Pequeno Dicionario Da Cozinha Baiana
Verbete-P Pirão de Leite
O termo "pirão" procede do termo tupi mindipi'rõ, que significa "ensopado" ou seja farinha de mandioca escaldada com alguma parte liquida, leite, água ou caldo quente de verduras legumes ou mariscos e peixes.
No Brasil, o pirão pode ser preparado com diferentes tipos de caldos.
O pirão mais comum é feito com a mistura da farinha de mandioca com a água em que foram cozidos peixes, formando uma papa viscosa que é comida como acompanhamento do prato principal.
Em Angola da-se o nome de Funge, confeccionado com farinha de milho ou de mandioca.
A farinha é cozida e mexida com muita frequência e de forma enérgica , para que se obtenha a consistência certa.
A variante feita com milho adquire uma tonalidade amarela, enquanto que a confeccionada com mandioca apresenta uma cor acinzentada, com laivos de castanho.
A consistência final assemelha-se, de certa forma, a uma cola, dado o seu carácter pegajoso, e normalmente usado como acompanhamento da Moamba de Galinha.
O Pirão de Leite é um acompanhamento da Carne do Sol em muitas cidades do Sertão, talvez numa necessidade de compensação alimentar, o Pirão de Leite, compreende um alimento super proteico e energético, rico em vitaminas, proteinase carboidrato, para fazer frente à uma alimentação pobre e pobre em nutrientes.
Durante o período colonial 1500-1822), o cultivo da Mandioca, foi incentivado até por decreto régio.
Senhores de engenho eram obrigados a plantá-la, em quantidades proporcionais ao número de escravos - tanto que se tornaria símbolo de riqueza, usada para avaliar a fortuna pessoal dos proprietários de terra.
A pobreza e a carência alimentar no Brasil datam de muito tempo, desde a concepção de colônia de exploração, e do sistema senhorial constituído; período este que data desde 1500, quando os povos indígenas foram expulsos de seus territórios onde residiam, no litoral, todos os recursos naturais e plantações de onde tiravam a sua sobrevivência, na vigência do sistema colonial.
Foram expulsos para o interior do país, regiões onde havia seca, terras inférteis, como foi o caso especificamente da Bahia, onde muitos passavam fome.
Começa a desagregação familiar, a partir do momento em que índias eram violentadas sexualmente pelos europeus, bem como as negras escravas que sofreram o mesmo tipo de violência. (Vilhena,S.Luis)
Muitas famílias foram degradadas pela venda de crianças escravas, diversos outros fatores iam surgindo com a separação de famílias que eram obrigadas a trabalhar nas lavouras e nas casas e as crianças separadas de seus pais e levadas de uma comunidade para outra,os filhos de índias com brancos e outros se perdiam de seus pais sendo capturadas por brancos.
Eram as Santas Casas de Misericórdia, as Confrarias e as Irmandades que se ocupavam dos cuidados aos órfãos. Assim, nesta época, o atendimento à infância abandonada representava a marca da caridade e do assistencialismo que tinham frente as entidades filantrópicas e religiosas.
A mais reconhecida instituição era a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, pelo caráter de instituir a primeira Roda dos expostos, instituída no Brasil, em 1734, tendo a preocupação inicial com os enjeitados, algo pertinente desde 1726, devido a grande quantidade de crianças abandonadas nas ruas de Salvador.
A importância da Mandioca no Brasil
Carboidrato por excelência, fonte de vitaminas e sais minerais, á propósito: o amido transforma-se em açúcar, mas isso não significa que seja indiferente consumir mandioca ou açúcar de cana, pois a absorção da mandioca é mais lenta.
Já no açúcar, a queima é rápida demais, por isso, ele é melhor aproveitado pelo organismo, sendo que a energia excedente acaba se acumulando nos tecidos adiposos sob a forma de gordura.
Para quem está acima do peso é bom não abusar, pois esta raiz é rica em calorias.
A mandioca porém, não é só amido, é boa também em vitaminas e sais minerais.
Para começar, nela encontramos vitamina C e niacina, do complexo B.
Uma é a guardiã dos tecidos e vasos sanguíneos, protetora do corpo contra infecções, além de favorecer a absorção do ferro. A outra atua no metabolismo dos aminoácidos, gorduras e carboidratos, influenciando ainda a quebra da glicose para produção de energia celular.
As mandiocas de polpa amarelada apresentam vantagem adicional: bons teores de caroteno, que é transformado pelo organismo em retinol ou vitamina A, essencial à visão, pele e mucosas.
Quanto aos sais minerais, a mandioca oferece cálcio, fósforo e ferro. O cálcio é fundamental aos ossos, dentes e coagulação do sangue (aí recebe ajuda do fósforo, que também combate a fadiga mental).
O ferro é indispensável ao trabalho da hemoglobina, e levar oxigênio a todos os tecidos do organismo.
As Amas de Leite e a Roda dos Expostos
“Falar mais do que a nêga do leite”– expressão utilizada para dizer que uma pessoa fala em demasia; pessoa tagarela.
A expressão remete às negras escravas que serviam de ama de leite e tinham como função contar histórias para as crianças.
A Roda dos Expostos, era um lugar onde as crianças eram colocadas para que fossem recolhidas pelas freiras.
Elas não permaneciam internadas por muito tempo, pois eram encaminhadas para famílias beneméritas e permaneciam como agregadas.
Estas Rodas surgiram no intuito de conter a prática de abandono de crianças nas ruas da cidade, prática muito comum, que escandalizava a Coroa Portuguesa.
Filhos provindos de relações adúlteras ou realizadas antes do casamento eram abandonados pelas mães; ato solitário, que acontecia à noite, quando os recém-nascidos eram deixados na porta de casas ou na roda dos expostos, bastante difundida em Portugal e que consistia num cilindro onde se colocava o bebê, e que unia a rua às Santas Casas de Misericórdia. Nessas instituições, durante os séculos XVIII e XIX, foram acolhidos 50 mil enjeitados.
A criança enjeitada seria, então, transferida para uma mãe de criação, que muitas vezes via o ato como dotado de religiosidade e como um pagamento de promessas (VENÂNCIO, 1997).
Entretanto, nem só mulheres brancas eram levadas a enjeitar seus filhos. Mulheres negras e pobres, que não tinham condição de criá-los, também apelavam para as Casas de Misericórdia.
Esse ato não se devia, portanto, à condenação de amores proibidos, mas, antes, por motivos de sobrevivência.
Havia ainda outro motivo envolvendo mulheres negras: escravas abandonavam seus filhos nessas instituições numa tentativa desesperada de que estes não se tornassem também cativos; o nível de bastardia entre escravos variava entre 50% e 100% (VENÂNCIO, 1997).
Nestas Rodas tidas como alternativa acontecia também, índices de mortalidade evidenciados.
Por isso foi criado então, um sistema de atenção à saúde e a contratação de amas de leite que viviam na Casa de recolhimento, para cuidar das crianças até outras famílias as acolherem ou até a sua morte.
As Amas-de-leite eram mulheres que amamenta criança alheia quando a mãe natural está impossibilitada de fazê-lo, geralmente esse encargo era dado às escravas que já tinham filhos.
Na foto acima: A ama de leite Mônica e o sinhozinho Augusto Gomes Leal.
A história da amamentação no Brasil nasce do embate cultural entre os índios tupinambás, que amamentavam seus bebês, os colonizadores portugueses que trouxeram na mala o hábito de mães ricas não amamentarem seus filhos e os escravos africanos, deduz-se que amamentavam suas crianças a partir de retratos do tráfico negreiro.
Não demorou muito para que se implantasse na sociedade brasileira a cultura de que não era apropriado às mulheres pertencentes à classe social dominante utilizar seus seios para alimentar seus filhos.
Em Portugal, coube às saloias, camponesas da periferia, amamentar as crianças das famílias abastadas, e aqui no Brasil, com a recusa das índias em desempenhar essa atividade, as escravas africanas foram comercializadas e utilizadas como as conhecidas amas-de-leite.
A partir do século XIX a Igreja, o Estado e Medicina uniram-se na construção do amor materno e na valorização da maternidade como estratégia de controle social das mulheres.
Os higienistas tratavam a amamentação como uma obrigação da mãe, que era vista como um ser determinado biologicamente, sem influências sociais e psicológicas.
No fim do século XIX e começo do século XX, o aleitamento materno deu lugar ao aleitamento artificial.
A industrialização, a urbanização, a entrada da mulher no mercado de trabalho, a redução da importância social da maternidade e a descoberta das fórmulas de leite em pó foram os principais fatores que contribuíram para a diminuição da amamentação.
A prática das amas de leite foi estudada vastamente pela filosofa francesa Elizabeth Badinter (1985) desde a época medieval até a contemporânea na Europa, em especial na França.
Segundo a autora, o costume de delegar a amamentação e o cuidado do filho a uma ama por meio de um contrato de trabalho é antigo na França, conforme a constatação da primeira agência de amas em Paris no século XIII.
Porém nesta época até o século XVI, esta prática era restrita à aristocracia e foi, a partir do século XVII, que a “necessidade” do aluguel das amas atingiu a burguesia e, no século XVIII, se difundiu para todas as camadas sociais urbanas, deixando de ser um hábito das camadas abastadas e se tornando-se uma prática popular, onde a alta demanda no século XVIII ocasionou uma carência de amas no mercado. Para que a mãe preta cuidasse do filho branco, era imposto pelos seus donos o sistemático afastamento desta do seu filho negro, pois a “mercadoria escrava leiteira” era mais lucrativa sem sua cria (Magalhães e Giacomini, 1983 e Orlandi, 1985), tirando a “única possibilidade de relação familiar acessível ao escravo”.
As amas negras muitas vezes eram obrigadas a “depositarem” seus filhos na Roda dos Expostos a mando do seu dono, para a manutenção deste negócio tão rentável (Magalhães e Giacomini, 1983; Orlandi, 1985 e Costa, 1999).
A “proliferação de nhonhôs, implicava o abandono e morte dos moleques” (Magalhães e Giacomini, 1983, p.81).
Assim, este hábito tão “naturalizado” ocorreu à custa do sacrifício e de uma “grande violência, subestimada apenas por não aparecer necessariamente sob forma de chicote” ( Ibid , p.76) a essas mulheres e aos seus filhos.
Tal ocupação já foi até associada à precocidade sexual dos rapazes brasileiros nascidos e criados em engenhos e fazendas.
É pelo menos o que Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, deixa entrever em trecho de sua obra:
"Já houve quem insinuasse a possibilidade de se desenvolver, das relações íntimas da criança branca com a ama-de-leite negra, muito do pendor sexual que se nota pelas mulheres de cor, por parte do filho-família, nos países escravocratas.
A importância psíquica do ato de mamar, dos seus efeitos sobre a criança, é, na verdade, considerada enorme pelos psicólogos modernos; e talvez tenha alguma razão para supor de grande significação esses efeitos no caso de brancos criados por amas negras".
A realidade portuguesa sobre a prática do abandono de crianças, fruto de amores ilícitos, foi glosada pelo Poeta e Dramaturgo Português Gil Vicente
na Comédia de Rubena, "de falso amor enganada", que conseguiu por algum tempo ocultar o seu estado, até ser descoberta pela criada, que lhe diz:
" - Bien entiendo á mi senhora, y elle quiéreme cegar […] Estavades tan bonita Nueve meses habrá" A parteira intervém em tom tranquilizador:
"Bem vejo que estais pejada.
Isto é cousa natural, E muito acontecedeira.
[…] Ide-vos minha donzela, Trazede-me encenso e macella, E a nêvoda […] E três onças de canela"
[…] Empuxae, minha pombinha, E veredes quão asinha Sai o cordeirinho fora o cóneguinho da Sé"
Revelada a paternidade da criança e perante a ameaça da aparição do pai da parturiente, a parteira aconselha que se procure feiticeira para poder "parir segura":
"Levae-a muito escondida e trazede-m'a parida a criancinha engeitá-la onde seja recolhida" […]
Fontes: As amas de leite e a regulamentação biomédica do aleitamento cruzado: contribuições da socioantropolologia e da história(*)
O termo "pirão" procede do termo tupi mindipi'rõ, que significa "ensopado" ou seja farinha de mandioca escaldada com alguma parte liquida, leite, água ou caldo quente de verduras legumes ou mariscos e peixes.
No Brasil, o pirão pode ser preparado com diferentes tipos de caldos.
O pirão mais comum é feito com a mistura da farinha de mandioca com a água em que foram cozidos peixes, formando uma papa viscosa que é comida como acompanhamento do prato principal.
Em Angola da-se o nome de Funge, confeccionado com farinha de milho ou de mandioca.
A farinha é cozida e mexida com muita frequência e de forma enérgica , para que se obtenha a consistência certa.
A variante feita com milho adquire uma tonalidade amarela, enquanto que a confeccionada com mandioca apresenta uma cor acinzentada, com laivos de castanho.
A consistência final assemelha-se, de certa forma, a uma cola, dado o seu carácter pegajoso, e normalmente usado como acompanhamento da Moamba de Galinha.
O Pirão de Leite é um acompanhamento da Carne do Sol em muitas cidades do Sertão, talvez numa necessidade de compensação alimentar, o Pirão de Leite, compreende um alimento super proteico e energético, rico em vitaminas, proteinase carboidrato, para fazer frente à uma alimentação pobre e pobre em nutrientes.
Durante o período colonial 1500-1822), o cultivo da Mandioca, foi incentivado até por decreto régio.
Senhores de engenho eram obrigados a plantá-la, em quantidades proporcionais ao número de escravos - tanto que se tornaria símbolo de riqueza, usada para avaliar a fortuna pessoal dos proprietários de terra.
A pobreza e a carência alimentar no Brasil datam de muito tempo, desde a concepção de colônia de exploração, e do sistema senhorial constituído; período este que data desde 1500, quando os povos indígenas foram expulsos de seus territórios onde residiam, no litoral, todos os recursos naturais e plantações de onde tiravam a sua sobrevivência, na vigência do sistema colonial.
Foram expulsos para o interior do país, regiões onde havia seca, terras inférteis, como foi o caso especificamente da Bahia, onde muitos passavam fome.
Começa a desagregação familiar, a partir do momento em que índias eram violentadas sexualmente pelos europeus, bem como as negras escravas que sofreram o mesmo tipo de violência. (Vilhena,S.Luis)
Muitas famílias foram degradadas pela venda de crianças escravas, diversos outros fatores iam surgindo com a separação de famílias que eram obrigadas a trabalhar nas lavouras e nas casas e as crianças separadas de seus pais e levadas de uma comunidade para outra,os filhos de índias com brancos e outros se perdiam de seus pais sendo capturadas por brancos.
Eram as Santas Casas de Misericórdia, as Confrarias e as Irmandades que se ocupavam dos cuidados aos órfãos. Assim, nesta época, o atendimento à infância abandonada representava a marca da caridade e do assistencialismo que tinham frente as entidades filantrópicas e religiosas.
A mais reconhecida instituição era a Santa Casa de Misericórdia da Bahia, pelo caráter de instituir a primeira Roda dos expostos, instituída no Brasil, em 1734, tendo a preocupação inicial com os enjeitados, algo pertinente desde 1726, devido a grande quantidade de crianças abandonadas nas ruas de Salvador.
A importância da Mandioca no Brasil
Carboidrato por excelência, fonte de vitaminas e sais minerais, á propósito: o amido transforma-se em açúcar, mas isso não significa que seja indiferente consumir mandioca ou açúcar de cana, pois a absorção da mandioca é mais lenta.
Já no açúcar, a queima é rápida demais, por isso, ele é melhor aproveitado pelo organismo, sendo que a energia excedente acaba se acumulando nos tecidos adiposos sob a forma de gordura.
Para quem está acima do peso é bom não abusar, pois esta raiz é rica em calorias.
A mandioca porém, não é só amido, é boa também em vitaminas e sais minerais.
Para começar, nela encontramos vitamina C e niacina, do complexo B.
Uma é a guardiã dos tecidos e vasos sanguíneos, protetora do corpo contra infecções, além de favorecer a absorção do ferro. A outra atua no metabolismo dos aminoácidos, gorduras e carboidratos, influenciando ainda a quebra da glicose para produção de energia celular.
As mandiocas de polpa amarelada apresentam vantagem adicional: bons teores de caroteno, que é transformado pelo organismo em retinol ou vitamina A, essencial à visão, pele e mucosas.
Quanto aos sais minerais, a mandioca oferece cálcio, fósforo e ferro. O cálcio é fundamental aos ossos, dentes e coagulação do sangue (aí recebe ajuda do fósforo, que também combate a fadiga mental).
O ferro é indispensável ao trabalho da hemoglobina, e levar oxigênio a todos os tecidos do organismo.
As Amas de Leite e a Roda dos Expostos
“Falar mais do que a nêga do leite”– expressão utilizada para dizer que uma pessoa fala em demasia; pessoa tagarela.
A expressão remete às negras escravas que serviam de ama de leite e tinham como função contar histórias para as crianças.
A Roda dos Expostos, era um lugar onde as crianças eram colocadas para que fossem recolhidas pelas freiras.
Elas não permaneciam internadas por muito tempo, pois eram encaminhadas para famílias beneméritas e permaneciam como agregadas.
Estas Rodas surgiram no intuito de conter a prática de abandono de crianças nas ruas da cidade, prática muito comum, que escandalizava a Coroa Portuguesa.
Filhos provindos de relações adúlteras ou realizadas antes do casamento eram abandonados pelas mães; ato solitário, que acontecia à noite, quando os recém-nascidos eram deixados na porta de casas ou na roda dos expostos, bastante difundida em Portugal e que consistia num cilindro onde se colocava o bebê, e que unia a rua às Santas Casas de Misericórdia. Nessas instituições, durante os séculos XVIII e XIX, foram acolhidos 50 mil enjeitados.
A criança enjeitada seria, então, transferida para uma mãe de criação, que muitas vezes via o ato como dotado de religiosidade e como um pagamento de promessas (VENÂNCIO, 1997).
Entretanto, nem só mulheres brancas eram levadas a enjeitar seus filhos. Mulheres negras e pobres, que não tinham condição de criá-los, também apelavam para as Casas de Misericórdia.
Esse ato não se devia, portanto, à condenação de amores proibidos, mas, antes, por motivos de sobrevivência.
Havia ainda outro motivo envolvendo mulheres negras: escravas abandonavam seus filhos nessas instituições numa tentativa desesperada de que estes não se tornassem também cativos; o nível de bastardia entre escravos variava entre 50% e 100% (VENÂNCIO, 1997).
Nestas Rodas tidas como alternativa acontecia também, índices de mortalidade evidenciados.
Por isso foi criado então, um sistema de atenção à saúde e a contratação de amas de leite que viviam na Casa de recolhimento, para cuidar das crianças até outras famílias as acolherem ou até a sua morte.
As Amas-de-leite eram mulheres que amamenta criança alheia quando a mãe natural está impossibilitada de fazê-lo, geralmente esse encargo era dado às escravas que já tinham filhos.
Na foto acima: A ama de leite Mônica e o sinhozinho Augusto Gomes Leal.
A história da amamentação no Brasil nasce do embate cultural entre os índios tupinambás, que amamentavam seus bebês, os colonizadores portugueses que trouxeram na mala o hábito de mães ricas não amamentarem seus filhos e os escravos africanos, deduz-se que amamentavam suas crianças a partir de retratos do tráfico negreiro.
Não demorou muito para que se implantasse na sociedade brasileira a cultura de que não era apropriado às mulheres pertencentes à classe social dominante utilizar seus seios para alimentar seus filhos.
Em Portugal, coube às saloias, camponesas da periferia, amamentar as crianças das famílias abastadas, e aqui no Brasil, com a recusa das índias em desempenhar essa atividade, as escravas africanas foram comercializadas e utilizadas como as conhecidas amas-de-leite.
A partir do século XIX a Igreja, o Estado e Medicina uniram-se na construção do amor materno e na valorização da maternidade como estratégia de controle social das mulheres.
Os higienistas tratavam a amamentação como uma obrigação da mãe, que era vista como um ser determinado biologicamente, sem influências sociais e psicológicas.
No fim do século XIX e começo do século XX, o aleitamento materno deu lugar ao aleitamento artificial.
A industrialização, a urbanização, a entrada da mulher no mercado de trabalho, a redução da importância social da maternidade e a descoberta das fórmulas de leite em pó foram os principais fatores que contribuíram para a diminuição da amamentação.

Segundo a autora, o costume de delegar a amamentação e o cuidado do filho a uma ama por meio de um contrato de trabalho é antigo na França, conforme a constatação da primeira agência de amas em Paris no século XIII.
Porém nesta época até o século XVI, esta prática era restrita à aristocracia e foi, a partir do século XVII, que a “necessidade” do aluguel das amas atingiu a burguesia e, no século XVIII, se difundiu para todas as camadas sociais urbanas, deixando de ser um hábito das camadas abastadas e se tornando-se uma prática popular, onde a alta demanda no século XVIII ocasionou uma carência de amas no mercado. Para que a mãe preta cuidasse do filho branco, era imposto pelos seus donos o sistemático afastamento desta do seu filho negro, pois a “mercadoria escrava leiteira” era mais lucrativa sem sua cria (Magalhães e Giacomini, 1983 e Orlandi, 1985), tirando a “única possibilidade de relação familiar acessível ao escravo”.
As amas negras muitas vezes eram obrigadas a “depositarem” seus filhos na Roda dos Expostos a mando do seu dono, para a manutenção deste negócio tão rentável (Magalhães e Giacomini, 1983; Orlandi, 1985 e Costa, 1999).
A “proliferação de nhonhôs, implicava o abandono e morte dos moleques” (Magalhães e Giacomini, 1983, p.81).
Assim, este hábito tão “naturalizado” ocorreu à custa do sacrifício e de uma “grande violência, subestimada apenas por não aparecer necessariamente sob forma de chicote” ( Ibid , p.76) a essas mulheres e aos seus filhos.
Tal ocupação já foi até associada à precocidade sexual dos rapazes brasileiros nascidos e criados em engenhos e fazendas.
É pelo menos o que Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, deixa entrever em trecho de sua obra:
"Já houve quem insinuasse a possibilidade de se desenvolver, das relações íntimas da criança branca com a ama-de-leite negra, muito do pendor sexual que se nota pelas mulheres de cor, por parte do filho-família, nos países escravocratas.
A importância psíquica do ato de mamar, dos seus efeitos sobre a criança, é, na verdade, considerada enorme pelos psicólogos modernos; e talvez tenha alguma razão para supor de grande significação esses efeitos no caso de brancos criados por amas negras".

na Comédia de Rubena, "de falso amor enganada", que conseguiu por algum tempo ocultar o seu estado, até ser descoberta pela criada, que lhe diz:
" - Bien entiendo á mi senhora, y elle quiéreme cegar […] Estavades tan bonita Nueve meses habrá" A parteira intervém em tom tranquilizador:
"Bem vejo que estais pejada.
Isto é cousa natural, E muito acontecedeira.
[…] Ide-vos minha donzela, Trazede-me encenso e macella, E a nêvoda […] E três onças de canela"
[…] Empuxae, minha pombinha, E veredes quão asinha Sai o cordeirinho fora o cóneguinho da Sé"
Revelada a paternidade da criança e perante a ameaça da aparição do pai da parturiente, a parteira aconselha que se procure feiticeira para poder "parir segura":
"Levae-a muito escondida e trazede-m'a parida a criancinha engeitá-la onde seja recolhida" […]
Fontes: As amas de leite e a regulamentação biomédica do aleitamento cruzado: contribuições da socioantropolologia e da história(*)
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