A PERDA DE IDENTIDADE ALIMENTAR E A INFLUÊNCIA DO NEOLIBERALISMO
O modelo neoliberal vigente, especialmente em países de orientação conservadora, tem impactado profundamente a alimentação e a cultura alimentar.
Fiquei intrigado ao ler a matéria OS ITALIANOS ESTÃO CANSADOS DA COMIDA ITALIANA? O MERCADO DIZ ISSO, que publiquei em minha página, e resolvi aprofundar o tema, visto que encontrei semelhanças com o que venho acompanhando a algum tempo no Brasil e principalmente na Bahia.
Ao priorizar a eficiência e o lucro acima das tradições e ritmos locais, esse sistema acelera a padronização da comida, distanciando-a de suas raízes culturais e comunitárias. Esse fenômeno pode ser observado na Itália, onde a cozinha italiana, historicamente um marco da gastronomia mundial, enfrenta um processo de perda de identidade.
Ao mesmo tempo, no Brasil, a precarização do trabalho influencia diretamente a relação da população com a comida, gerando novas dinâmicas de consumo e produção.
Três aspectos centrais dessa discussão são fundamentais para entender esse processo: o discurso do precariado como empresário, a fetichização da cozinha raiz sem compromisso social e a necessidade de políticas públicas para empoderar as Mestras dos Saberes Culinários.
1. O Discurso do Precariado como Empresário
O neoliberalismo propagou a ideia de que todos podem ser empreendedores, transformando a precarização do trabalho em um projeto individual de ascensão. No entanto, essa narrativa mascara uma realidade em que muitos trabalhadores, especialmente aqueles ligados à alimentação, vivem em condições de insegurança financeira e sem direitos básicos. Cozinheiros autônomos, entregadores de aplicativo e vendedores de comida de rua são apresentados como pequenos empresários, mas, na prática, enfrentam longas jornadas, instabilidade econômica e a pressão de um mercado que prioriza velocidade e volume de vendas em detrimento da qualidade e do vínculo com as tradições culinárias.
Essa ilusão da autonomia reflete diretamente no consumo alimentar: sem tempo para cozinhar e sem condições de acessar ingredientes de qualidade, muitos recorrem à comida rápida, ultraprocessada e padronizada. Ao mesmo tempo, essa mentalidade empreendedora individualista enfraquece redes comunitárias de suporte e perpetua um ciclo de exploração disfarçado de "oportunidade".
2. A Fetichização da Cozinha Raiz sem Compromisso Social
Outro impacto do neoliberalismo sobre a alimentação é a transformação da cozinha tradicional em um produto de luxo ou em uma tendência gourmetizada, enquanto aqueles que detêm esse saber permanecem à margem do benefício econômico gerado por essa valorização comercial.
No Brasil, a cozinha popular, que sempre foi coletiva e comunitária, é frequentemente apropriada pelo mercado sem compromisso com suas origens. Restaurantes de alta gastronomia utilizam técnicas e ingredientes da culinária tradicional sem reverter ganhos para as comunidades que os criaram. Há também um discurso de "modéstia" que romantiza a simplicidade da cozinha raiz, mas sem proporcionar condições dignas para quem a pratica no dia a dia.
O resultado é que pratos populares se tornam artigos elitizados, desconectados de suas funções sociais e comunitárias. Essa dinâmica afasta as novas gerações do aprendizado direto com as Mestras dos Saberes Culinários e reforça a substituição da cozinha tradicional por versões industrializadas e globais.
3. A Necessidade de Políticas Públicas para Empoderar as Mestras dos Saberes Culinários
Diante desse cenário, é essencial que existam políticas públicas que reconheçam e fortaleçam as guardiãs do conhecimento alimentar tradicional. Sem apoio estrutural, essas mulheres, que carregam séculos de saberes sobre ingredientes locais, técnicas ancestrais e formas sustentáveis de produção e consumo, correm o risco de ter seus conhecimentos apagados ou apropriados pelo mercado sem reconhecimento devido.
A Cozinha de Investigação surge como uma alternativa para estruturar e fortalecer essa transmissão de conhecimento. Espaços como esse podem funcionar como centros de formação, documentação e experimentação da culinária tradicional, garantindo que as Mestras dos Saberes Culinários tenham condições de continuar suas práticas e transmiti-las às novas gerações.
Além disso, é fundamental que iniciativas governamentais e privadas ofereçam suporte financeiro e logístico para feiras, encontros e formações que valorizem o papel dessas mulheres como agentes culturais. Somente com estratégias de fortalecimento concreto é possível evitar que a cozinha tradicional seja reduzida a um nicho de mercado, desconectado de suas bases sociais.
A perda da identidade alimentar, tanto na Itália quanto no Brasil, é um fenômeno que reflete as dinâmicas neoliberais de mercantilização da cultura e do trabalho. O discurso do precariado como empresário, a fetichização da cozinha raiz sem compromisso social e a ausência de políticas públicas efetivas são elementos que contribuem para esse processo de apagamento. No entanto, há caminhos de resistência possíveis.
A valorização real das Mestras dos Saberes Culinários, aliada a iniciativas como a Cozinha de Investigação, pode ser um passo importante para garantir que a alimentação continue sendo um elo entre o passado e o futuro, mantendo vivas as tradições e fortalecendo a soberania alimentar das comunidades.



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