GALINHA AO MOLHO PARDO: UM CLÁSSICO DA CULINÁRIA TRADICIONAL DA BAHIA

A galinha ao molho pardo, também chamada em algumas regiões de “galinha de cabidela”, é um prato emblemático das culinárias de matriz portuguesa e afro-brasileira. 

Na Bahia, foi por muito tempo presença certa nas mesas rurais, nas festas de família e nos almoços de domingo. Sua preparação carrega não apenas técnicas culinárias, mas também símbolos de sociabilidade, respeito aos ciclos da vida e conexão com o território.

O prato tem origem no legado da cozinha portuguesa, onde pratos “ao pardo” — feitos com o próprio sangue do animal — são comuns desde a Idade Média. No Brasil, especialmente na Bahia, essa técnica foi apropriada, ressignificada e combinada com saberes locais, formando um repertório culinário profundamente enraizado nas comunidades rurais, quilombolas e sertanejas.

Por que a galinha ao molho pardo sumiu das mesas?

Mudança nas práticas alimentares urbanas e rurais

Com o avanço da urbanização e da industrialização da alimentação, práticas que envolvem o abate doméstico de animais foram progressivamente abandonadas. O preparo da galinha ao molho pardo exige um saber específico: abater a galinha, coletar o sangue corretamente, acidificar com vinagre ou limão para evitar a coagulação, e dominar o cozimento lento do molho.

Esse conhecimento, que fazia parte do cotidiano de muitas famílias, sobretudo nas zonas rurais, foi se perdendo à medida que as pessoas passaram a consumir carnes já industrializadas, embaladas e sem vestígios do processo de morte do animal.

•Efeito da higienização e da estética da alimentação moderna

O sangue, ingrediente central do prato, passou a ser visto com resistência. As novas gerações, distanciadas do processo produtivo da comida, passaram a associar o uso do sangue a algo “nojento”, “antiquado” ou mesmo “anti-higiênico”, resultado de uma cultura que higieniza a morte na alimentação e desconecta o alimento da sua origem animal.

•Legislação sanitária e industrialização

O endurecimento das legislações sanitárias inviabilizou a venda e o transporte de sangue animal, dificultando a circulação de ingredientes essenciais para pratos como a galinha ao molho pardo. Além disso, a substituição das galinhas criadas em quintais, rústicas, de carne firme e sabor marcante — pelos frangos industriais de crescimento rápido impactou diretamente o sabor e a textura do prato, tornando-o menos interessante para quem ainda tentava reproduzi-lo.

•Desvalorização dos saberes tradicionais

O modelo econômico neoliberal, que privilegia a eficiência, a rapidez e o consumo padronizado, impactou fortemente a culinária tradicional. A transmissão oral dos saberes, das receitas e das práticas coletivas foi sendo interrompida, levando ao desaparecimento não só de pratos, mas de sistemas alimentares inteiros.

Maria de São Pedro dos Santos (1901–1958) foi uma das figuras mais emblemáticas da culinária baiana, reconhecida por sua habilidade em preservar e enaltecer os sabores tradicionais da Bahia. Nascida em Santo Amaro da Purificação, mudou-se para Salvador ainda jovem e, em 1925, iniciou sua trajetória gastronômica com uma modesta barraca na antiga Feira do Sete, onde servia pratos típicos da culinária baiana e nordestina. 

Com o tempo, sua fama cresceu, atraindo trabalhadores, boêmios e intelectuais. Em 1930, transferiu seu negócio para o Mercado Popular e, posteriormente, para o antigo Mercado Modelo. Seu restaurante tornou-se ponto de encontro de personalidades como Jorge Amado, Odorico Tavares, Orson Welles, Pablo Neruda e Jean-Paul Sartre, que se encantaram com seus pratos, especialmente a moqueca de peixe.  

Embora a moqueca fosse seu prato mais famoso, a galinha ao molho pardo também fazia parte do cardápio e era apreciada por muitos frequentadores. Este prato, de origem portuguesa, foi adaptado na Bahia com influências africanas, tornando-se um símbolo da culinária sertaneja baiana. A galinha ao molho pardo é preparada com galinha caipira e seu próprio sangue, resultando em um molho escuro e saboroso.  

A perda de receitas tradicionais como a galinha ao molho pardo representa um empobrecimento cultural e uma desconexão com as raízes culinárias da região. Preservar e valorizar esses pratos é essencial para manter viva a identidade gastronômica da Bahia e honrar o legado de mestras como Maria de São Pedro. 

A extinção de uma receita como a galinha ao molho pardo não é apenas uma pperda culinária. Ela representa um rompimento nos fios da memória, da identidade e da cultura alimentar.

Perda de biodiversidade cultural e alimentar

Pratos como este dependem de ingredientes específicos (galinha de quintal, técnicas de abate, condimentos locais) e sua extinção pressiona não apenas os saberes, mas também os modos de produção agroecológicos e familiares.

Rompimento com os vínculos comunitários

O preparo desse prato, em geral, não era um ato individual, mas coletivo: desde o abate da galinha até o longo processo de cozimento, tudo envolvia a participação da família ou da comunidade. A perda da receita significa, portanto, o esvaziamento de momentos de encontro, de conversa, de partilha e de construção de afetos.

Empobrecimento cultural

Quando deixamos de cozinhar e de transmitir um prato, perdemos também as histórias, os modos de vida e as cosmovisões que ele carrega. A galinha ao molho pardo é um prato que fala de resistência, de conexão com a terra e de uma relação menos alienada com o ciclo da vida e da morte.

Impacto na soberania alimentar

A perda de saberes culinários tradicionais fragiliza a autonomia dos povos sobre seus próprios sistemas alimentares, os deixando mais dependentes da indústria, da comida ultraprocessada e dos modelos hegemônicos de consumo.

Resgatar a galinha ao molho pardo não é só um ato culinário, mas um gesto político e cultural. É reivindicar a memória dos quintais, dos roçados e das cozinhas onde o alimento era mais que nutrição: era tempo compartilhado, cuidado e celebração da vida em sua integralidade.

Talvez seja tempo de repensar nossas relações com a comida, com o tempo e com os saberes dos nossos ancestrais. Reaprender a fazer uma galinha ao molho pardo é, no fundo, uma forma de reconectar-se com quem somos e com as terras que nos alimentam.


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