Fiz comidas para cinco ou seis, mesmo sabendo que não haveria ninguém além de mim à mesa. 

O ritual é cheio de etapas, o fogo, os cortes das carnes, os temperos, sobre o tablado aquela toalha domingueira.

Chamas acesas irradiam o calor para o churrasco, espetar a carne, a distância das brasas, a atenção, cada qual segue uma técnica, tem seu jeito, lembrei do meu pai, papel, gravetos finos, lenha mais grossa, carvão.

Atenção de agora em diante, veio a voz dele preencher o silêncio atarefado no propósito.

Das saladas resolvi uma maionese, ovos, batatas, cenoura, cheiro verde bem cortadinho. Folhas e cores emolduravam fazendo adornos.

Igualzinho a da minha mãe.

Creme sem desandar, aos temperos, igualzinho o modo da minha mãe, ficou igual, aroma, paladar, apresentação.

O pão de trigo duro, cortei em fatias grossas, untei com manteiga e azeite de oliva, levei às brasas até a torra dourada. Crocante foi o resultado.

Igualzinho o pão da minha mãe.

Arrumei a mesa com bom gosto, caprichos nos detalhes, guardanapo de pano bordado que guardei, cristais, porcelanas finas, cutelaria do melhor aço e desenho.

Bem como a minha mãe fazia.

Aos poucos os visitantes foram emergindo do meu imaginário, suas vozes, olhares, …

A mamãe, como sempre, foi a última ao acento.

Jamais esquecerei as mãozinhas dela servindo o meu prato, parecia que tudo era feito só para mim.

Então compareceram mais, meus avós, primos, tios, todos de um momento marcante da vida, aquele acontecimento onde ocorreu o despertar e que ainda permanece latente.

Do lado de fora dos muros ative-me aos acontecimentos e celebrações na vizinhança, crianças, adultos, música e funções.

Minha solidão desapareceu, fui além, um pouco mais distante e ainda mais, cheguei onde tu poderias estar.

Detive-me a refletir o quanto e como as distâncias aumentaram desde quando saímos do ventre, fora, nunca mais teremos abrigo tão seguro. É por isso que buscamos caminhos para reencontros, apertos de mão, abraços, diálogo com espíritos desarmados, reviver todas as ternuras.

Encontrei licença para invadir o vosso espaço, acolhido senti paz.

Não sei exatamente quantos foram para fazer-te homenagem, digo certo de que no teu coração aqueles do teu amor guardados, contigo hoje estão ou emergem das memórias.

Um dia seremos também só nos pensamentos, num tempo, justamente porque certa vez fomos presentes.

Bem igualzinho minha mãe.

Em júbilo comemorei as saudades fazendo o banquete, nele as homenagens também estão para você, pois compartilhamos muitos ou até mesmo poucos momentos, mas foram intensos agoras.

Hoje é dia para os infinitos.

É dia das mães 

Maio 2024

Jorge Eduardo Huyer


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