INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS DE CAFÉ PASSAM POR MOMENTO DE REFLEXÃO
A certificação fortalece o compromisso com práticas socioambientais e de sustentabilidade.
O movimento de IGs exige colaboração entre produtores, cooperativas e instituições públicas para ganhar força e consistência.
Em resumo, o Brasil vive um momento de reflexão e consolidação das Indicações Geográficas para café: o país busca estruturar uma cadeia mais qualificada, transparente e com identidade territorial — seguindo exemplos europeus, adaptados ao nosso contexto cultural e produtivo.
Por Ensei Neto
As novas indicações geográficas mostram tendência de fragmentação das grandes regiões.
A primeira região brasileira produtora de café a iniciar um processo formal de Indicação Geográfica foi o Cerrado Mineiro, extensa área que compreende o Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e parte do Noroeste Mineiro, ainda nos anos 1990, após um grandioso esforço de organização e mobilização.
Eram 44 municípios, cujos produtores estavam organizados, na época, em 9 associações e 4 cooperativas, sob liderança de Aguinaldo José de Lima e a marca Café do Cerrado, iniciou a divulgação da região por meio de seus grãos em indústrias no Brasil e países como Espanha e Japão.
A segunda Indicação Geográfica teve seu processo iniciado pela região da Mantiqueira de Minas, em 2005, tendo a Associação dos Produtores de Café da Mantiqueira - APROCAM, na época sob a liderança de Antônio José Vilella, que havia compreendido a importância de atuar com uma área de abrangência menor e, portanto, menor variação climática.
A partir disso, diversas regiões produtoras passaram a considerar a demarcação territorial e, posteriormente, a indicação geográfica como modelo para valorização dos seus grãos, até que, recentemente, 17 origens tiveram seu reconhecimento pelo INPI - Instituto Nacional de Propriedade Intelectual.
A visão inicial que os produtores do Cerrado tiveram era de utilizar a mesma estratégia que as regiões produtoras de vinho empregam há muitos anos, valorizando o território, seu clima e, principalmente, a possibilidade de se rastrear os grãos de café a partir de cada produto.
Recentemente, algumas discussões entre os cafeicultores têm se avolumado com o questionamento sobre a chamada tipicidade do produto, isto é, o quanto é perceptível e identificável a origem de um determinado produto ao ser consumido, ainda mais quando os processos de pós colheita estão mudando radicalmente o perfil sensorial dos cafés. A questão principal sobre a produção de grãos sob processos fermentativos empregando microorganismos de empresas internacionais, conforme alguns pesquisadores de alta reputação vêm expondo, é que os resultados sensoriais tornam os cafés muito semelhantes em todos os lugares, fazendo cair por terra suas tipicidades de bebida.
O professor Gilberto Pereira, da UFPR, defende que as fermentações devem ser realizadas com microorganismos originalmente encontrados em cada local, pois as populações são específicas, que explica o porquê de produtores de queijos vizinhos de cerca produzirem "redondas" tão distintas.
A partir desta percepção, alguns grupos de produtores compreenderam a vantagem de estabelecer microrregiões, garantindo a autenticidade de um produto e seus sabores.
Na verdade, a grande diferença entre o vinho e os grãos de café reside no fato de que o vinho é um produto pronto para o consumo, o que viabiliza totalmente apresentar e justificar sua tipicidade sensorial.
O vinho é um produto pronto para o consumidor.
Os grãos de café são ainda matéria prima para a indústria da torrefação, sendo, portanto, um modelo de negócio denominado B2B, ou seja, entre empresas, o que pede um ambiente colaborativo permanente entre produtores e torrefação para que o produto chegue ao consumidor como os produtores imaginaram.
A alternativa para um produtor alcançar o consumidor diretamente é verticalizar suas atividades, incluindo a torrefação, como várias fazendas já fazem como a Fazenda Pessegueiro, de Mococa, SP, uma das pioneiras; a Aromas de Bragança, Bragança Paulista, SP, que mantém um circuito permanente de visitação à fazenda com degustações; o baiano Café Gourmet CGP, de Piatã, Chapada Diamantina; e o Ninho da Águia, do Alto Caparaó, MG, que oferece chalés para hospedagem.
A fragmentação das regiões pode ser boa alternativa para viabilizar os programas de Indicação Geográfica de café, criando acesso direto aos consumidores, porém exigindo maior preparo dos produtores para que possam usufruir plenamente desses benefícios, garantindo o máximo de inclusão
Ensei Neto é um dos mais reconhecidos especialistas em café no Brasil, com atuação destacada na área sensorial, gestão de qualidade e marketing de bebidas e alimentos.
🎓 Formação e perfil profissional
É engenheiro químico com especialização em tecnologia de alimentos, além de músico formado (piano, arranjo e composição)
Atuou no segmento de alimentos e bebidas, incluindo fermentados como cachaça, vinho e sakê
☕ Especialização em café
Fundador do blog The Coffee Traveler (2006), o primeiro no Brasil dedicado ao café e experiências sensoriais
Consultor em gestão sensorial de bebidas e alimentos, com projetos de marketing e qualidade em cafés especiais globalmente .
Membro titular do Technical Standards Committee da SCAA (Specialty Coffee Association of America), onde ajudou a estruturar os protocolos de avaliação sensorial do café
Juiz certificado pela SCAA e Q‑Grader licenciado pelo Coffee Quality Institute





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