PAGÉ RESGATA CULINÁRIA INDÍGENA E REPUDIA FAST FOOD: "NÃO TEM GOSTO"

Visita em São Paulo pretende criar cartilha com receitas tradicionais.

O encontro entre membros do povo Huni Kuin com universitários levou a culinária e os métodos utilizados na mata para a sala de aula, em Sorocaba (SP). De acordo com o Pajé Bainawá Inubake, o momento é essencial para compreender os costumes, mas garante a qualidade do “cardápio” indígena em relação ao consumo de fast food. “Conheço e já comi, mas não tem gosto de nada”, diz.

Viemos mostrar que a nossa cultura ainda está viva." Bainawá Inubake, pajé

Com olhares atentos para as palavras do pajé, os estudantes se concentraram na oportunidade de ouvir sobre vivência e o cotidiano na floresta. “Viemos mostrar que a nossa cultura ainda está viva. Além disso, sobre a preparação da comida que é totalmente natural, com folhas e alimentos tirados diretamente da natureza”, conta Bainawá.

Entre os ingredientes, segundo o índio Kêa Inubake, a mandioca se destaca como item essencial na dieta indígena, por ser eficaz e durar dias sem estragar em uma panela. “A preparação é com folha e temperos típicos do nosso povo. É um alimento que garante a sobrevivência na floresta, onde não tem restaurante”, afirma. Banana, mandioca, milho, amendoim, peixe e carne também são usados.

A aula inusitada foi organizada pelo curso de gastronomia da Universidade de Sorocaba (Uniso). Conforme a coordenadora, Maria Ângela Severino, a palestra trouxe uma referência brasileira para os alunos. “Normalmente estão acostumados com receitas estrangeiras e uma palavra do grupo, ainda com a oportunidade de tirar dúvidas, foi interessante”.

Em Salvador a Cerimônia Huni Kuin acontecerá no dia *19 de julho* no terreirão do sítio Imbassaí.

O Cacique Kana Bane, um dos primeiros representantes dessa rica cultura que trouxe a medicina ancestral para o Litoral Norte da Bahia, está retornando após três anos. E desta vez, ele vem acompanhado da força feminina de sua sobrinha, Tarawã, prometendo uma experiência ainda mais enriquecedora e transformadora.


*Agenda do Evento:*

- *Dia 18 de julho*: Iniciaremos com a projeção de curta-metragem estrelado pelo moradores da aldeia do Kana e Tarawã, seguida por uma roda de rapé, onde poderemos nos conectar e compartilhar experiências.

- *Dia 19 de julho*: Será o dia da cerimônia, um momento sagrado dedicado à cura e ao aprendizado das medicinas da floresta, acompanhados pelos cantos tradicionais dos Huni Kuin.

- *Dia 20 de julho*: Encerramos com as medicinas do Hampaya e do Kambo, proporcionando cura e um aprofundamento nas terapias que nos conectam às forças da natureza.

Venham participar dessa jornada de cura e autodescoberta, onde teremos a oportunidade de nos conectar com as medicinas da floresta e com os conhecimentos ancestrais. Esperamos todos vocês para celebrar e aprender juntos nesta experiência única!


Inscrições: (71) 99659-7755 - Caio 

(71) 98535-1328 - Janine

A visita dos membros da tribo Huni Kuin, do Acre, ao Estado de São Paulo pretende, além de apresentar os costumes, formar uma cartilha com receitas do povo Hunikuin em português. “Nosso trabalho é registrar a nossa história nela e distribuí-la em várias línguas. Nossos médicos e curandeiros nunca sentaram em uma cadeira de universidade, mas foram formados pela natureza”, conta. Para chegar na tribo, de acordo com Kêa Inubake, é preciso percorrer até seis dias de barco.

Apesar de a tradição sofrer readequações, Kêa explica que a essência do povo é forte. “Andar pelado e não comer comida com sal ficou no passado, mas ainda estamos vivos. Portanto, saímos da floresta para ocupar espaços na sociedade em que podemos trabalhar pela nossa história, trazendo a cantoria, batismo, medicina, língua e artesanato para que não sejam esquecidos. Queremos deixar esses ensinamentos para os universitários que um dia serão pessoas influentes”, finaliza.

A culinária e a cultura alimentar do povo Huni Kuin (também conhecidos como Kaxinawá) são profundamente enraizadas em seus conhecimentos tradicionais, sua cosmologia e no uso de elementos da floresta amazônica. Vivendo majoritariamente no estado do Acre (Brasil) e também em regiões do Peru, os Huni Kuin têm uma relação sagrada com a alimentação, que vai muito além da nutrição: ela é uma forma de conexão espiritual, social e ecológica.

Aqui estão alguns elementos-chave da culinária e cultura alimentar dos Huni Kuin.

🌿 1. Alimentos Tradicionais

•Mandioca: Base da alimentação. Usam-na para preparar beiju, mingaus, puba, chicha (bebida fermentada), caiçuma (bebida cozida) e farinha.

•Peixes: Fonte de proteína. Caçados com arco e flecha ou armadilhas tradicionais.

•Caça de animais silvestres: Como queixadas, macacos e aves. A caça é feita com profundo respeito aos seres da floresta.

Frutas nativas: Como o açaí, buriti, pupunha e bacaba, utilizadas em bebidas, doces e como acompanhamento.

Milho: Usado em mingaus, bolos e bebidas. Tem forte valor ritual.

🌱 2. Plantas medicinais e alimentos-espírito

Muitas plantas alimentícias também são medicinais e ritualísticas, como:

•Nixi Pae (ayahuasca): Chá sacramental usado em rituais espirituais e de cura.

•Rapé: Tabaco moído misturado com cinzas de cascas sagradas, usado para limpar e equilibrar o corpo.

Genipapo, urucum e outras tinturas: Usadas para pintura corporal e rituais, mas também em alimentos.

🍲 3. Práticas culinárias coletivas

A alimentação é coletiva e comunal, especialmente em rituais e festas como o Kamarãpi (ritual de purificação com ayahuasca) ou o Nukun Huni Kuin (festival da cultura Huni Kuin).

A produção de alimentos envolve divisão de tarefas entre homens e mulheres, com saberes passados oralmente.

Há jeitos específicos de preparar, fermentar e cozinhar, transmitidos pelas mulheres mais velhas, que são guardiãs do saber alimentar.

🔮 4. Espiritualidade e alimentação

Comer está ligado ao estado espiritual da pessoa. Há alimentos que "fortalecem o espírito" e outros que podem "fechar o pensamento".

Jejuns e restrições alimentares são comuns após rituais com Nixi Pae ou após passar por momentos de aprendizado espiritual.

Algumas dietas são chamadas de "dietas de força", em que a pessoa só consome certos alimentos e se isola para entrar em contato com os espíritos da floresta.

🍃 5. Sustentabilidade e cosmovisão

A agricultura dos Huni Kuin é agroflorestal, com roçados de múltiplas espécies (mandioca, milho, feijão, banana, cará...).

Há um cuidado especial com os ciclos da natureza, as estações da chuva e da seca, e os ritos de plantio e colheita.

Toda a alimentação é baseada na interdependência entre humanos e floresta, e o consumo é pautado pela necessidade e equilíbrio ecológico, nunca pelo excesso.


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