Abé-Dua, Dendê, Guinéus de Ouro: Guerra do Tráfico, Ciência e Bio-Pirataria no Caribe, de Lamparelli
A pesquisa sobre o dendê nos atira a costados inimagináveis; compartilho aqui um pouco do imaginável que nos últimos dias vinha arrebatando meus pensamentos e imaginação histórica.
Lá no Medium meu @ é "lamparelli", página na qual pretendo publicar sem qualquer regularidade ou rigor. A quem cativar o título: deixarei um link na Bio para a página.
O texto Abé-Dua, Dendê, Guinéus de Ouro: Guerra do Tráfico, Ciência e Bio-Pirataria no Caribe, de Lamparelli, é um ensaio denso e ricamente contextualizado sobre a relação entre biopirataria, colonialismo e os sistemas de conhecimento afro-diaspóricos no Caribe. O autor articula a história do dendê e outras plantas de poder com a exploração colonial, a diáspora africana e os interesses econômicos contemporâneos.
Análise descritiva
O ensaio apresenta uma abordagem que combina história, política, ecologia e epistemologia. Ele começa destacando a importância do dendê (Elaeis guineensis) não apenas como um elemento central das economias coloniais e neocoloniais, mas como parte fundamental da cosmologia afro-diaspórica, especialmente no contexto religioso e alimentar. O autor aponta como o dendê e outras espécies botânicas foram transladadas e apropriadas ao longo do processo de tráfico de escravizados, servindo como um elo entre África e América.
Além do viés histórico, o texto mergulha em discussões sobre biopirataria e colonialismo científico, mostrando como empresas e instituições acadêmicas continuam a explorar o conhecimento tradicional das comunidades negras e indígenas, apropriando-se de suas práticas e transformando-as em patentes lucrativas sem qualquer tipo de retorno para as populações originárias. Há uma crítica explícita à forma como a ciência ocidental descontextualiza saberes ancestrais e os transforma em commodities.
Outro ponto forte do ensaio é a intersecção entre guerra e economia no tráfico de plantas e conhecimentos. O autor sugere que, ao longo da história, a busca por certas espécies vegetais esteve diretamente ligada a disputas territoriais e conflitos geopolíticos, reiterando que a dominação sobre a biodiversidade sempre andou lado a lado com a dominação sobre os corpos e saberes dos povos afro-diaspóricos.
O estilo do texto é envolvente e evocativo, utilizando imagens potentes e uma escrita poética que resgata memórias e sensibilidades ligadas ao dendê e ao seu significado cultural. Ao mesmo tempo, há um rigor conceitual que fundamenta as argumentações, tornando o ensaio um texto tanto reflexivo quanto combativo.
Este ensaio se destaca pela sua abordagem interdisciplinar e pelo compromisso em denunciar os processos contínuos de espoliação dos saberes tradicionais. Ao conectar botânica, história, resistência e espiritualidade, o texto resgata o dendê como um símbolo da luta contra o colonialismo, tanto no passado quanto no presente.



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