Mais que cores e sabores, sementes crioulas conservam a história dos povos
Pesquisa mostra perfil dos "guardiões de sementes crioulas" e o papel do consumidor para manter viva essa cultura
Por FERNANDA COUZEMENCOAté o início da década de 1970, o jovem agricultor pomerano Lorival Haese não conhecia outro tipo de sementes que não as "crioulas". A família plantava de tudo para a subsistência e comercialização de excedentes a partir de sementes genuínas, tradicionais.
Aos poucos, sementes híbridas, fabricadas em larga escala pelas grandes empresas de insumos agrícolas, começaram a se espalhar na região, sob a promessa de serem mais produtivas. Era a "modernidade" chegando ao meio rural, embalada em agrotóxicos, adubos sintéticos e maquinário típico da chamada "Revolução Verde" – na verdade uma estratégia comercial para dar vasão às armas químicas desenvolvidas para a Segunda Guerra Mundial.
Antigo estudioso da agrobiodiversidade brasileira, João decidiu mergulhar no aspecto social que sustenta as sementes crioulas, até para identificar o que ainda existe e o que foi perdido, e principalmente, para apontar formas de fortalecer essa tradição. O estudo foi feito na região serrana do Espírito Santo, em comunidades rurais dos municípios de Santa Maria de Jetibá, Domingos Martins e Laranja da Terra, e "conseguiu mapear padrões e identificar as famílias guardiãs, o que é importante pra apontar caminhos para apoia-los".
A agroecologia, a venda direta e o associativismo formam um tripé que define o perfil dos guardiões. E a origem pomerana surgiu como outra característica de relevo. "As famílias pomeranas foram a maioria entre as apontadas como guardiãs nesses três municípios", conta.A metodologia de mapeamento das famílias guardiãs foi a da "bola de neve", em que um guardião, reconhecido como tal em sua comunidade, ia apontando outro e outro. E toda a pesquisa, acentua, foi feita de forma participativa, do início ao fim.
"Tenho prazer de ser útil, em ouvir o pessoal, dizer 'pode deixar com o Ernesto que não vai perder'. Quando você consegue conservar uma semente, uma muda que outro agricultor acabou perdendo, isso dá uma alegria enorme, uma sensação de dever cumprido", relata.
Durante a pesquisa, uma outra motivação para o trabalho de guardião despontou. "Quando fui indicado para colaborar com doutorado do João, me dei conta do motivo de eu me interessar e guardar sementes: criar amigos. O João foi a primeira pessoa que me chamou de guardião. Me senti reconhecido pelo trabalho de garimpar, experimentar, selecionar, trocar e compartilhar sementes", depõe.O papel do consumidor
Essas feiras, destaca, surgiram como um segundo aspecto importante para apoiar o trabalho dos guardiões, assim como cursos e outros eventos, "ambientes onde eles podem interagir com outros guardiões, para se reconhecerem, para trocarem sementes, ideias e políticas, fortalecendo a cultura da conservação da agrobiodiversidade".
Na Assembleia Legislativa, tramita desde o ano passado um projeto de lei da deputada Iriny Lopes (PT) objetivando criar a Política Estadual de Incentivo à Formação de Bancos Comunitários de Sementes e Mudas de Variedades e Cultivares Locais, Tradicionais ou Crioulos (PNIBCS). O PL retoma uma iniciativa abortada em 2017, mas que não avança, devido ao baixo interesse dos parlamentares, ainda majoritariamente representantes dos interesses do agronegócio.
PertencimentoO pertencimento, salienta João, é necessário para ser coerente com a forma como os agricultores têm conservado as sementes crioulas até hoje, que é por meio da dinâmica da "conservação pelo uso (on farm)". Em contraponto aos "bancos de sementes" estanques, as casas de sementes, e mesmo os eventos de trocas – materiais e não-materiais – devem dialogar com a realidade e o dia a dia das famílias.
"Os agricultores estão o tempo todo testando as sementes, nas feiras e nas lavouras. O que não tiver saída junto ao consumidor, ou não tiver um apelo emocional e histórico, ou não for de consumo interno da família, eles descartam. É uma conservação dinâmica. Algumas se perdem, outras são mantidas", expõe. No doutorado, João classificou três estágios: as sementes crioulas exóticas, que estão há menos de cinco anos com as famílias; as locais, com tempo entre cinco e 25 anos; e as tradicionais, com mais de 25 anos. "Há sementes de milho há mais de cem anos em algumas famílias", destaca.
Em seu estudo, foi possível obter uma quantidade pequena de testes, com apoio da Superintendência capixaba do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Aplicados ao milho branco, usado tradicionalmente pelos pomeranos para a produção do brote, pão tradicional pomerano feito com milho e raízes. "Graças a Deus o milho branco não foi contaminado", celebra.
A investigação sobre contaminação com transgênicos feita no doutorado de João está tendo continuidade, de forma mais abrangente, por meio de uma iniciativa do Fórum Espírito-Santense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (Fesciat) e parceiros, e pretende identificar onde e como possivelmente essa contaminação ocorre no Estado."Não planto transgênico para não perder a minha história", enuncia João, repetindo um posicionamento ouvido durante a pesquisa na região serrana capixaba e em outras partes do país onde a conservação da agrobiodiversidade lhe chamou atenção. "Todo alimento tem a sua história. A pesquisa é bonita, mas é dura também no sentido de apontar muitas perdas que têm acontecido".
O trabalho secular de conservação empreendido intuitiva e dedicadamente pelas famílias, reafirma o pesquisador, "não é só bonito e útil para a sobrevivência". As sementes genuínas, acentua, para muito além das cores, aromas e sabores que oferecem à humanidade, conservam a história e a cultura dos povos.
Tesouros, lamenta, que estão se perdendo, devido à desigualdade de forças: a ofensiva bélica do agronegócio, de um lado; e o trabalho artesanal e espontâneo das famílias e consumidores de outro. É preciso um trabalho de "reverência e reconhecimento dos guardiões", que ainda não existe do ponto de vista institucional. As instituições precisam se inserir nessa rede, conservando o que as famílias não conseguem manter por meio da dinâmica on farm, aponta João, citando as fazendas do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) como espaços privilegiados para cumprirem essa missão.O reconhecimento e a reverência aos guardiões precisam crescer, por meio de legislação específica, suporte das instituições e ação consciente do consumidor. "As sementes crioulas carregam em si as resistências, as intempéries, a riqueza de recursos genéticos. Não é só a semente, é o conhecimento tradicional de povos tradicionais, associado à semente".
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