ENTRE DUAS SEREIAS: LA BELLE DE MAI E LA BELLE DE MAR
Escrevo sobre Ulisses porque nele encontro a metáfora do errante: aquele que nunca se contenta com um destino único e que traz no corpo a sede de todos os mundos.
Escrevo sobre La Belle de Mai, em Marseille, porque ali descobri que a vida pulsa entre mercados de migração, onde a comida se ergue como manifesto e a cultura como ato de revolta.
Escrevo sobre La Belle de Mar, a Bahia, porque nela o mar é canto, as folhas são coroas e a cozinha se revela como ritual de resistência e de memória.
Entre essas duas sereias — uma de pedra e fumaça, outra de sal e dendê — reconheço o meu próprio lugar.
Pois, para mim, apaixonado pela vida e pela cultura, são as dúvidas que abrem os caminhos.
Mais importantes que as certezas, elas sopram como ventos: inquietos, contraditórios, mas sempre cheios de sentido.
Assim, Ulisses deixa de ser apenas um mito distante.
Torna-se também reflexo de quem navega entre Marseille e Bahia, entre perguntas que não pedem resposta, mas permanência.
Prólogo – O Errante
Ulisses não voltava mais para Ítaca.
Os deuses haviam se cansado de sua astúcia, e ele se cansara dos deuses.
Seu barco, feito de memórias e cansaço, navegava sem rumo entre mares.
Foi então que ouviu duas vozes. Não eram ecos de Homero, mas cantos novos, vindos de lugares que ainda não existiam em seu mapa: Marseille e a Bahia.
Capítulo I – A Sereia de Pedra e Fumaça
No coração de La Belle de Mai, antiga terra de fábricas e sonhos, surgiu a primeira sereia.
Sua voz misturava árabe e francês, rap e reza.
Ela tinha nos dedos o pó das especiarias que cruzaram desertos, e no ventre o peso dos navios que trouxeram homens e mulheres da África.
Cantava de uma janela estreita, entre roupas estendidas e antenas enferrujadas.
Seu canto não prometia descanso, mas revolta.
O couscous que servia não era só alimento: era bandeira, era manifesto de quem cozinha para não desaparecer.
Capítulo II – A Sereia de Sal e Dendê
Do outro lado do Atlântico, o vento quente trouxe a segunda voz.
Era a Belle de Mar, nascida nas marés da Bahia.
Ela vinha coberta de dendê e conchas, coroada com folhas de terreiro.
Sua voz tinha o som dos atabaques, a risada das marisqueiras, o grito dos quilombos.
Cada palavra que dizia era uma oferenda.
Cada prato que servia era também feitiço.
Feijão-fradinho, camarão seco, farinha e azeite: a cozinha como território de luta, arma contra esquecimento.
Capítulo III – O Banquete da Travessia
Ulisses, dividido entre as duas sereias, percebeu que não havia volta.
Ítaca não o esperava mais — sua pátria agora estava entre Marseille e Bahia.
As sereias o convidaram a um banquete impossível:
– Na mesa, couscous se encontrava com o Kukussi.
– O vinho da Provença se derramava junto à cachaça de alambique.
– O rap de La Belle de Mai rimava com o samba de roda de Santo Amaro.
Nesse banquete, Ulisses descobriu que a comida não era só prazer: era também memória, rebeldia e reinvenção.
Capítulo IV – A Sedução da Desobediência
As sereias não o devoraram.
Ao contrário, ensinaram-lhe que a verdadeira sedução não é a do corpo, mas a da desobediência.
Seduzir é cozinhar contra o esquecimento.
É dançar contra o silêncio.
É existir como quem grita, com a boca cheia de pimenta e poesia.
Ulisses deixou de ser apenas herói.
Tornou-se cozinheiro, griot, errante das culturas.
Sua nau agora navegava entre mercados, terreiros e praças.
E cada vez que alguém provava do seu prato, nascia também um pedaço de Ítaca — não como retorno, mas como reinvenção.
Epílogo – Entre Marseille e Bahia
Ulisses nunca voltou.
E ninguém mais esperou que voltasse.
Porque seu destino era estar entre:
Entre Marseille e Bahia, entre La Belle de Mai e La Belle de Mar,
entre a sedução e a comida, entre o mito e a política.
E assim ficou escrito:
o mar não é fronteira, mas ponte.
E a cozinha, quando cantada pelas sereias, é sempre revolução.
Cidades-Irmãs
Marseille e Bahia são, para mim, cidades-irmãs. Ambas nasceram voltadas para o mar, abertas ao mundo e marcadas pelas chegadas e partidas que moldaram seus povos.
Em Marseille, os mercados cheiram a especiarias vindas da África, o rap ecoa como grito de juventude migrante e a comida é uma bandeira erguida contra o esquecimento.
Na Bahia, o dendê tinge a panela de ouro, os terreiros preservam o sagrado e os quilombos reafirmam a memória de resistência.
Se uma fala com sotaque árabe e mediterrâneo, a outra responde com batuques e folhas sagradas.
Entre elas, o oceano não separa: aproxima.
ENTRE DEUX SIRÈNES : LA BELLE DE MAI ET LA BELLE DE MAR
Prologue – L’Errant
Ulysse ne retourna jamais à Ithaque.
Les dieux s’étaient lassés de son astuce, et lui s’était lassé des dieux.
Son navire, fait de mémoire et de fatigue, errait sans cap entre les mers.
C’est alors qu’il entendit deux voix.
Ce n’étaient pas des échos d’Homère, mais des chants nouveaux, venus de lieux absents de ses cartes : Marseille et la Bahia.
Chapitre I – La Sirène de Pierre et de Fumée
Au cœur de La Belle de Mai, ancienne terre d’usines et de rêves, apparut la première sirène.
Sa voix mêlait l’arabe et le français, le rap et la prière.
Elle portait sur ses doigts la poussière des épices venues du désert, et dans son ventre le poids des navires chargés d’hommes et de femmes venus d’Afrique.
Elle chantait depuis une fenêtre étroite, entre les linges suspendus et les antennes rouillées.
Son chant ne promettait pas le repos, mais la révolte.
Le couscous qu’elle servait n’était pas seulement nourriture : il était drapeau, il était manifeste de ceux qui cuisinent pour ne pas disparaître.
Chapitre II – La Sirène de Sel et de Dendê
De l’autre côté de l’Atlantique, le vent chaud apporta la deuxième voix.
C’était la Belle de Mar, née des marées de Bahia.
Elle venait couverte de dendê et de coquillages, couronnée de feuilles sacrées.
Sa voix avait le rythme des tambours, le rire des femmes de la mer, le cri des quilombos.
Chaque mot qu’elle prononçait était offrande.
Chaque plat qu’elle servait était aussi sortilège.
Pois-fradinho, crevettes séchées, farine et huile rouge : la cuisine comme territoire de lutte, arme contre l’oubli.
Chapitre III – Le Banquet de la Traversée
Ulysse, partagé entre les deux sirènes, comprit qu’il n’y avait plus de retour.
Ithaque ne l’attendait plus — sa patrie désormais se trouvait entre Marseille et Bahia.
Les sirènes l’invitèrent à un banquet impossible :
– Sur la table, le couscous rencontrait Kukussi.
– Le vin de Provence se mêlait à la cachaça des alambics.
– Le rap de La Belle de Mai rima avec le samba de roda de Santo Amaro.
À ce banquet, Ulysse découvrit que la nourriture n’était pas seulement plaisir : elle était aussi mémoire, révolte et réinvention.
Chapitre IV – La Séduction de la Désobéissance
Les sirènes ne le dévorèrent pas.
Au contraire, elles lui enseignèrent que la véritable séduction n’est pas celle du corps, mais celle de la désobéissance.
Séduire, c’est cuisiner contre l’oubli.
C’est danser contre le silence.
C’est exister comme on crie, la bouche pleine de piment et de poésie.
Ulysse cessa d’être seulement héros.
Il devint cuisinier, griot, errant des cultures.
Son navire désormais voguait entre marchés, terreiros et places.
Et chaque fois que quelqu’un goûtait à son plat, naissait un fragment d’Ithaque — non comme retour, mais comme réinvention.
Villes Sœurs
Marseille et Bahia sont, pour moi, des villes sœurs. Toutes deux sont nées tournées vers la mer, ouvertes au monde et marquées par les arrivées et les départs qui ont façonné leurs peuples.
À Marseille, les marchés portent l’odeur des épices venues d’Afrique, le rap résonne comme le cri d’une jeunesse migrante et la nourriture se dresse comme un drapeau contre l’oubli.
En Bahia, le dendê colore la marmite d’or, les terreiros préservent le sacré et les quilombos affirment la mémoire de la résistance.
Si l’une parle avec un accent arabe et méditerranéen, l’autre répond par les tambours et les feuilles sacrées.
Entre elles, l’océan ne sépare pas : il rapproche.
Introdução

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