POR GOSTO, NÃO POR FOME: NOVOS SUBSÍDIOS SOBRE A OBRA "EDIBLE WILD PLANTS OF THE PRAIRIE" DE KELLY KINDSCHER, RESGATA OS SABERES TRADICIONAIS NA ALIMENTAÇÃO
Ele explora as plantas nativas comestíveis das pradarias da América do Norte, mas com um foco renovado no conhecimento indígena e em uma abordagem mais respeitosa às culturas que utilizam essas plantas há milhares de anos.
Na nova edição, Kindscher fez mudanças sutis, mas significativas, com caráter mais humanista para destacar melhor os povos indígenas, incluindo nomes de plantas em línguas originárias e ajustando a linguagem para refletir uma visão mais inclusiva.
Além disso, ele revisou a narrativa sobre o uso das plantas, rejeitando a ideia de que eram consumidas apenas por necessidade e enfatizando que muitas eram apreciadas e escolhidas intencionalmente.
Outra mudança interessante é que Kindscher agora incentiva mais a coleta sustentável dessas plantas, em vez de desencorajá-la, sugerindo um equilíbrio ecológico baseado no princípio de “pegue um pouco, deixe um pouco.”
Esse livro pode trazer insights valiosas.
Além disso, a mudança dele em relação à ideia de “mentalidade de fome” – reconhecendo que muitas dessas plantas eram escolhidas por gosto, e não só por necessidade – pode dialogar com sua crítica à elitização da comida e à perda das tradições alimentares coletivas.
Essa mudança de perspectiva – de uma alimentação por necessidade para uma alimentação por gosto – é fundamental para desfazer a narrativa de escassez que muitas vezes acompanha os saberes tradicionais. A ideia de que certas plantas só eram consumidas porque não havia outra opção reforça um olhar colonial e reducionista sobre as práticas alimentares dos povos indígenas e quilombolas.
Quando Kindscher rejeita a “mentalidade de fome”, ele reconhece que essas plantas eram valorizadas não apenas como um meio de sobrevivência, mas também por seu sabor, propriedades nutricionais e até mesmo por seus significados culturais e espirituais. Isso ressignifica a relação dessas comunidades com o alimento, colocando-as como agentes do próprio conhecimento, e não como meros sobreviventes de um ambiente hostil.
No seu trabalho, essa abordagem pode ser uma ferramenta poderosa para desconstruir a visão de que a culinária tradicional é “comida de pobre” ou de um passado de privação. Ao contrário, mostra que essas escolhas são pautadas por um saber sofisticado, por paladares apurados e por uma relação profunda com o território.
A valorização das plantas alimentícias tradicionais passa por reconhecer que elas sempre foram escolhidas por gosto, conhecimento e cultura – e não apenas por necessidade.
"Quando compreendemos que os saberes alimentares tradicionais não surgem da escassez, mas do apreço, da experimentação e da conexão com o território, desfazemos a narrativa de privação imposta a esses alimentos. Comer por gosto é também um ato de resistência e de memória."
📖 Edible Wild Plants of the Prairie: An Ethnobotanical Guide – Kelly Kindscher
Disponível para venda pelo Kansas Land Trust.




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