CULINÁRIA E COSMOLOGIA HUNI KUIN
No coração do @SítioImbassaí, espaço de abundância e natureza viva no Litoral Norte da Bahia, teremos a honra de receber o @Cacique Kana Bane, que retorna após três anos para compartilhar seus saberes, e sua sobrinha Tarawã, guardiã da força feminina de cura. Juntos, eles nos conduzirão a uma jornada única, em que a alimentação tradicional Huni Kuin se entrelaça com a medicina da floresta e com as práticas sagradas de bem viver.
Para os Huni Kuin, a comida não é apenas sustento: ela é remédio, é cuidado e é ritual. Preparações como mingaus, pamonhas, macaxeira com folhas e a caiçuma revelam a arte de transformar a vida, aproximando o ato de cozinhar ao próprio gesto de gerar e proteger a existência.
Durante a cerimônia, essa relação sagrada com os alimentos será honrada, convidando cada participante a perceber a comida como um elo profundo entre corpo, espírito e comunidade.
Assim, o terreirão do Imbassaí se tornará palco de celebração, aprendizado e cura, resgatando saberes que nutrem não só o corpo, mas também a alma. Venha vivenciar essa experiência transformadora, fortalecendo suas raízes e sua conexão com as medicinas ancestrais da floresta.
Segundo McCallum (1999), o termo em hãtxa kuin para “cozido” é ba, palavra que também significa “criar”, “procriar” e “nascer”. Essa correspondência revela uma profunda relação simbólica entre cozinhar e a reprodução humana. Além disso, parte dos recipientes culinários é entendida como análoga ao útero feminino. Lagrou (2007) complementa essa visão, indicando que, na cosmologia Huni Kuin, o corpo humano se compõe de elementos masculinos (ossos, alimentos amargos) e femininos (pele, alimentos doces).
A panela ritual de Caiçuma — bebida tradicional — era decorada nas bordas com caudas de arara, símbolo fálico associado à origem da menstruação. A caiçuma, bebida feminina, ao ser consumida pelos homens, transforma-se simbolicamente em sêmen. A panela é vista como recipiente do sêmen potencial.
O instrumento de servir (colher) é representado na decoração, unindo o símbolo do pênis (cauda de arara) ao gesto de transportar o líquido — como o pênis transporta o sêmen ao útero (Lagrou, 2007).
Essa analogia sugere que tanto cozinhar quanto gerar a vida são processos de transformação: no primeiro, transforma-se matéria crua em alimento, no segundo, gametas em um embrião. Isso reforça a centralidade do gênero feminino na cultura alimentar, pois cozinhar e gerar a vida pertencem ao domínio simbólico das mulheres.
Outro ponto importante é a forma como os vegetais modulam o yuxĩ (espírito) dos animais consumidos na mesma refeição. Não se recomenda comer carne sozinha; o equilíbrio energético é alcançado mastigando juntos alimentos de origem vegetal e animal, prática chamada naikĩ. Isso neutraliza a força do espírito animal, equilibrando corpo e espírito (Lagrou, 1991).
Segundo Yano (2014), esse equilíbrio se realiza pelo ato de mastigação lenta (nai), degustando ao mesmo tempo carnes e vegetais, para potencializar atributos gustativos e regular efeitos energéticos.
A dieta Huni Kuin é baseada em alimentos oriundos dos sistemas agrícolas tradicionais (roçados itinerantes de corte e queima), chamados yunu (“legumes do roçado”), e também produtos florestais (ni). Esses recursos, além do valor nutricional, possuem usos culturais e rituais.
Para os Huni Kuin a terra é de uso coletivo; as famílias, chefiadas pelos homens fazem seus roçados, utilizando os espaços disponíveis para o plantio de forma que toda a comunidade possa utilizá-los. Os trabalhos na aldeia são divididos por sexo e por idade.
Alimentar-se bem é essencial para manter a saúde do corpo (yuda) e do espírito (yuxĩ), sendo um sinal de boa consciência (xinanya) e de sociabilidade entre os núcleos familiares (Aquino & Iglesias, 1994; Pilnik, 2019).
Entre os alimentos fundamentais na dieta huni kuin estão a macaxeira (Manihot esculenta Crantz) e a banana (Musa x paradisiaca L.). Eles são valorizados tanto pela versatilidade culinária quanto por seu caráter simbólico, pois integram dietas espirituais (samã kea) conduzidas por xamãs (mukaya), além de serem preferidos por pessoas doentes e mulheres durante a gravidez e o ciclo menstrual, por serem considerados alimentos puros, isentos de gorduras e de yuxĩ maléficos (McCallum, 2001).Os saberes alimentares resultam de processos ancestrais de prospecção, seleção, cultivo, experimentação e inovação, constituindo patrimônio imaterial repleto de conhecimentos, memórias e práticas. Para os Huni Kuin, alimentos tradicionais representam “comida de gente verdadeira”, diferenciando-se da comida nawá (não indígena), vista como culturalmente distinta (Pilnik, 2019).
Pratos tradicionais destacados
Assista o vídeo da preparação do Mutsa
Um dos preparos mais comuns, elaborado com banana, macaxeira, amendoim ou farinha de mandioca/banana verde diluída em água. O mingau mais frequente usa banana-comprida madura, cozida, pilada, peneirada e diluída em água, podendo ser enriquecida com pasta de amendoim ou paçoca.
Preparada cozida junto com folhas de nawãti, hashumãwã ou da própria macaxeira. Existe ainda a variação atsa henã (“rio de macaxeira”), feita com caldo e folhas raladas, gerando uma coloração esverdeada e prolongando a conservação do alimento por até três dias.
O milho pilado e misturado ao amendoim, embrulhado em folhas de sororoca, bananeira ou na própria palha do milho. A palavra missi kawá designa a pamonha envolta em folhas.
A culinária Huni Kuin expressa, assim, uma complexa rede de significados, práticas e valores, onde cozinhar, alimentar e gerar a vida se entrelaçam profundamente.
Convite Especial
Haux irmãos e irmãs!
É com grande alegria que anunciamos uma cerimônia muito especial que acontecerá no dia 19 de julho, no terreirão do Sítio Imbassaí. O terreirão vai balançar com a energia e a sabedoria dos Huni Kuin!
O Cacique Kana Bane, um dos primeiros representantes dessa rica cultura a trazer a medicina ancestral para o Litoral Norte da Bahia, retorna após três anos — desta vez acompanhado pela força feminina de sua sobrinha, Tarawã, prometendo uma experiência ainda mais rica e transformadora.
Agenda do evento
18 de julho: Projeção de curta-metragem estrelado pelos moradores da aldeia de Kana e Tarawã, seguida de roda de rapé para conexão e partilha de experiências.
19 de julho: Dia da cerimônia sagrada, dedicada à cura e ao aprendizado das medicinas da floresta, acompanhada dos cantos tradicionais Huni Kuin.
20 de julho: Encerramento com as medicinas do Hampaya e do Kambo, proporcionando cura e aprofundamento nas terapias de conexão com as forças da natureza.
Venham participar dessa jornada de cura e autodescoberta, onde teremos a oportunidade de nos conectar com as medicinas da floresta e com os conhecimentos ancestrais.
Esperamos todos vocês para celebrar e aprender juntos nesta experiência única!
📞 Inscrições
(71) 99659-7755 - Caio
(71) 98535-1328 - Janine
Referências (ABNT)
ALGRANTI, Leila Mezan. Alimentação e cultura indígena. In: CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2000.
AQUINO, Terri; IGLESIAS, Guillermo. Povos indígenas no Brasil: Huni Kuin. São Paulo: Instituto Socioambiental, 1994.
CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2011.
LAGROU, Els. As metamorfoses do corpo e da pessoa entre os Kaxinawá. Mana, v. 3, n. 2, p. 7–30, 1997.
LAGROU, Els. O ovo e a cuia: duas metáforas corporais entre os Huni Kuin. Revista de Antropologia, v. 50, n. 2, p. 493–517, 2007.
MCCALLUM, Cecilia. Gender and sociality in Amazonia: how real people are made. Oxford: Berg, 2001.
MCCALLUM, Cecilia. Rethinking women’s body and kinship: amazonians’ conceptions of sex, gender, and reproduction. Journal of the Royal Anthropological Institute, v. 5, n. 3, p. 423–441, 1999.
PILNIK, Maíra. Memórias do paladar: cultura alimentar entre os Kaxinawá do Rio Jordão, Acre. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.
YANO, Tatiana. Corpos e alimentos: rituais alimentares Huni Kuin. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.

Kaxinawá Culinária Huni Kuin 




Macaxeira com folha (Atsa Pei)


Comentários
Postar um comentário