đ SOBRE A ABĂBORA E SUA [CONTROVERSA] ORIGEM.
Uma discussĂŁo antiga estĂĄ relacionada Ă origem e Ă tradição da abĂłbora, e sua presença nos livros de receitas do passado europeu ou hispano-mourisco. Alguns estudiosos — e nĂŁo poucos hipernacionalistas tanto na Espanha quanto na ItĂĄlia — discutem se essa hortaliça jĂĄ estava presente na Europa antes da invasĂŁo das AmĂ©ricas ou se chegou lĂĄ apĂłs cruzar o AtlĂąntico em algum momento do sĂ©culo XVI. A controvĂ©rsia surge porque a abĂłbora Ă© mencionada repetidamente no livro “Alivio das mesas, sobre as delĂcias da comida e os diferentes pratos”, escrito por Ibn Razin al-TugibĂ no sĂ©culo XIII — trezentos anos antes de se conhecer o continente americano, onde a ciĂȘncia jĂĄ estabeleceu a origem dessa popular hortaliça. Na ItĂĄlia, por exemplo, hĂĄ quem afirme que a abobrinha (zucchini) Ă© um produto local, embora ela nĂŁo apareça nos principais livros de receitas renascentistas, sendo mencionada apenas a partir do sĂ©culo XIX. (Bom, tambĂ©m na Hungria pensam que a pĂĄprica Ă© originĂĄria de seu solo.)
Acontece que as traduçÔes dos documentos culinĂĄrios ĂĄrabes conhecidos utilizam uma palavra correta para o contexto europeu, mas que nĂŁo significa o mesmo para nĂłs, americanos. Quando esses textos de quase oitocentos anos atrĂĄs se referem Ă s abĂłboras, na verdade estĂŁo falando da Lagenaria siceraria, uma planta trepadeira da famĂlia das cucurbitĂĄceas (como as abĂłboras mesoamericanas), mas de origem africana. Na AmĂ©rica tambĂ©m conhecemos essa “abĂłbora”, mas a chamamos de cuia, e como na Ăfrica, utilizamo-la para criar recipientes devido Ă dureza de sua casca. Foi essa mesma casca impermeĂĄvel que facilitou sua chegada ao continente americano, pois seus frutos chegaram boiando Ă s praias.
Na Espanha, essa cucurbitĂĄcea Ă© conhecida como “abĂłbora vinatera” (porque se podia transportar vinho e outros lĂquidos dentro dela), e os ĂĄrabes consumiam sua polpa — algo que na MesoamĂ©rica nĂŁo era um costume cotidiano. Por outro lado, os zucchini sĂŁo abobrinhas (Cucurbita pepo) semelhantes Ă s abĂłboras crioulas mesoamericanas, e nĂŁo hĂĄ dĂșvida de que chegaram Ă ItĂĄlia no sĂ©culo XVI.
A culinĂĄria do Magreb (o noroeste da Ăfrica, onde o sol se pĂ”e ao entardecer, visto de Meca) acabou por incluir a abĂłbora mesoamericana (conhecida como “de Castela”) e a incorporou rapidamente em seus guisados tĂpicos, como o Tajine, de modo que hoje parece um ingrediente ancestral local. Essa Ă©, provavelmente, a razĂŁo pela qual se pensa que as abĂłboras do sĂ©culo XIII eram as mesoamericanas.
AtĂ© onde a ciĂȘncia alcança, todas as abĂłboras sĂŁo de origem americana, embora outras cucurbitĂĄceas como o pepino, o melĂŁo, a melancia e a Lagenaria fossem conhecidas e cultivadas no Oriente MĂ©dio e no MediterrĂąneo por sĂ©culos. As palavras nem sempre significam o mesmo em diferentes lugares e em diferentes tempos.
APL 2025
Alberto Peralta Lagareta
“Alberto Peralta Lagareta” Ă© um renomado etno-historiador e pesquisador brasileiro-mexicano (natural do Chile, segundo registros) especializado em histĂłria da gastronomia mexicana e mesoamericana.
Sua formação acadĂȘmica envolve antropologia social e estudos histĂłricos sobre comida, cultura culinĂĄria e identidade alimentar .
⚡ Principais dados sobre ele:
Ă autor de obras de referĂȘncia como Cultura gastronĂłmica en la MesoamĂ©rica prehispĂĄnica (publicada em 2014/2018 pela Siglo XXI) e La mesa de todos. Historia de la gastronomĂa callejera en la Ciudad de MĂ©xico (2021) .
Desenvolve pesquisas sobre pråticas culinårias em contextos históricos e coloniais do México .
Jå participou de podcasts e entrevistas (como Pass the Chipotle, episódio de 2021) discutindo temas relacionados ao mundo culinårio pré-colonial e colonial mexicano .



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