ENTRE O HIP-HOP E A CULINÁRIA: IDENTIDADE EM MOVIMENTO

Neste ponto, nem a língua, muito menos a cor da pele, foram barreiras. Pelo contrário: viraram pontes.

Nos dois dias em que estive apresentando meu trabalho no La Friche, encontrei gente de muitos países. Todos lutando juntos por um objetivo maior. 
Me aproximei de muitos jovens — gente linda, cheia de energia, dando o seu melhor. 
Trocávamos, aprendíamos juntos, como quem inventa uma nova língua: híbrida, confusa, mas cheia de cores e tensões. Às vezes, o portal de acesso a essa babilônia era um simples sorriso, um olhar, uma dancinha gratuita. 
Era suficiente para compreender uma lógica desterritorializada, um jeito de existir sem fronteiras.

Merece reparo a autoestima dos jovens negros nascidos na França.
Filhos de imigrantes africanos, vivem o dilema de se sentir estrangeiros no próprio país. 
Apesar disso — e talvez por isso — cultivam um modo próprio de se afirmar. 
São animados, dançam no compasso do hip-hop e ocupam todos os cantos da cidade — deslizando em suas trottinettes électriques, nos skates, ou, mais formalmente, nas planches à roulettes.
É uma batida que pulsa nas ruas: ao mesmo tempo global e profundamente enraizada na diáspora.

Entre eles, as mulheres negras revelam uma presença ainda mais marcante. Com beleza e firmeza, carregam no corpo uma estética que não se curva aos padrões hegemônicos. 
Seus cabelos crespos, suas peles, suas formas, não apenas embelezam o espaço, mas o reconfiguram. Tornam-se símbolos de resistência cotidiana.

E assim como no corpo, o alimento também é território de afirmação. 
Há um orgulho imenso pela comida de sua gente — orgulho que não se negocia.
Cada prato é memória das mães e avós, é ligação com a terra dos pais e com histórias que atravessaram o mar.

O cuscuz marroquino, o mafé senegalês, as especiarias do Magrebe, os temperos do Sahel, o Thieboudien que eu já conhecia e voltei a provar — todos trazem consigo não apenas sabores, mas um modo de existir. Comer junto, partilhar, temperar com a mão, são gestos que transformam a mesa em lugar de resistência e reconhecimento.

Na França, onde tantas vezes se tenta impor a homogeneidade cultural, esses alimentos afirmam a pluralidade.
São a prova viva de que a memória não se apaga e de que a cozinha pode ser um território político.

E talvez seja por isso que Marseille me toque e atraiu tanto.
Aqui, tudo parece respirar transgressão — da língua às paredes pintadas de grafite, do cheiro de especiarias ao som das músicas que se misturam nos becos.
Marseille não se curva às regras, às convenções, nem à formalidade francesa.
É um porto aberto, onde cada prato, cada rosto e cada dança contam histórias de partidas e chegadas.

Para esses jovens, cozinhar e comer sua comida é tão político quanto dançar ou ocupar as ruas. É dizer: “nossas raízes estão vivas, nossa história está presente, nossa cultura se reinventa”.

Nos marroquinos, essa energia parece ainda mais evidente: há uma certa empáfia no olhar, na voz, na forma de ocupar o espaço. 
Uma empáfia que não é arrogância, mas sim resistência. É como se dissessem: “estamos aqui, fazemos parte, não seremos invisíveis”.

E há também um orgulho imenso pela comida de sua gente. Orgulho que não se negocia, que guarda raízes, que dá chão. No prato, eles reafirmam sua história, suas famílias, seus territórios de origem. É pela comida, pela música, pelo corpo em movimento que afirmam sua identidade e inscrevem sua presença na França.

São jovens da diáspora, atravessados por memórias que não viveram diretamente, mas que carregam nos gestos, nas vozes, nos sabores. Entre a herança africana e a experiência francesa, inventam um novo modo de existir, vibrante e contraditório.


Ademan...




Ces jours intenses et de travail collectif m’ont révélé la force du sens naturel de la collaboration humaine.
À ce moment-là, ni la langue, ni la couleur de la peau n’étaient des barrières. Au contraire : elles devenaient des ponts.

Pendant les deux jours où j’ai présenté mon travail à La Friche, j’ai rencontré des gens venus de nombreux pays. Tous luttaient ensemble pour un objectif plus grand.
Je me suis rapproché de beaucoup de jeunes — des personnes magnifiques, pleines d’énergie, donnant le meilleur d’eux-mêmes.
Nous échangions, nous apprenions ensemble, comme si nous inventions une nouvelle langue : hybride, confuse, mais pleine de couleurs et de tensions. Parfois, le portail d’accès à cette Babylone n’était qu’un simple sourire, un regard, une petite danse gratuite.
C’était suffisant pour comprendre une logique déterritorialisée, une manière d’exister sans frontières.

L’estime de soi des jeunes noirs nés en France mérite attention.
Enfants d’immigrés africains, ils vivent le dilemme de se sentir étrangers dans leur propre pays.
Pourtant — et peut-être à cause de cela — ils cultivent une manière singulière de s’affirmer.
Ils sont animés, dansent au rythme du hip-hop et occupent tous les coins de la ville — glissant sur leurs trottinettes électriques, leurs skates, ou plus formellement sur leurs planches à roulettes.
C’est un battement qui pulse dans les rues : à la fois global et profondément enraciné dans la diaspora.

Parmi eux, les femmes noires révèlent une présence encore plus marquante. Avec beauté et fermeté, elles portent dans leur corps une esthétique qui ne se plie pas aux normes hégémoniques.
Leurs cheveux crépus, leurs peaux, leurs formes, non seulement embellissent l’espace, mais le reconfigurent. Elles deviennent des symboles de résistance quotidienne.

Et tout comme dans le corps, l’alimentation est aussi un territoire d’affirmation.
Il y a une immense fierté pour la cuisine de leur peuple — une fierté qui ne se négocie pas.
Chaque plat est mémoire des mères et des grands-mères, lien avec la terre des parents et avec des histoires qui ont traversé la mer.

Le couscous marocain, le mafé sénégalais, les épices du Maghreb, les assaisonnements du Sahel, le Thieboudiene que je connaissais déjà et que j’ai goûté à nouveau — tous apportent avec eux non seulement des saveurs, mais une manière d’exister.
Manger ensemble, partager, assaisonner avec la main, sont des gestes qui transforment la table en lieu de résistance et de reconnaissance.

En France, où l’on tente si souvent d’imposer l’homogénéité culturelle, ces aliments affirment la pluralité.
Ils sont la preuve vivante que la mémoire ne s’efface pas et que la cuisine peut être un territoire politique.

Et c’est peut-être pour cela que Marseille me touche tant.
Ici, tout semble respirer la transgression — de la langue aux murs couverts de graffitis, de l’odeur des épices aux sons des musiques qui se mélangent dans les ruelles.
Marseille ne se plie pas aux règles, aux conventions, ni à la formalité française.
C’est un port ouvert, où chaque plat, chaque visage et chaque danse racontent des histoires de départs et d’arrivées.

Pour ces jeunes, cuisiner et manger leur nourriture est aussi politique que danser ou occuper les rues. C’est dire : « nos racines sont vivantes, notre histoire est présente, notre culture se réinvente ».



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