A MEMÓRIA ENTRE DOIS MUNDOS: A QUEIJADINHA E A MADELEINE DE PROUST.

A história da queijadinha é realmente fascinante e cheia de camadas culturais. 

A versão portuguesa, que leva queijo, é uma base interessante, mas a adaptação brasileira com o coco ralado, influenciada pela cultura africana, reflete a forma como a gastronomia local se transformou ao longo do tempo. 

Essa troca do queijo pelo coco não só altera o sabor, mas também adiciona um elemento de identidade que é muito característico da culinária brasileira, marcada por trocas, influências e reinvenções. 

Então, sim, podemos dizer que a "queijadinha de coco" é definitivamente uma invenção brasileira, com raízes profundas nas influências africanas e portuguesas.

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A queijadinha é uma verdadeira cápsula de memória, um doce que carrega as influências da doçaria portuguesa, do saber africano das mulheres escravizadas e das tradições indígenas, resultando em uma mistura de sabores e texturas que remetem à construção de uma identidade cultural brasileira. 

Assim como a Madeleine de Proust é mais que uma simples iguaria — é uma ponte para o passado e para o coração —, a queijadinha é muito mais do que um doce; é um elo afetivo que conecta gerações, seja em festas juninas, celebrações religiosas ou nas quitandas caseiras, onde ela ressurge, com seu sabor característico, como um fragmento de memória afetiva e cultural.

Ambos os doces são símbolos de uma intimidade culinária, representando o lugar de origem, mas também o poder de resgatar momentos, de reavivar emoções e, principalmente, de criar um espaço afetivo em que as histórias de nossos antepassados continuam vivas — seja na textura cremosa da queijadinha ou na suavidade de uma Madeleine que flutua entre o presente e o passado.

Queijadinha: um doce entre Portugal e o Brasil

A queijadinha é um doce tradicional da doçaria brasileira, especialmente na Bahia, com raízes na influência portuguesa e africana. Sua origem remonta ao período colonial, quando a doçaria lusitana encontrou novos ingredientes no Brasil, como o coco e o açúcar de cana.

Origens Portuguesas e Adaptação Tropical

O nome "queijadinha" vem da doçaria portuguesa, inspirada nas "queijadas", pequenos doces feitos com queijo fresco, ovos e açúcar. As mais famosas são as de Sintra e Évora, que utilizam queijo ou requeijão. Ao chegar ao Brasil, a receita foi adaptada ao uso de ingredientes locais, especialmente o coco, abundante no Nordeste.

Influência Africana e Indígena

Na Bahia, o uso do coco ralado e do açúcar mascavo nas queijadinhas foi fortemente influenciado pelo conhecimento africano e indígena sobre esses ingredientes. As mulheres africanas escravizadas, que dominavam as cozinhas dos engenhos e casas-grandes, incorporaram suas técnicas e saberes, resultando em doces mais úmidos e intensamente aromáticos.

Curiosamente, apesar do nome, muitas versões da queijadinha não levam queijo. Conta-se que a mudança ocorreu quando um escravo substituiu o queijo pelo coco, tornando o doce único na tradição brasileira.

"Dentro da extrema especialização de escravos no serviço doméstico das casas-grandes, reservaram-se sempre dois, às vezes três indivíduos, aos trabalhos de cozinha. De ordinário, grandes pretalhonas; às vezes negras incapazes de serviço bruto, mas sem rivais no preparo de quitutes e doces. [...] Foram estes os grandes mestres da cozinha colonial; continuavam a ser os da moderna cozinha brasileira. Inclusive da doçaria." (FREYRE, 2007, p. 193).

Esse trecho de Gilberto Freyre aborda a complexa dinâmica de trabalho dentro das casas-grandes e a especialização dos escravizados no serviço doméstico, destacando os indivíduos que desempenhavam funções na cozinha. A ênfase recai sobre aqueles que, muitas vezes por questões de fraqueza física, se especializavam em tarefas delicadas como a preparação de quitutes e doces, e que, mesmo dentro da servidão, eram reconhecidos como mestres na culinária. Essa especialização desses negros, embora fruto de um sistema opressor, formou a base da culinária colonial e, posteriormente, da gastronomia moderna brasileira. A menção ao "doçaria" também revela como a cozinha afro-brasileira foi influenciada por técnicas e receitas que, até hoje, marcam a identidade culinária do país.

A Queijadinha na Bahia

"A nossa cozinha nacional tem primores que merecem ser cantados em todas as línguas." — Luís da Câmara Cascudo


Na tradição baiana, a queijadinha se tornou um ícone das quitandas e tabuleiros de doceiras. Com uma textura cremosa e crocante na superfície, esse doce ganhou variações, podendo levar queijo coalho ou parmesão, além do coco fresco ralado. Presença constante em festas populares, mercados e feiras, é um exemplo vivo da fusão de influências culturais na culinária brasileira.

Memória Amadiana

Podemos encontrar a deliciosa receita de Queijadinha no livro de Cozinha de Pedro Archanjo com as Merendas de Dona Flor, foi publicado em 1960. A obra apresenta receitas tradicionais da culinária baiana, com uma forte ligação à cultura afro-brasileira e à gastronomia popular da Bahia.

Em Dona Flor e seus dois maridos as representações da culinária da Bahia, considerando que Jorge Amado escreveu essa narrativa nos anos 1960, e a história de Dona Flor se passa, possivelmente, entre as décadas de 1930 e 19401 (AMADO, 2008). 

O romance nos fornece indicadores da existência, nesse período, de uma indústria de alimentos ainda incipiente e evidencia a importância do Recôncavo Baiano e do entorno da Baía de Todos os Santos no fornecimento de boa parte dos ingredientes da cozinha baiana. Por isso, essa cozinha literária, inventada no cotidiano da fictícia cidade do Salvador, contribui de modo inestimável como registro de um patrimônio cultural construído por negros da diáspora e pelos povos afrodescendentes, como demonstra Manuel Querino em seu estudo sobre a culinária local.

No romance amadiano, aqueles que preparam a comida e os que a consomem colaboram na preservação de uma cultura alimentar ancestral. 

A Queijadinha em Sergipe

A queijadinha em Sergipe segue a tradição nordestina desse doce, mas apresenta características próprias que refletem a cultura alimentar do estado. Em Sergipe, a queijadinha é presença certa em feiras livres, quitandas e festas populares, sendo apreciada como um lanche ou sobremesa.

Esta receita era encontrada até os anos 70 em Salvador, vendido nas ruas, mais precisamente, em frente a Igreja do Rosário na Av. Sete de Setembro.

Características da Queijadinha Sergipana

Embora a base da receita seja semelhante à de outras regiões — levando coco ralado, açúcar, ovos e manteiga —, em Sergipe, o queijo coalho é um dos ingredientes mais usados, conferindo um sabor levemente salgado que equilibra a doçura. Outra variação comum é a adição de leite de coco fresco, que torna a queijadinha mais úmida e aromática.

No interior do estado, muitas doceiras ainda preparam a queijadinha de forma artesanal, assando-a em fornos a lenha, o que dá ao doce um leve toque defumado. Em festas juninas e celebrações religiosas, como a tradicional Festa do Bom Jesus dos Navegantes em Aracaju, a queijadinha é encontrada ao lado de outras delícias regionais, como a queijada sergipana, um doce assado que leva mais farinha de trigo na composição, resultando em uma textura mais firme.

Curiosidade: A Queijada Sergipana

Em Sergipe, além da queijadinha, há também a queijada sergipana, que se diferencia por ser feita com uma massa mais estruturada, geralmente levando farinha de trigo, leite e queijo, e assada até formar uma casquinha dourada. Essa versão lembra um pouco as queijadas portuguesas originais e é um doce muito popular em cidades como São Cristóvão, um dos berços da culinária sergipana.

Receita de Queijadinha Sergipana

Ingredientes:

•1 xícara de coco fresco ralado

•½ xícara de queijo coalho ralado

•1 xícara de açúcar

•3 ovos

•1 colher de sopa de manteiga

•½ xícara de leite de coco

•2 colheres de sopa de farinha de trigo (opcional, para dar mais firmeza)

Modo de Fazer:

1. Misture todos os ingredientes em uma tigela até formar uma massa homogênea.

2. Despeje a massa em forminhas untadas ou de papel.

3. Asse em forno pré-aquecido a 180°C por cerca de 25 minutos ou até dourar.

4. Deixe esfriar antes de servir.

Seja na versão clássica ou com adaptações locais, a queijadinha segue sendo um doce muito querido em Sergipe, trazendo o sabor da tradição e da criatividade culinária nordestina.

A Tradição da Queijadinha e a Cultura Brasileira

A doçaria colonial era, muitas vezes, um segredo de família. Gilberto Freyre e Câmara Cascudo destacaram como as receitas eram transmitidas de geração em geração, mantendo-se como heranças culinárias. Segundo Freyre, "no Nordeste, assumiram forma emblemática, como brasões de grandes famílias".

A queijadinha se insere nesse contexto, sendo um doce afetivo e popular, presente em festas juninas, celebrações familiares e até mesmo em versões gourmet em confeitarias. Mais do que uma receita, carrega a história de um Brasil mestiço, onde diferentes tradições se misturam na cozinha.

Receita Tradicional de Queijadinha

Ingredientes:

•½ xícara de água (120ml)

•1 ½ xícara de açúcar (225g)

•50g de manteiga gelada em cubos

•4 ovos

•1 xícara de coco fresco ralado fino

•⅓ de xícara de farinha de trigo (40g)

•½ xícara de queijo minas fresco, meia cura ou parmesão (50g)

•15 forminhas descartáveis de 2 cm de diâmetro

Modo de Fazer:

•1. Misture a água e o açúcar até dissolver.

•2. Leve ao fogo com tampa até ferver; depois destampe e cozinhe por 5 minutos, até obter uma calda espessa.

•3. Retire do fogo, junte a manteiga e deixe esfriar.

•4. Passe os ovos por uma peneira e misture à calda. Adicione o coco, a farinha e o queijo, formando um creme homogêneo.

•5. Aqueça o forno a 180ºC e prepare uma assadeira com água quente para banho-maria.

•6. Despeje a massa em forminhas de papel dentro de formas de empada.

•7. Asse por cerca de 30 minutos, até dourar e firmar.

•8. Retire do forno, deixe esfriar e sirva.


QUEIJADINHA PATRIMÔNIO IMATERIAL DE SÃO CRISTOVÃO-SERGIPE 


Essa versão clássica destaca o sabor do coco e do queijo, mantendo a textura cremosa e o topo levemente caramelizado — uma característica adorada por quem aprecia a queijadinha tradicional.

A queijadinha de Dona Marieta, em São Cristóvão/SE, é um exemplo notável de como aa culinária local pode ser integrada ao turismo cultural para impulsionar o desenvolvimento regional. Este doce tradicional, originário de Portugal, foi adaptado ao longo do tempo, incorporando ingredientes locais como o coco, e tornou-se um símbolo da identidade cultural de São Cristóvão.

A pesquisa "A Queijadinha de Dona Marieta em São Cristóvão/SE no Contexto do Folkturismo como Estratégia para o Desenvolvimento Local" analisa como a promoção desse doce como atração turística contribui para o fortalecimento da economia local e a valorização da cultura sergipana. O estudo destaca a importância da folkcomunicação, teoria que observa a apropriação dos bens culturais como atrações turísticas através de meios de informação e comunicação, e como elementos da produção local, como manifestações culturais, religiosas e gastronômicas, podem se tornar produtos vendáveis que impactam a economia da região. 

Além disso, a queijadinha de Dona Marieta foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe em 2011, evidenciando seu valor cultural e potencial como atrativo turístico. 


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