendimento. Contando com a tendência crescente de chefs e entusiastas da culinária que defendem práticas agrícolas sustentáveis, decidiram abrir uma linha de produtos à base de subprodutos do babaçu para atender a um mercado mais sofisticado. A associação passou a trabalhar com um consultor e um chef. Seu objetivo é estabelecer melhores padrões nas práticas de produção e desenvolver produtos que atendam aos requisitos desse nicho.
Embora a quarentena tenha retardado suas atividades, eles estão prontos para retomar a fase de testes de biscoitos e sorvetes. O sonho das Quebradeiras é levar suas iguarias muito além dos limites da Bacia Tocantins-Araguaia, onde estão localizadas as roças nativas de babaçu. Quando questionados sobre seus objetivos, todos concordam: “Primeiro, queremos levar nossos produtos para o Maranhão e São Paulo e depois para os EUA e Europa”.
Iniciativas como a de Cayres não são corriqueiras no Brasil. As comunidades rurais tradicionais muitas vezes não conseguem aproveitar os recursos naturais da terra. Essas comunidades estão sendo privadas não apenas do valor nutricional de seus alimentos, mas também de uma fonte de renda. Além disso, a exclusão desses alimentos da cadeia produtiva esgota o ecossistema, empobrece a alimentação das comunidades locais e, muitas vezes, as coloca em situação de vulnerabilidade.
As quebradeiras de babaçu são um exemplo de união de trabalhadores para transformar o padrão de vida de um grupo que ainda mantém preciosas práticas culinárias tradicionais. Hoje, essas mulheres têm orgulho e empoderamento porque são valorizadas por seu trabalho. A perda deles seria a perda de todos. A realização de seu sonho facilitará o acesso a algo delicioso em troca.
Hoje, as associações de quebradeiras de babaçu recebem proteção legal como patrimônio cultural imaterial. “Eles detêm conhecimento tradicional e prático e acesso às propriedades e usos ... associados ao patrimônio genético do Brasil.”




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