O poder afetivo das Flores de Sabugueiro

Flores de Sabugueiro inspiram a receita de Madaleine.

A fragrância das flores de sabugueiro sempre me lembrará da luz suave do verão filtrada pelas folhas verdes de um jardim em Cambridge, onde bebi pela primeira vez um cordial de flor de sabugueiro. Eu não tinha ideia de como era uma flor de sabugueiro - e nenhuma premonição de que décadas depois eu seria um entusiasta coletora dessas flores delicadas.

Qualquer amante da comida sabe o quão evocativos podem ser o sabor, a textura, mesmo simplesmente o cheiro de um prato ou bebida favorita de antigamente.

Marcel Proust escreveu um romance de sete volumes com milhares de páginas, começando com um pequeno biscoito de pão-de-ló embebido em chá que trouxe de volta a lembrança de coisas passadas. 

O livro, no qual trabalhou por mais de uma década, tornou-se um monumento da literatura ocidental, A la Recherche du Temps Perdu . 

E aquele biscoito em forma de concha, a madeleine de Proust, é agora uma metáfora universal para qualquer pista sensorial que acione a memória.

Como todos os amantes da comida, tenho minhas próprias madeleines, confessa a americana Claire Ptak, dona da loja Violet Bakery, em Londres, foi a responsável por produzir o bolo de casamento do principe Harry e a artista Meghan Markle.

Na receita, o bolo leva xarope de flor de sabugueiro feito na própria residência da rainha na região de Sandringham, na Inglaterra. Já o recheio é feito de limões de Amalfi e creme de manteiga de sabugueiro.

O termo “sabugueiro” refere-se às variedades pertencentes ao gênero Sambucus. O tipo mais comum é o Sambucus nigra, também conhecido como sabugueiro-europeu ou ancião-negro. Apesar de ser nativo da Europa, o sabugueiro é amplamente cultivado em várias partes do mundo, incluindo no Brasil. Ele cresce até nove metros de altura e tem cachos de flores pequenas, que nascem nas cores branca e creme.

O fruto é encontrado nas cores preta e azul-escuro, e também cresce em cachos.

A fruta do sabugueiro é bastante azeda e precisa ser cozida para o consumo. As flores têm um aroma delicado e podem ser consumidas nos formatos cru e cozido.

Na América Colonial, o sabugueiro era apelidado de “o armário dos remédios”, por causa dos seus múltiplos usos.

De facto, a ampla utilização de extratos de sabugueiro para fins medicinais, culinários e cosméticos, era já conhecida dos povos pré-históricos e muito popular entre os gregos e romanos, sendo por isso aquela espécie tida desde então como guardiã da saúde.

A planta é ligeiramente tóxica nas folhas, casca fresca, frutos verdes. Os frutos maduros (comestíveis) e as flores podem ser usados. As bagas devem ser ingeridas preferencialmente secas e com moderação.

Na medicina tradicional, o sabugueiro é uma das plantas medicinais mais utilizadas: é usada para baixar o ácido úrico, reduzir a ocorrência de cálculos renais e eliminar toxinas em geral, sendo considerado um excelente depurador do sangue. Atua em casos de febre de origem desconhecida e fomenta a formação de urina e suor, mas também a de leite em jovens mães (pelo óleo essencial). É também usado no combate a gripes, rouquidão, tosse, espirros, catarros do peito e brônquios, dores dos molares, nevralgias, dores de ouvidos e de cabeça e inflamação da laringe e garganta. Vários estudos demonstram que estas melhoram a função imunológica dos indivíduos.

Em Portugal, esta cultura era considerada pelos monges de Cister (séculos XII a XVIII) e pela população em geral, um produto de excelência para fins culinários e terapêuticos, tendo-se perpetuado estes usos e costumes até aos nossos dias.

O Marquês de Pombal proibiu o cultivo de sabugueiro na tentativa de acabar com as adulterações ao vinho do Porto, na primeira metade do século XVIII, o que resultou quase na erradicação da espécie.

Na medicina tradicional, a flor de sabugueiro era ainda sugerida como remédio para a diabetes (e de facto, estudos recentes in vitro demonstram que as flores do sabugueiro contêm substâncias capazes de estimular o metabolismo da glicose). 

Também é um excelente laxante, diurético e sudorífero. As folhas esmagadas podem ser aplicadas nos casos de queimaduras, retirando rapidamente a dor.



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