Comer de mão é divino



Por Nelson Varón Cadena

Quando Deus criou os humanos lhes deu mãos. Os animais foram desprovidos delas, os membros superiores são o que chamamos de patas, igual aos inferiores, os auxiliam no andar e correr, e não seguram objetos. 

Aos humanos lhes deu braços compridos e mãos e a seus ancestrais, os símios, igual. As mãos, os símios usam para pular de galho em galho, colher frutas, descascar bananas, catar piolhos... os símios comem com as mãos, nós comíamos também quando não existiam os talheres e as etiquetas de mesa. Alguns seres humanos, dentre os quais me incluo, preservaram o salutar hábito.

Aprendi a comer com a mão tardiamente, tinha vinte anos. Cada aprendizado no seu tempo. Aprendi, observando os moradores de Humaitá, Rondônia, e dos subúrbios de Manaus e mais tarde os nativos de Berlinque, na Ilha de Itaparica, onde residi durante cinco anos. Assimilei a prática, um dos maiores prazeres que existem__ mais do que um prazer, um momento de contração__   nada o equivale, aprimorei ao longo da vida e mantive o hábito quando passei a residir em Salvador. Como de mão em casa, quase todos os dias. Abro exceções a depender do prato: escondidinhos, lasanha, outros de forno. Não dá.

Comia antes nos restaurantes, fiz isso durante anos, contrariando as esposas e os filhos, que se envergonhavam, reclamavam, acabaram se acostumando, mas não adotaram a prática. Nenhum de meus cinco filhos e nem os netos. Infelizmente. Não sabem o que perdem. Deixei de comer de mão em público com a popularização das redes sociais. Comia sempre minha galinha ao molho pardo do Moreira, lambendo os dedos em verdadeiro estado de graça. Deixei de comer de mão no Moreira quando a turma começou a tirar fotos e postar nas redes sociais, com boas intenções, mas me parecia invasivo.

Mantive o hábito de comer com a mão em público, apenas nas festas populares. Aquela feijoada da madrugada em Itapuã; a do Bonfim, após a lavagem; a de Santo Amaro da Purificação, nas barraquinhas do Largo, não abro mão. Uso a mão. Algumas pessoas se aproximam para me relatar a lembrança de mães e avós, que comiam de mão; em Itapuã, uma moça encheu os olhos de lágrimas me contando, saudades como se comia com a mão na sua casa do interior, sertão adentro.

Para quem nunca teve esse prazer indescritível, relato o ritual: Primeiro se lava bem as mãos, é o óbvio. Em seguida joga-se farinha no prato, aos poucos, lambe-se os dedos com saliva para não se queimar, a comida está quente e, devagar, vai fazendo os bolinhos; lambe de novo, se falta farinha, acrescenta mais um pouco. Desfie com a mão a carne, ou o frango, e misture. Igual corte as batatas com a mão em pedacinhos e se tiver cenoura, a mesma coisa. Preparar os bolinhos é um ato espiritual. Exige muita concentração, é um momento de êxtase. Nada mais existe naquela hora, além da comida e do gostinho apurado na boca. 

Então você amassa o bolinho, duas, três, cinco vezes até ficar consistente e come, um a um, se a mão começar a ficar muito melada, vai limpando, lambendo os dedos, um a um. Essa parte do ritual é a mais intensa. Quando tiver comido todos os bolinhos, com paciência, sem pressa, limpa as mãos pela última vez: você lambe os dedos, um a um, e as cartilagens entre eles onde se acumula comida, uma a uma. E esse prazer não vou aqui relatar porque não tem equivalente nesse mundo de meu Deus e nessa Bahia de meus orixás e de seus ancestrais. (Nelson Cadena)

De autoria Nelson Varón Cadena é um renomado pesquisador, jornalista e escritor, nascido na Colômbia que nos anos 70 de caminho a África passou por Salvador, se apaixonou pela cidade e nunca mais foi embora hoje no Correio da Bahia  16.05.2024

Comentários

  1. Que maravilhoso relato…e pensar que poucos séculos ocidentais nos separam deste prática antropológica.
    Lembrei de Dona Marilza de Uberlândia, uma senhora artista plástica…eu nunca tinha entendido esta prática, ficou evidente pra mim o delírio de um artista neste ritual.
    Obrigado por compartilhar e desta maneira magnífica!

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