QUANTOS SEGREDOS SE ESCONDEM POR DENTRO DE UM ABARÁ?
Essa embalagem esta cheia de história e ciência, alimento votivo servida ao orixá É alimento votivo de Iansã, Oxossi, Obá e Ibêji, iguaria muito apreciada da culinária tradicional baiana.A Arte da Dobragem e o Uso das Folhas na Culinária Afro-Diaspórica
"Vem minha Berê / sou teu Abará / se faltar dendê / eu te dou dandá."
Um pequeno estrofe da musica da Flávia Bittencourt, já nos da a dimensão deste delicioso alimento para a cultura baiana.
A Dobragem e Seus Significados
A dobradura de folhas e tecidos é uma prática ancestral que carrega significados simbólicos em diferentes culturas. No Oriente, o origami, arte japonesa de dobrar papel, tem raízes na tradição budista e foi disseminado pelo mundo. Já na África, a dobradura de tecidos foi influenciada pela estética muçulmana e pelos colonizadores europeus, como no caso do Alaká, pano da costa usado por mulheres baianas e produzido por tecelãs do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.
A dobragem não está apenas nos tecidos e papéis, mas também nas folhas utilizadas na culinária. Essa técnica aparece de forma marcante na cozinha afro-diaspórica, especialmente no uso das folhas de bananeira para envolver alimentos.
Uma Culinária Envolta em Folhas de Bananeira
O ato de cozinhar alimentos em envoltórios naturais é uma prática presente em várias culturas ao redor do mundo. As folhas de bananeira, amplamente utilizadas em países tropicais, possuem propriedades únicas: são impermeáveis, resistentes, flexíveis e conferem um sabor sutil aos alimentos cozidos ou assados dentro delas.
Na Bahia, a folha de bananeira está presente em diversas receitas tradicionais da culinária afro-baiana, como:
•Abará: bolinho de feijão fradinho cozido no vapor dentro da folha.
•Acaçá: mingau de milho branco, envolto na folha e cozido.
•Moqueca de Folha: prato comum no Recôncavo Baiano, feito com pequenos peixes como manjuba ou pitinga, cozidos diretamente na folha.
•Cuscuz Molhado: versão baiana do cuscuz, servido úmido e regado com leite de coco.
•Bolo de Puba: preparado com massa fermentada de mandioca e assado dentro da folha.
Além dessas, outras preparações menos comuns, mas igualmente importantes, incluem o Abarém e variações regionais do cuscuz e pamonha, que, em tempos recentes, começaram a ganhar espaço em restaurantes graças ao resgate promovido por chefs e pesquisadores da culinaria tradicional.
A importância das folhas de bananeira na cultura alimentar é tamanha que sua substituição por materiais industriais, como o papel alumínio, gerou resistência e debates, especialmente entre as baianas de acarajé.
As Conexões entre Bahia, África e as Culturas Islâmicas
A influência da África Ocidental na culinária baiana é profunda, especialmente dos povos Iorubá, Hausa, Ashanti e Fon, que trouxeram não apenas técnicas culinárias, mas também cosmologias e rituais sagrados associados ao alimento.
Antes da islamização da África Ocidental, impérios como Gana, Mali e Songai já possuíam sistemas de organização complexos. Com a chegada do Islã, algumas práticas foram modificadas ou incorporadas, influenciando inclusive a alimentação e o vestuário.
Na Bahia, essa conexão é visível na comida ritual do Candomblé, onde pratos como o acarajé e o abará possuem significados sagrados. O pano da costa (Alaká) e o turbante (Òjá) também são elementos que carregam simbologias profundas, diferenciando cargos dentro do terreiro e marcando identidades étnicas.
O Abará provem da culinária da Nigéria (ou África Ocidental, de fato) foram as preparações feitas com Folhas de Bananeira, outras folhas como as de Mamona e é as folhas largas chamada Eéran ovelha na Nigéria, (outra variedade é conhecida como a ovelha gbodogi).
Estas folhas são usadas para envolver todas as formas de alimento para fumegante.
O mais popular é moin moin, eko, jogi, ekuru, ofada arroz. As folhas também são usadas para embrulhar e servir (especialmente nas áreas de Nigéria Ondo e Ekiti).
O Moi Moi e as Conexões com o Abará
O Moi Moi, conhecido também como Feijão Koki em Camarões, é um bolo de feijão africano muito similar ao Abará baiano.
No Candomblé Brasileiro, a palavra moi moi aparece expressa em um dos cânticos sacros em homenagem ao Orixá Obaluaiê, que através de gestuais da dança sagrada, leva as mãos à boca como se acaba-se de degustar uma iguaria por ele muito apreciada. Contudo, não sabemos se trata-se de uma referência ao abará.
Muitas das chamadas comidas de santo, são na verdade comidas do cotidiano da África antiga, muitas delas adaptadas a nova realidade do Novo Mundo, e outras acrescidas (de origem indígena, europeia, ou genuinamente brasileira), e tal como ocorria na África, foram igualmente compartilhadas com as divindades.
Sua preparação é minuciosa e envolve:
1. Imersão, descamação e moagem do feijão fradinho.
2. Mistura com especiarias, incluindo pimenta e azeite de dendê.
3. Modelagem da massa e embrulho em folhas de banana.
4. Cozimento cuidadoso em banho-maria.
O Moi Moi pode ser feito com variações de milho, soja ou feijão branco e faz parte da culinária do Oeste Africano, sendo consumido com carboidratos saudáveis como o Koki de milho, que lembra a polenta, ou mandioca.
A tradição de comer esses pratos usando os três primeiros dedos da mão direita reforça o caráter comunitário e ancestral da alimentação, evidenciando a continuidade de práticas culturais através do tempo e das diásporas.
A dobradura, seja em folhas, tecidos ou papéis, é mais do que uma simples técnica: ela carrega histórias, rituais e saberes ancestrais. O uso das folhas de bananeira na culinária afro-baiana e africana não é apenas uma escolha prática, mas um elo com tradições que atravessaram oceanos e continuam vivas.
O que comemos e como preparamos nossos alimentos não são meros hábitos, mas narrativas culturais que resistem e se reinventam, reafirmando identidades e fortalecendo laços com o passado.


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