Dia dos Pais: esfiha mantém viva memória e legado de patriarca sírio
Por Gabrielli Menezes
A semelhança entre Joseph Moris e o pai, o imigrante sírio Moris Joseph Azar, começa no nome e vai para a aparência. Logo na foto dá para notar: é o formato do rosto, do nariz, das sobrancelhas e até a maneira de arrumar o cabelo.
Clientes fiéis do empório árabe Samir Amis, aberto em Moema em 2006 pelo genitor e tocado desde 2015 pelo filho, vão além na comparação. "Todos os dias o que eu mais ouço é que meu jeito de falar e de andar são iguais aos dele", diz Joseph.
GERAÇÕES À MESA
No Dia das Mães, minha tradição é receita de uma avó que não sabia cozinhar
A aptidão para os negócios também parece que é genética. Moris incentivava Joseph ainda adolescente a conhecer a fundo a loja da família.
Eu dava risada na época, mas também achava um máximo. Percebia que ele confiava em mim."
Aos 15, o menino já sabia tim-tim por tim-tim do que tinha nas prateleiras. Às vezes, chegava a ser desafiado pelos fregueses: "eles gravavam vídeos porque achavam curioso ver um moleque que parecia ter 30 anos. Eles me faziam perguntas para ver se eu sabia explicar".
Moris também apresentou ao filho toda a operação do empório, desde o contato com fornecedores até a administração do dinheiro, quase como se estivesse dando a mentoria que ele gostaria de ter tido.
Imigrante empreendedor
Moris saiu da Síria e chegou ao Brasil com 29 anos, em 1988. Sem saber falar português, teve a sorte de ser levado por um taxista para a Abdo Schahin, rua no centro de São Paulo conhecida pelas colônias árabes.
Ele começou a trabalhar num restaurante pertencente a um libanês e não demorou a assumir a churrasqueira, de onde saíam kaftas e espetos. Mas o que chamou a sua atenção foi o pão sírio.
"Na época, não tinha pão sírio em qualquer lugar. As pessoas faziam em casa ou iam num restaurante para comer", conta Joseph.
Esfiha artesanal foi e é sustento da família
Essa foi a sacada para que Moris investisse no negócio próprio e se dedicasse à produção artesanal da especialidade. Montou, então, uma pequena fábrica numa garagem do bairro Cambuci chamada El Basha.
Com a ascensão de um concorrente, no entanto, o empreendedor resolveu mudar o foco para esfihas. "Também deu certo porque era difícil encontrar esfihas prontas para só esquentar em casa e comer".
Além de fazer sucesso dentro da comunidade e em mercadinhos, o salgado caiu nos gostos do gerente do Carrefour, que o convidou para fazer uma parceria de vendas. "Ele ficou muito feliz, mas também assustado. À época, ele era sozinho aqui".

Moris foi para a Síria, mas em vez de voltar com os pais e os irmãos, seguiu a tradição do casamento e aterrissou em São Paulo junto da esposa Rula Hanna, com quem teve Joseph e Julian.
Em 2005, a demanda do Carrefour cresceu tanto que ficou maior do que a El Basha poderia oferecer e a fábrica chegou ao fim. No ano seguinte, ela abriu as portas do Samir Amis, criando um contato direto com o público.
A ideia foi oferecer alimentos típicos trazidos da fonte, além de apetrechos culturais como shisha (narguilé) e bule de café turco. As esfihas que sustentaram a família até então foram para um cardápio pensado para levar e ganharam a companhia de receitas de Rula, como charutinho de uva, arroz com lentilha e homus.
Legado para carregar aos 16
Desde os 16, Joseph está à frente do negócio; hoje ele tem 22 e vende 5 mil esfihas por dia
Em março de 2016, Joseph, o irmão e a mãe foram pegos de surpresa por uma eventualidade. Moris foi descansar no escritório, no andar de cima de cima do empório, e não acordou mais.
O local da morte, provocada por um infarto fulminante decorrente de diabetes, foi quase premeditado pelo patriarca. "Ele me falava: "pode anotar, o dia que falecer será dentro dessa loja".
Era como se ele soubesse que eu seria o sucessor dele."
De acordo com Joseph, Moris era 100% focado trabalho. Trabalhava de domingo a domingo, da hora de abertura ao fechamento. "Foi um momento difícil. Não temos família no Brasil. Minha mãe entrou em luto e não queria mais saber dos negócios. Meu irmão tinha 12 anos e eu, 16".
Família seguiu com o negócio após a morte do patriarca
A estratégia do filho mais velho foi seguir o legado do pai no Samir Amis e retomar a venda de esfihas no atacado para mercados, bares, restaurantes e até postos de conveniência.
Mesmo na pandemia, o empório prosperou. "Temos clientes fiéis que fazem muita encomenda. Saem, em média, 5 mil esfihas por dia". Para dar conta de tudo, o número de funcionários subiu de seis para vinte em cinco anos.
O Samir Amir é o que é hoje graças a ele".
Enquanto Rula segue responsável pela produção da comida, Joseph administra a casa com a ajuda de Julian e os ensinamentos de Moris. Mas tem uma diferença significativa na chefia dos dois. Agora, domingo é dia de descanso.
Fonte: Uol
Comentários
Postar um comentário